As Sequelas

Amor Escolhido Cap 3

Chegou ao hospital cedo e reparou que, diferentemente do dia anterior, todos os funcionários usavam máscaras 

Já na UTI, só era possível entrar depois de fazer todo um procedimento e vestir uma paramentação especial, o que não acontecia na véspera.  

A enfermeira explicou que a pandemia tinha chegado pra valer ao Brasil, e que já estavam com 15 doentes em respiradores e dois andares com pacientes graves. 

Quando entrou ficou assustada. Todos os leitos de UTI vazios à espera de pacientes com COVID-19, com exceção do de Cassio. Ele já estava acordado, ela chegou sorrindo por detrás da máscara, tentando disfarçar o nervosismo e a ansiedade.  

‒ Dominique nique nique…

Sim, ele a reconheceu e a saudou como sempre o fez. Segurou sua mão esquerda para que ele pudesse sentir o toque mesmo que pelo latex da luva. 

Foram minutos de silêncio nos quais palavras eram realmente desnecessárias. Ficaram se olhando apenas, e tudo foi dito. O horário de visita da UTI termina justamente quando chega o médico:

‒ O paciente está com importantes sequelas motoras em seu lado direito, e já notamos alteração da fala.

‒ Ele voltará ao normal doutor?

‒ Vai depender de muitos fatores, inclusive da determinação dele no processo de recuperação. O quarto na Semi Intensiva já está preparado e logo será levado para lá. Caso passe bem essa noite, amanhã irá para casa com HomeCare.

Estava tudo acontecendo muito rapidamente, estava perdida, sem saber por onde começar. Ou terminar. 

Saiu do hospital e resolveu dar uma caminhada para tentar organizar as ideias.

Andou..Andou..Andou…

Sabia o que tinha que ser feito. Não podia mais ser adiado. 

Mandou uma mensagem para Guilherme perguntando se poderiam conversar naquele momento. Já estava no carro a caminho quando recebeu um seco “Sim” dele.

Usou sua chave para entrar em casa e viu seu marido em pé encostado na parede esperando por ela.

Sua aparência não era boa, parecia cansado. Não, aquela expressão não era cansaço. Conhecia-o bem demais… Sua boca secou quando viu que seu marido estava extremamente triste. O que ela poderia esperar? Na verdade, não tinha tido muito tempo de esperar por nada.

Foi Guilherme quem rompeu o silêncio:

‒ Sabe quantas vezes você, sem perceber, me chamou de Cassio esses anos?

‒ E você nunca me chamou à atenção?

‒ Não. Porque aí teria que perguntar quem era Cassio e, talvez, não estivesse preparado para a resposta. Mas chegou a hora. Quem é Cassio, Dominique?  

Seguiu-se uma longa e dolorida conversa. Choros, gritos, raiva, decepção, tristeza, mágoas antigas de ambos os lados, lavação de roupa suja, imunda.  Foi uma conversa que não acabou. Estavam tão dilacerados que sabiam que não aguentariam mais nenhum espinho de dor. 

O apartamento estava preparado para receber o doente. 

O pessoal do HomeCare já estava a postos quando a ambulância chegou. 

Dominique não queria acreditar que estava vivendo aquilo. Aquele homem totalmente dependente, deitado numa cama no meio da sala e sendo cuidado por 2 enfermeiros. Três turnos de profissionais, fisioterapeuta e fonoaudióloga, além das visitas do neurologista. 

Dias depois, gerenciando aquela confusão, ela não entendeu direito as consequências do pronunciamento do governador que decretara quarentena e isolamento por conta do COVID-19.

Só caiu a ficha, quando o médico ligou para dar as orientações da semana e perguntou como ela pretendia fazer quando dispensasse o HomeCare.

‒ Como assim doutor?

‒ Você não pode ter pessoas entrando e saindo de sua casa. Isso é quarentena. Ainda mais com um doente vulnerável em estado crítico. 

‒ Doutor, como eu vou fazer? Ele precisa de muitos cuidados. Está melhorando, mas continua totalmente dependente.

‒ Vamos pensar juntos, não entre em pânico.

Quando desligou, viu que Cassio olhava para ela com lágrimas nos olhos. Tinha ouvido a conversa e sabia tudo o que estava causando na vida daquela mulher. Não era sua intenção. 

Dominique contratou um dos enfermeiros do HomeCare que topou ficar sem sair o tempo que fosse necessário. Um problema a menos, apesar de ter que se acostumar com a presença de Moacyr 24 horas por dia dentro de casa. Tudo era novo. Muito novo.

Ela e Guilherme acordaram que ainda não contariam nada para os filhos, e a quarentena justificaria a total ausência de ambos. O discurso seria o cuidado deles, filhos, com os pais, grupo de risco. Não seria difícil mantê-los à distância. Talvez até agradecessem esse descompromisso, assim poderiam ser os egoístas de sempre, mas sem culpa. 

A primeira semana de quarentena foi de adaptação. Além das tarefas diárias, Dominique ficou encarregada de aplicar fisioterapia no paciente, mediante orientação da profissional via Zoom. Moacyr ajudava muito, especialmente nessa hora. A mesma coisa com a fono. O dia a dia de um doente em recuperação de um AVC é movimentado, mas acaba ficando ainda mais pesado para quem está cuidando dele.

Ela não tinha tempo para respirar.  Ao ouvir a música de abertura de certo telejornal dominical, deu-se conta de que apenas uma semana tinha se passado desde aquele telefonema da madrugada.

Como pode uma semana ter a duração de tantos anos? Aquele último almoço em família parecia algo tão distante, acontecido há tanto tempo e numa vida que não mais lhe pertencia. 

Não queria pensar no passado agora. Muito menos no futuro. 

Seus filhos trocaram algumas poucas mensagens burocráticas com ela. O suficiente para saber que estavam bem. A filha que estava na praia, disse que ficaria por lá durante a quarentena. Os meninos, como sempre, não deram muita satisfação, mas também não a pediram.  Sobre Guilherme, nada sabia e não tinha como saber. Sua fiel escudeira que trabalhava há anos com sua família estava na casa dela cumprindo o isolamento social. 

Não eram só pessoas que estavam isoladas parecia que os acontecimentos também. Conhecia bem o marido e sabia que ele jamais se exporia antes de ter a situação completamente sob controle e resolvida. Aliás, se dependesse dele, ninguém saberia que sua esposa estava fora de casa cuidando de seu long term lover. Sorriu quando pensou no termo em inglês, digno de romances de Danielle Steel. Portanto, para o universo, nada tinha mudado na vida de Gui e Dominique.

Os dias foram passando, e a recuperação de Cassio era impressionante. Todo dia uma nova pequena conquista. Ele já ficava em pé, ensaiava passos e se esforçava muito a ponto de, em certos momentos, beirar a exaustão. Então, Dominique definiu horários obrigatórios de descanso e atividades recreativas para todos. Naqueles momentos, apesar de sua completa falta de foco, ela tentava ler. Cassio geralmente escutava música com fones de ouvidos e Moacyr assistia à TV. 

Foi num desses intervalos que ouviu, de seu quarto, uma voz conhecida. Levantou-se de súbito. Suas pernas fraquejaram e um arrepio percorreu-lhe a espinha. Guilherme estava ali? Era ele falando. Não conseguia raciocinar e não sabia o que estava acontecendo. Amortecida foi para a sala sem saber o que encontraria.

Guilherme não estava na sala, entretanto ela continuava ouvindo sua voz. Atordoada, sentou-se ao lado de Moacyr no sofá e viu seu marido na TV dando uma coletiva de imprensa junto ao Ministro da Saúde. Estava mostrando gráficos e comentando números da epidemia, não só no Brasil como no exterior. 

Então tinha conseguido, finalmente, vender seu sistema para o governo! Parece que se vendeu junto. A TV o classificava como “Consultor “. 

Cassio estava de olhos fechados com fones de ouvidos, e Moa não tinha ideia de que Dominique pudesse ser casada com outro homem, muito menos com aquele da televisão. 

Casaram-se cedo, e Guilherme era o que se chamava de menino prodígio da tecnologia. Em 1999, foi um dos únicos a não acreditar nas catástrofes do BUG do Milênio profetizado por sábios da informática. Convenceu seu gerente a investir menos naquilo que considerava uma grande bobagem. A economia gerada para a empresa rendeu-lhe promoções e, assim, sua carreira começou a decolar, como escrito nas estrelas. 

Resolveu abrir seu próprio negócio, uma daquelas PontoCom do início dos anos 2000. A ideia era fabulosa, um site para comparar preços de passagens aéreas. De tão inovadora que era, chegou muito antes de seu tempo.  O 11 de setembro enterrou de vez a Fly2Me.com levando com ela tudo o que a família tinha, deixando como recordação dívidas e processos trabalhistas. 

Conseguiram vender a casa em que moravam e, por incrível que pareça, o nome Fly2Me.com, seu registro e legado valiam alguma coisa e acabou sendo vendido para alguém no exterior. 

Foi um tempo muito difícil carregado de inevitáveis brigas, desgastes e atribuições de culpas. Dominique até hoje não sabe como fez para dar conta de 3 crianças e de seu trabalho que, por alguns anos, acabou sustentando a família. 

Guilherme, ao longo do tempo, teve altos e baixos profissionais acompanhados por períodos de depressão. Dominique nunca soube o que vinha primeiro: se era a depressão que puxava os negócios para baixo ou o contrário. Por essas e outras, nunca tinha pensado em parar de trabalhar. 

Hoje em dia, além da própria empresa desenvolvedora, investia em StartUps, e foi uma delas, que criou um sistema que conseguia prever ocupação de leitos de UTI de acordo com parâmetros, além de diversas outras simulações. 

 E lá estava ele, em Brasília, ao lado do Ministro da Saúde, usando o colete azul do SUS. 

Passado o susto, sentiu um orgulho gigantesco do marido e foi invadida por uma enorme felicidade por ter feito parte daquela conquista. Porém, não iriam comemorar juntos. Esperou acabar a coletiva de imprensa e, aí sim, acordou Cassio para que ele se preparasse para os últimos exercícios do dia.

Eliane Cury Nahas
Eliane Cury Nahas

Economista, trabalha com tecnologia digital desde 2001. Descobriu o gosto pela escrita quando se viu Dominique. Na verdade Dominique obrigou Eliane a escrever. Hoje ela não sabe se a economista conseguirá ter minutos de sossego sem a contadora de histórias a atormentá-la.

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