Reaprender a Dançar

Amor Escolhido Capítulo 4

Passam-se os dias, a epidemia avança no mundo e no Brasil. Fazia um mês que Dominique tinha saído de casa. Começava a mostrar alguns sinais de depressão, mesmo tendo recomeçado a fazer sua terapia online. 

Naquela noite, secando os cabelos, olhou-se no espelho. A raiz estava branca, coisa que nunca permitiu acontecer, mas agora não tinha como ir ao salão ou deixar alguém entrar em casa. Estava abatida, com olheiras. Passou um pouco de maquiagem para se sentir melhor. Continuava sendo uma mulher atraente mesmo naquele estado. 

Ao chegar na sala levou um tempo para entender o que estava acontecendo. Primeiro se acostumou a penumbra. Penumbra? Velas?

‒ Acabou a força? – Perguntou sem se dar conta que tinha acabado de usar o secador.

Cassio estava em pé esperando por ela. Vestia calças bege e camisa azul, aquela que o deixava um gato. Há quanto tempo não o via de roupa. Meu Deus, que homem lindo, pensou Dominique. O tênis que calçava destoava do visual, mas tudo bem, vai…

Ele estendeu a mão em sua direção e puxou-a para perto de si. Nesse momento, ela percebeu que tocava uma música. Aquela música!!! Olhou-o nos olhos. Sentiu que ele a apertava contra si com a pouca força restaurada em seu braço direito. Dançaram. Sentiram um ao outro. Abandonou-se nos braços dele e, pela primeira vez naquele tempo todo, sentiu paz. 

Jantaram e conversaram como faziam antes. Assuntos divertidos, conversas deliciosas. Mas onde estava Moacyr? Cassio havia dado folga para ele aquela noite.

‒ Ele não pode sair daqui. Você está louco? Ele pode ter contato com o vírus. Não podemos correr o risco.

 ‒ Podemos sim, meu amor. Eu posso. Ponderei os riscos e decidi que valia a pena uma noite só para nós. Ele voltará amanhã. Emprestei meu carro. 

Conversaram muito. Choraram. Namoraram. Lembraram o que era felicidade…  Dominique não precisou recorrer a nenhuma memória, como fizera ao longo deste mês, para saber porque estava com aquele homem há 10 anos. 

Cassio teve uma recuperação fenomenal, mas, aparentemente, ficaria com uma pequena sequela na mão direita. Só isso? Grande coisa! Diz ele o tempo todo. Já fazia os exercícios sozinho ou só com a ajuda de Moacyr – no geral, já estava bem independente. 

Ainda era cedo para que ele voltasse a trabalhar, contudo estava despreocupado, pois seus sócios franceses comandavam remotamente o escritório.

Seus projetos pioneiros na área de sustentabilidade chamaram a atenção desse escritório francês de arquitetura e, após algumas idas e vindas, acabaram se associando em 2012. 

Foram muitas as viagens de Dominique a Paris com a desculpa de exposições de móveis e objetos ou materiais de construção. Lá encontrava Cassio, e tentavam viver uma semana de vida normal, sem se esconder, sem paranoias. 

Claro que passaram por grandes apuros ao longo desses 10 anos. Não foram nem uma, nem duas vezes. Foram inúmeras as situações em que cruzaram com conhecidos no Brasil ou em Paris. Sabem que, provavelmente, deixavam pistas pelo caminho, porque, afinal de contas, não existe crime perfeito. Se seus parceiros desconfiavam do caso deles, fingiam não saber de nada, pois nunca nenhum deles foi atrás.

Agora Dominique não teria mais o que esconder. Poderia viver seu romance à luz do dia.

 A hora da coletiva do Ministro da Saúde na TV tinha virado o ponto alto do dia, quase que uma sessão pipoca. Os 3 se preparavam minutos antes em seus lugares na expectativa das novidades e dos números. Guilherme, a essa altura, já tinha ganhado projeção nacional por estar diariamente ao lado do ministro e ser ele a divulgar estatísticas e previsões. Moacyr entendeu que Dominique conhecia aquele homem, mas achou que era um amigo próximo ou parente. Não deram maiores explicações.

Dominique surpreendeu Cassio olhando para ela algumas vezes, enquanto Guilherme falava.  Talvez fosse evidente o orgulho que sentia. Ou seria saudade? Nem ela sabia o que estava sentindo. 

Os dias foram passando. Um de seus filhos pegou COVID-19 quase matando Dominique de preocupação, sem que ela pudesse fazer qualquer coisa a respeito. Recuperou-se rapidamente, apesar de dizer que foi a pior “gripezinha” que já teve. 

Quem parece que também pegou essa “gripezinha” foi o Presidente da República, mas os exames dele sempre deram negativo. Vai entender. 

Entra Ministro, sai Ministro, e Guilherme lá. Firme! 

Nos últimos tempos, evitavam o noticiário, pois Cassio andava perdendo o controle de tanto nervoso que passava com o descontrolado governo brasileiro. 

Tudo acontecia sem que medidas concretas fossem tomadas. O Brasil já era o epicentro mundial do coronavírus, e o presidente preocupado com sua reeleição. Governadores e prefeitos idem. Impressionantemente, secretários de saúde superfaturando respiradores e levando propina. A economia em frangalhos.

Cassio esbravejava, gritava. Escrevia nas redes sociais. Isso também era um sinal de que ele já estava bem. Devolveram a cama hospitalar e, enfim, chegou o dia de dispensarem Moacyr. Muita emoção, porque, além de terem se apegado a ele, aquilo também vinha carregado de significados.

Apesar da melhora de Cassio, a quarentena continuava para eles e para todos. As coisas pioravam, mesmo após tanto tempo de confinamento. As informações continuavam desencontradas, a população dividida e os nervos à flor da pele. 

Porém, para eles tudo era mais leve do que para os outros, pois ela já tinham passado pelo pior. Tanto que Dominique se deu ao luxo de começar a se sentir enjoada das poucas roupas que tinha no apartamento. Vinha usando nesse tempo todo as mesmas 8 peças. Adaptou algumas do namorado para ela. Mas estava sentindo falta de seus cremes, de seus moletons, enfim, de suas coisinhas. 

Resolveu que daria um pulo na casa dela e aproveitaria para ver se estava tudo em ordem, até porque a casa estava fechada há quase dois meses com Guilherme em Brasília e sua funcionária na casa dela. Não queria nem pensar no pó e no estado que encontraria as coisas. Nossa! Que aventura colocar a máscara e sair do apartamento depois daquele tempo todo. Quando saiu da garagem, o céu se descortinou ofuscando-a com aquela claridade cheia de vida, e Dominique inundou-se de alegria. Abriu as janelas, respirou fundo e dirigiu admirando cada árvore, cada esquina, cada canteiro que encontrava em seu caminho. 

Parou o carro na rua, e entrou em casa pela porta da frente evitando, assim, a trabalheira de abrir o portão da garagem. 

Quando pisou naquele lugar tão familiar, sentiu-se estranha. Parecia que fazia muitos anos que não estava ali, muitas vidas. As coisas estavam exatamente como havia deixado. 

Ficou algum tempo na escuridão da sala fechada, quando resolveu abrir as cortinas e os vidros para arejar a casa. De repente, escuta alguém gritando: 

            ‒ Quem está aí? Quem está aí?

Era Guilherme.

Ele não estava em Brasília? Tinha visto ele ontem na TV. Dominique olhou para porta e calculou se daria tempo de sair correndo da casa sem que ele a visse. Sacudiu a cabeça como que para afastar aquele pensamento, tomou coragem e respondeu:

             ‒ Sou eu Gui, Dominique.

Ela escuta os tão familiares passos do marido descendo as escadas e calcula direitinho o tempo que ele levará para chegar até a sala.

              ‒ Oi

O coração de Dominique dispara ao vê-lo. Estava com saudade, quem diria!! Não conseguia decifrar o que ele estava sentindo. Será que ainda estava com muita raiva? Vai me perdoar algum dia? Já está em outra?

‒ Olá. Tenho visto você nas coletivas do ministério. Estou muito feliz com seu sucesso, de verdade. 

‒ Obrigado. O que você está fazendo aqui?

‒ Vim pegar algumas roupas. 

‒ Não poderia ter me avisado antes? – Falou ele num tom bem mais ríspido que o normal.

‒ Desculpe Guilherme. Imaginei que estivesse viajando.

‒ Imaginou errado. Voltei ontem à noite. Essa casa também é sua, eu sei. Mas você não pode ir entrando desse jeito.

‒ Você tem razão. Me desculpe. Isso não acontecerá novamente.

Ele andou até a cozinha dando a entender que Dominique podia, naquele momento, subir para pegar suas coisas.

Ela entrou no quarto do casal, evitou olhar a cama, os porta-retratos cheios de passado. Abriu seu armário e, mecanicamente, pegou um punhado de peças de roupa enfiando numa sacola de loja que achou numa gaveta. Não via a hora de ir embora, estava se sentindo uma intrusa. 

Quando desceu, não encontrou mais Guilherme em casa. 

Voltou para o apartamento quieta, evitando o olhar de Cassio que esperou apenas o momento certo para perguntar o que tinha acontecido naquela sua saída.

Contou sobre o rápido encontro com o marido. 

Ele perguntou se falaram sobre a separação e os próximos passos.  

‒ Não. Claro que não. Sequer contamos para os meninos – Respondeu ela num tom mais áspero que o necessário. 

‒ Dominique nique nique…. Calma. Ok. Mudemos de assunto.

Mas ela não estava a fim de papo. Ligou a TV no noticiário apenas para não ter que conversar e fingiu estar entretida naquelas notícias tão tristes e tão iguais. Nisso, descobriu que outro Ministro da Saúde tinha sido demitido. 

Provavelmente, foi esse o motivo da volta de Guilherme. Então não voltaria mais para Brasília? 

Enquanto Cassio esbravejava horrorizado com o descontrole de um país sem direção no meio de uma Pandemia, ela pensava no encontro da manhã, e em suas implicações. 

Uma hora isso tudo vai acabar. Ela não podia se esconder pro resto da vida.

Os filhos já andavam desconfiados de que algo estava errado, mas com o pai morando em Brasília, tudo tinha justificativa. Agora com ele de volta,  ficará mais difícil explicar.

Mas por que não tinham contado para eles ainda? Já tinha se perguntado isso algumas vezes, porém preferiu não dar ouvidos à resposta.

Na manhã seguinte, Dominique foi acordada com Cassio beijando-a suavemente. Entendeu o que aquilo significava. Depois que a cama hospitalar saiu do meio da sala e da vida deles, passaram a dormir na mesma cama, mas nada tinha acontecido além do aconchego do calor da proximidade. Ela tinha medo de colocar pressão num assunto tão delicado. Foi um sexo diferente daquele que conheciam, cheio de vigor e paixão. Eles experimentam agora o amor do cuidado. 

O toque de Cassio sempre fez Dominique perder o chão. Com ele, descobriu o verdadeiro significado da tal química que tanto falam por aí. Explorou todos os cantinhos escondidos de sua sexualidade e satisfez as dele. Não sabia onde começava o desejo de um ou de outro. A comparação com seu marido, apesar de injusta, era inevitável. Com o passar dos anos, começou a ter vergonha de algumas coisas e ousadias diante de Guilherme. Nunca entendeu direito qual foi o processo para que isso acontecesse, mas com certeza “It needs 2 to Tango” ou seja, não fez nada sozinha nem para o bem nem para o mal. 

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Dominique

Nasceu em 1964. Ela tem 55 anos, mas em alguns posts terá 50, 56, 48, 45. Sabe porque? Por que Dominique representa toda uma geração de mulheres. Ela existe para dar vida e voz às experiências, alegrias, dores, e desejos de quem até pouco tempo atrás era invisível. Mas NÓS estamos aqui e temos muito o que compartilhar. Acompanhe!

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