Tag: Avanços

A vida está complicada? Então vamos falar de cabelo…

Dominique - Cabelo

Quando a procura por um simples produto de cabelo se torna um novo aprendizado.

“Você está em transição?” escutei atrás de mim. Olhei pasma para a vendedora. Estava em uma dessas lojas imensas de cosméticos, que, de repente, proliferaram, atrás de algum produto que ressuscitasse meu cabelo.

O que ela queria dizer com transição? Imaginou que eu estava tentando me livrar de algum vício. Ou estava sendo iniciada em uma seita. Ou adivinhou que estou mudando de área profissional?

Veio o esclarecimento: “Os seus cachos já estão pegando jeito”. Vi que se referia ao meu cabelo, mas não entendi o que queria dizer. Voltei para minha perplexidade diante da gôndola de produtos capilares com uns cinco metros de extensão. Para variar, estava paralisada, o que sempre acontece quando me deparo com excesso de oferta. Acabei saindo de mãos abanando.

Como estava decidida a dar um jeito no cabelo, fui pesquisar. Descobri não apenas o que a moça queria dizer com “transição”, mas também que havia surgido uma nova ciência para tratar de cabelos crespos agredidos por anos de química e manipulação térmica.

Diga-me – existe alguma área da vida que não esteja ficando cada vez mais complexa? Seja escolher um tempero no supermercado ou comprar um notebook, nada mais parece simples. Exige uma imersão no Google e muita consulta com especialistas.

No princípio, era apenas o xampu. Acho que nos anos 80, o condicionador (ou creme rinse?) sacudiu o mercado. Mas revolução veio mesmo com o creme de enxaguar, o milagroso leave in. Resolveu a vida de quem queria ter cabelos crespos que não vivessem em estado de frizz. Resolveu? Eu não sabia de nada, pobrezinha.

Como fez a Embrapa com a agricultura brasileira, algum órgão passou a pesquisar cabelos crespos com todas as ferramentas disponíveis pela ciência. Provavelmente, recuperar cabelos não tinha muita diferença de revitalizar terrenos degradados por séculos de queimadas e pesticidas. Ou desenvolver espécies menos agressivas ao meio ambiente.

O resultado impressiona. E me arrisco a dizer mais – a preocupação que nós, brasileiras, damos ao cabelo, talvez faça surgir um mercado tão promissor quanto se tornou o agronegócio. Quem sabe, logo, logo, a exportação de know how e itens capilares ocupará posição de peso na pauta de exportação do Brasil, com produtos de alto valor agregado.

Resumindo, a revolução no campo chegou aos cabelos. Tive um choque ao saber que o xampu virou um vilão. O prescrito agora é lavar o cabelo com… O condicionador. E só valem produtos livres de sulfato (o elemento responsável pela espuma) e de produtos derivados de petróleo. De preferência, orgânicos.

Além de hidratar, tarefa de dezenas de produtos, não se pode deixar de nutrir os fios. E lá se vai mais uma miríade de marcas para escolher. No lugar dos dois ou três produtos que usávamos, agora são seis ou sete. Conselho de amiga – não vá a uma loja dessas sem saber exatamente o produto e a marca que deseja. Ou aceite a sensação de profunda ignorância que toma conta da gente.

Depois de se entender sobre os produtos, chega a hora de se inteirar dos processos. Passar o produto, fazer espuma e enxaguar? Esqueça. Tem o jeito certo de movimentar o couro cabeludo, de umectar as mechas, de prender para conseguir melhor absorção… Você vai precisar de um manual de instrução.

Esse manual, com certeza, vai trazer mais uma surpresa – a classificação dos crespos segundo a dimensão dos cachos. Não são três ou quatro, superam os dez. Fiquei sabendo que os meus estão na categoria 3A.

Pensa que estou dando um furo de reportagem? É pura notícia velha, eu é que estava desinformada. Há muitos anos, a classificação oficial de cabelos circula entre os entendidos. Faz uns cinco anos, começou a se espalhar massivamente com a ajuda de centenas de blogs que promovem a redenção dos cabelos crespos.

Por fim, entendi a tal da transição. O termo não tem nada de religioso, porém, encontrei uma conotação filosófica. Para voltar ao seu estado original, o cabelo excessivamente manipulado (digamos assim) precisa passar por um período de desintoxicação, que exige muita paciência e persistência, às vezes, de dois anos.

E também desapego, porque os fios danificados são cortados bem curto para conseguirem crescer livres da dependência química. Muito parecido ao método do AAA – um dia de cada vez. Quando os cabelos estão crescidos, só se ouve falas de mulheres maravilhadas com a descoberta da beleza que tanto tempo tentaram negar.

Quantos vezes na vida não nos deparamos com essa exigência de superação, não é mesmo? A aceitação do fim de um ciclo profissional e a busca de outra forma de aplicar nossos talentos. Os filhos saem de casa e voltam com a própria família. Um casamento esgotado dá espaço a uma nova chance de amor. Aprendi muito com a intervenção daquela vendedora.

Inês Godinho
Inês Godinho

Jornalista, brasileira, ciente das imperfeições e das maravilhas da vida. Contradições? Nada causa mais sofrimento do que um texto por começar e não há maior alegria que terminá-lo.

2 Comentários
  1. Delicia de surpresa! Sabia q vc escrevia mas assim gostoso? Aprendi mt e tenho certeza que tb estou em fase de transição…E defasada nas informações sobre os famigerados crespos….

  2. adorei o texto, o humor , a leveza deliciosa e informativa do texto da Inês. Um primor> Como vitima de cabelos crespos, amei.

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Está na hora de rever alguns tabus!

Dominique - Tabus

Estes dias eu comentei que acho que existe apenas um único pecado: fazer mal intencionalmente para alguém.
Mas até pouco tempo não era assim não. A sociedade nos condenava por muito mais do que sete pecados capitais.
Gente… lembra… 20, 30 anos atrás alguns comportamentos eram considerados tabus.
Não se tratava apenas de fazíamos.
Algumas vezes ser ou sentir-se diferente do padrão era simplesmente proibido, censurado.

Só que hoje eu vou falar do que mudou!
Ah, sim… porque muita coisa está diferente.
E acho que contribuímos muito para esta evolução.
Quer ver?

Casar grávida
Consciência do nosso corpo, mais conhecimento e mais diálogo. Pois é, se o bebê chegou antes qual é o problema?

Não casar virgem
A sexualidade é intrínseca ao ser humano e não é pecado. Uma mulher tem a opção de se casar virgem ou não, não uma obrigação.

Ter amigas divorciadas
Se não deu certo, vou dar a maior força para ela seguir em frente. Medo, receio… é tão ultrapassado.

Ter uma profissão considerada masculina
Uma profissão não é certa para mim porque eu não quero. Eu que decidi simplesmente porque não é minha vocação.

Praticar esportes considerados masculinos
Eu, um dia, fui proibida de fazer luta porque não era para mulheres. E pensar que hoje eu luto muito bem, em tudo na vida.

Morar sozinha
O que as pessoas vão pensar? Que eu quero morar sozinha, ter um canto só meu.

Viajar com namorado
Se meu namorado é quem eu escolhi para compartilhar a vida agora, com certeza é a melhor a companhia para uma viagem.

Relacionamentos interraciais
Adoro ver que o amor pode ser colorido, tudo misturado.

Mulher ganhar mais que o homem
Eu trabalho pra caramba pra ganhar meu pãozinho de cada dia. Se sou mais bem-sucedida e meu salário é mais alto é por competência, darling!

Comentar sobre doença
Falar que alguém estava com câncer, por exemplo, era proibido. Pode contar comigo. Farei o que puder para te apoiar.

Falar sobre sexo na família
Pais não falavam com os filhos; e os filhos não contavam para os pais. Tanta coisa pode mudar quando há diálogo.

Infidelidade
Se aconteceu, é um momento triste pra ambos. Mas nem o casal, e muito menos seus filhos, devem ser marcados por isso

Comer manga com leite
Ah… este em casa ainda é um tabu. Assim como esperar uma hora após o almoço para tomar o banho!!!

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Dominique

Nasceu em 1964. Ela tem 55 anos, mas em alguns posts terá 50, 56, 48, 45. Sabe porque? Por que Dominique representa toda uma geração de mulheres. Ela existe para dar vida e voz às experiências, alegrias, dores, e desejos de quem até pouco tempo atrás era invisível. Mas NÓS estamos aqui e temos muito o que compartilhar. Acompanhe!

1 Comentário
  1. Mudou muita cousa mesmo… De uma geração para outra já nota se a diferença.. Entro sozinha em restaurantes e minha profe de inglês que é de uma geração anterior fica boquiaberta.. Ando sozinha por ai.. Com o nariz retinhho.. Não sou eu que me esforcei e passo minhas dores sozinha??? O mundo é meu.

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