A Maior Aventura de Minha Vida – O Encontro, Capítulo 3

Dominique - Lanterna Vermelha
Chegamos dia 20. Fomos direto para a pequena pensão na Rive Gauche.
Charmosa, tipicamente francesa, com uma senhoria hospitaleira e gentil.
#SQN – Só que não mesmo!
Baita espelunca dos infernos.
Valentina me olhou com aquela cara de nojo, mas era o que meu dinheirinho contado dava para pagar.
Bom, ficaríamos lá por aquela noite, depois resolveríamos.
Me arrumei sob o olhar curioso e atento de Valentina.
Claro que dei uma caprichada.
Claro que coloquei uma roupa tipo francesinha descolada.
Claaaaaaarrrrrrooo que arrumei meus cachos com esmero.
Mas tudo isso sem segundas intenções. Apenas não querendo fazer feio naquele encontro com um colega a quem não via há muito tempo.
Me dirigi ao Lanterna Vermelha.
Na verdade, Torche Rouge era nosso ponto de encontro. Como me lembrava bem daquele café.

Era dia 20. Não marcamos hora!
Aliás, não tínhamos marcado nada.
Nem sei se o reconheceria.
Gente, como sou louca!
Tudo pode não ter passado de um trote. De uma piada.
E eu vim até aqui?
Louca.
Já pensou o carão, Dominique?
Chegar lá e não ter ninguém?
Ou pior, chegar lá e não ter lá. Não ter nada. Não existir mais o Torche Rouge?
Too late.
Muito tarde para arrependimentos.
Peguei o metrô e fui.

E não é que o Torche estava lá do mesmo jeito que o deixei?
Quer dizer…… Um tantinho mais decadente.
Mas Paris me parecia inteira meio assim.

Nossa! Ou eu era muito romântica ou muito pouco exigente.
Isso aqui é um botequinho de quinta.
Mas vamos lá.
Já passavam das 15h.

Entrei, sentei e pedi um café com meu francês que ainda estava muito bom apesar dos anos.
Estava sozinha no estabelecimento.
Eu e aquele senhor atrás do balcão, com cabelos ensebados e olhar desconfiado.
Levei um livro.
Não li sequer a primeira página. Não tinha concentração. A menor.
Também não tenho ideia de quanto tempo se passou até que Loup chegasse.

Ele entrou, adaptou-se à luz menor de dentro do boteco e me avistou.
Nos reconhecemos de imediato.
Levantei.
Não sabia se dava um beijo, estendia a mão, se falava alguma coisa.
Ah, não precisei. Ele sabia o que fazer.
Me abraçou apertado e disse naquele francês delicioso, aquela voz rouca de tanto Gitane fumado:

– Dominique, Ma Mouton. Tu es toujours spetaculaire!

Foram horas colocando a vida em dia.
Loup olhou desolado para minha xícara de café e afastando-a, pediu uma garrafa de vinho.
E depois a segunda.
Não. Não senti o tempo passar.
Não. Não queria sair daquele lugar.
Estava me sentindo… Estava me sentindo…
Na verdade, não estava me sentindo. Estava anestesiada. Inebriada.
E um tantinho bêbada também.
Eita sensação gostosa!
Loup se levanta, paga a conta, me puxa como se fosse a coisa mais natural do mundo acompanhá-lo.

– Bem Mouton, chegou a hora de você saber porque te chamei.
Tinha até me esquecido que estava ali por conta de um chamamento ou algo assim.
Caminhamos em silêncio por 30 minutos. Não tinha ideia de onde estava.
Mas estava indo com meu Loup.
Meu Loup?

Chegamos num predinho afastado, não tenho a menor ideia onde.
Ele toca a campainha do 3C.
A porta se abre sem que precisemos nos anunciar.
Em vez de subirmos para o 3º andar, descemos para o porão.
Lá, ele bateu na porta, em ritmo cadenciado. 3 batidas curtas, uma pausa e mais 4 batidinhas de leve.
Abriu a porta um homem com seus 40 anos. Cara amarrada.
Me olhou de cima abaixo e falou num francês rápido e mal humorado.
– Precisava mesmo trazê-la?
– Prometi isso a ela muitos anos atrás.

Olhei para ele confusa.

Você não se lembra, minha querida ovelha dos cabelos crespos? Você me disse que um dia gostaria de viver uma aventura de verdade. Coisa de gente grande. Pois bem. Chegou a hora.
Sim, me lembrava remotamente. Mas eu tinha 21 anos KCT! Do que ele estava falando? Do que EU estava falando?
Aquele porão esfumaçado tinha uma mesa no centro. Com um mapa de uma região da França.
Alguns alfinetes espetados em pontos próximos.
Uma lousa com algo que me parecia um esquema tático de jogo de futebol.
Em torno da mesa, mais 7 homens e 3 mulheres.
Ninguém ficou muito feliz em me ver.
Portanto, muda fiquei.
– Já estamos atrasados LOUP! Disse a mais bonita das moças.
Eles começaram a falar.
Aos poucos comecei a entender.
Mas não poderia ser.
Aquilo era impossível.
Loup não teria me chamado para vir do Brasil para aquilo!

Não sei se de nervoso ou por estar achando tudo aquilo um filme de ficção, estourei na gargalhada.

Ninguém riu.

Gente, é sério isso?
– Sim, Dominique (pela primeira vez ele me chamava pelo meu nome). Precisamos fazer isso. É por nosso país. E por nossos ideais. Você está acompanhando o que Jacques Chirac está fazendo?
– Mais ou menos. Temos nossos próprios problemas lá embaixo. E não são poucos. Conhece FHC? Lula? Bem, mas porque eu? Por que você quer me envolver nesta loucura?
– Porque um dia você pediu e, além disso, precisamos de uma estrangeira. Alguém com um olhar de fora. Que difunda nossa filosofia depois desta primeira ação.
– E se eu não aceitar?
– Não existe essa possibilidade. Você não percebeu?
– Como?
– Não. Ninguém vai te fazer mal. Mas se você recusar, ficará presa aqui até o final da ação.

Não estava acreditando. Gente! Tinha me metido numa ação misteriosa internacional?
Não…isso não era sério. Não podia ser.

Mas amiga, Era. Foi!

Quem diria que o encontro no Lanterna Vermelha iria causar tanta confusão!

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Eliane Cury Nahas
Eliane Cury Nahas

Economista, trabalha com tecnologia digital desde 2001. Descobriu o gosto pela escrita quando se viu Dominique. Na verdade Dominique obrigou Eliane a escrever. Hoje ela não sabe se a economista conseguirá ter minutos de sossego sem a contadora de histórias a atormentá-la.

9 Comentários
  1. Que coisa incrivel! Parece filme de espionagem. Me fez lembrar Gsele, a espiã francesa de um livro que li.Estou cada vez mais curiosa!

  2. Estou lendo o 3o capítulo…
    mas que situação…..
    que clima de espionagem..
    vou direto para o 4o e último capítulo….
    Dominique …..vc é demais!!!

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