Cinema

Nossas Noites mostra que nunca é tarde para amar

Dominique - Nossas Noites
Nossas Noites, produção original Netflix, dirigida pelo indiano Ritesh Batra (da obra-prima The Lunch Box), baseada na obra homônima de Kent Haruf, apresenta um retrato tocante sobre duas pessoas solitárias que buscam entre elas novas formas de aproveitar a vida.

No longa, Addie (Jane Fonda), viúva há vários anos, faz uma proposta corajosa a um vizinho com quem mal falou a vida toda, o também viúvo Louis (Robert Redford), de passar as noites com ela, para que ambos consigam dormir mais tranquilos e afastar a solidão.

A atitude transforma a vida dos dois e mostra como a vida e o tempo mudam nossa forma de ver o mundo.

Envelhecer ainda é tabu. As reações que nossa sociedade tem em relação a astros e estrelas, que foram famosos também por sua beleza, mostram que não lhe damos o direito de ficarem velhos e perderem o frescor.

É interessante ver Fonda e Redford juntos novamente nesse filme que por conta da história parece torná-los mais humanos e reais.

A personagem de Fonda encanta pela decisão e ousadia a respeito da proposta que faz a Louis, ela se mostra bem resolvida e dá pouca importância ao fato de que possam virar notícia na cidade, o que realmente acontece e deixa Louis irritado.

Robert Redford e Jane Fonda se completam em cena, em atuações marcantes e emocionantes.

Nossas Noites é um filme para os protagonistas brilharem. Há muita qualidade em cena, transformando diálogos simples e ritmo controlado em grandes lições de vida que chegam junto a um show de maturidade e segurança para romper qualquer traço de preconceito desse novo amor.

Dominique - Nossas Noites

Batra tem um poder de captar o sentimento. É lindo o amor mostrado, a linha tênue entre amizade e paixão é composta pelo conforto do próximo.

Delicado e sensível, Our Souls at Night, título original, mostra um lado humano que emociona com simples modo de olhar o próximo.

Dentro da multidimensionalidade dos protagonistas, temos elementos que fazem com que Addie e Louis sejam mais que “velhinhos fofinhos que se apaixonam”.

O passado de ambos é marcado por falhas – ela por ter negligenciado o filho após a morte de outra filha, e ele, por ter abandonado a família por um período durante a juventude. As marcas desses e outros conflitos são visíveis nos personagens, apesar da narrativa ser, no geral, bastante leve e agradável ao longo do filme, conferindo-lhes humanidade.

O longa conta com uma direção de fotografia belíssima assinada por Stephen Goldblatt, de “Closer – Perto Demais” (2004), “Julie & Julia” (2009).  Um cara que sabe trabalhar com luzes suaves e cores que transmitem muito conforto.

Stephen explora cenários lindíssimos na estrada e nas montanhas em perfeita harmonia com a trilha sonora de Elliot Goldenthau, que aposta em tranquilas canções Country e algumas músicas mais antigas, casando muito bem com a atmosfera de romance com certas dificuldades, mas nada constrangedor.

Figurino e fotografia definem bem Addie e Louis: enquanto ela usa roupas alegres e joviais e com uma casa mais colorida, ele, embora não seja descuidado, não se preocupa muito em variar o visual, mantendo uma série de camisas xadrez no armário. Além disso, sua casa arrumada sobriamente transmite um certo isolamento que a de Addie não possui.

A gentileza faz de “Nossas Noites” um filme de fácil e agradável consumo, porém sem nada de tão marcante para além de suas 1h43 minutos.

Se você for amante de um bom e tradicional filme, Nossas Noites não deixa de ser um exemplar para se colocar na lista para assistir na Netflix.

Nossas noites é um filme encantador. Eu amei, espero que você também goste!

[fve]https://youtu.be/YoJZRp_IadI[/fve]

Veja mais dicas de filmes:

Uma Mulher Fantástica: conflitos de uma transgênero
Afterimage – A história do artista Wladyslaw Strzeminsk

3 Comentários
  1. Eu amei esse filme, é de uma elegância enorme.

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Uma Mulher Fantástica: conflitos de uma transgênero

Dominique - Mulher
Uma Mulher Fantástica, já escolhido para representar o Chile no Oscar® 2018 na categoria de melhor filme estrangeiro e de melhor atriz, é um filme tocante, delicado e fascinante.

O filme conta a história de Marina (Daniela Vega), uma mulher transgênero de voz divina que sonha ser cantora lírica, trabalha como garçonete de dia e de noite canta em boates para se sustentar.

Ela está em um relacionamento estável com um homem mais velho, Orlando (Francisco Reyes Morandé) até que ele morre na noite do aniversário de Marina. E aí começa sua jornada.

O enfrentamento com a família do falecido e as instituições oficiais é quase todo calcado em desconfiança sobre sua identidade feminina.

Todos a tratam da forma mais odiável possível. A família de Orlando reivindica o enterro, o luto, a missa, as coroas de flores, sem falar no apartamento e na doce cadela Diabla.

Marina se impõe pela firmeza, pela dignidade e pela beleza, não convencional, mas um misto de força e feminilidade. Marina sofre, mas não se vitimiza, nem entrega os pontos.

O diretor Sebastián Lelio, aclamado pelo filme Gloria, repetiu as parcerias com Gonzalo Maza como roteirista e Benjamím Echazarreta como fotógrafo.

Com boa parte das cenas em close frontal no rosto de Marina, Uma Mulher Fantástica transporta o público para os olhos da protagonista, fazendo com que suas angústias e tristezas sejam sentidos do outro lado da tela.

Lelio nos presenteia com cenas lindas e cores marcantes. É um filme sensível, embora a violência (psicológica e física) que Marina vive seja notada sem pudores.

Um dos momentos mais bonitos é quando a vemos enfrentando uma forte ventania, cuja intensidade vai, aos poucos, aumentando. Ela se inclina com força e consegue se manter em pé. É uma metáfora perfeita da vida de quem se vê na posição de lutar pelo direito de ser quem é.

Lelio avança sua dramaturgia enfocando tramas protagonizadas por mulheres.

Pela delicadeza do tema, o autor não hesitou em convidar a atriz trans e cantora lírica Daniela Vega para participar do projeto desde a concepção do roteiro.

A produção ganhou o Urso de Prata de melhor roteiro no Festival de Berlim.

A comovente interpretação de Daniela Vega é a principal força do filme, pilar sobre o qual o cineasta constrói a trama.

Destaca-se também a ótima trilha musical assinada por Mathew Herbert.

Este é sem dúvida um forte candidato ao Oscar® de melhor filme estrangeiro.

Uma Mulher Fantástica é um filme encantador!

[fve]https://www.youtube.com/watch?v=d3VKy4PuvJ4[/fve]

Gostou dessa dica? Veja outras:

Afterimage – A história do artista Wladyslaw Strzeminsk
Bingo, o Rei das Manhãs – Inspirado no apresentador Bozo

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Afterimage – A história do artista Wladyslaw Strzeminsk

Dominique - Afterimage
Escolhi o filme Afterimage porque se você, assim como eu, gosta de história e de artes plásticas, certamente vai gostar desse filme que, embora pesado é o último do aclamado cineasta polonês Andrzej Wajda, mais um motivo para ver no cinema.

Powidoki (título original), narra a história do celebrado artista plástico, o também polonês Wladyslaw Strzeminski, um dos principais nomes da arte de vanguarda em seu país, perseguido na União Soviética por fazer oposição ao Realismo Socialista, um movimento artístico cujo conceito era basicamente uma forma de propaganda dos ideais soviéticos.

Ao longo do filme, acompanhamos as consequências sofridas por um artista que ousou levantar a voz contra o totalitarismo soviético.

O título Afterimage vem das memórias, especialmente as visuais, que não são apagadas com agentes soviéticos destruindo obras de arte na surdina e um vasto e consagrado conjunto de obra não desaparecerá com tanta facilidade apenas impedindo que o artista continue seu trabalho.

Wladyslaw Strzeminski foi um artista plástico, um pintor do início do século XX, contribuidor fundamental ao modernismo, teórico e prático.

No longa vemos magistralmente interpretado por Boguslaw Linda um brilhante professor da Escola de Belas Artes de Lodz, feliz por desenvolver o pensamento sobre a nossa percepção de arte, “Teoria da Visão”.

No auge de sua carreira, com aulas lotadas e idolatrado pelos seus alunos da Escola de Arte de Lodz, o pai do Movimento Construtivista polonês dos anos 1920/30 vê tudo que construiu ser apagado da memória da sociedade com a destruição de suas obras e humilhação pública por não conseguir emprego.

Wadja um dos grandes diretores da Europa Oriental, sempre lutou pela liberdade e democracia e expôs as repressões dos regimes totalitários na Polônia e seu posicionamento político em suas obras, ampliando a percepção de seu público para além de seu país, traduzindo em arte questões íntimas e sociais, de um cinema que soube ser engajado, autoral e, ainda assim, interessante.

Afterimage é a prova de que é possível fazer um cinema poético e simbólico a partir de conturbados momentos da história.

Wadja nos deixa com este candidato ao último Oscar® de filme estrangeiro, um grande filme, cuja percepção plena nos chega aos poucos, nos faz questionar a função do artista e da arte, suas importâncias para acultura e seus impactos na sociedade.

Quanto à parte técnica do filme destacam-se a trilha sonora, figurinos e a excelente fotografia, que passa de uma leve exposição de luz e cor no início, para uma realidade sombria, mais escura, com planos mergulhados em cinzas e filtros azulados e esverdeados.

Sem dúvida Afterimage foi um dos melhores filmes de Wajda fechando assim com chave de ouro sua extraordinária carreira.

Vale a pena conferir. Depois me conta se gostou!

[fve]https://www.youtube.com/watch?v=pRKUxnE9_cw&feature=youtu.be[/fve]

Se você gosta de cinema, veja essas outras dicas:

Bingo, o Rei das Manhãs – Inspirado no apresentador Bozo
Malasartes e o Duelo com a Morte: trapaças, mitologia e diversão

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Bingo, o Rei das Manhãs – Inspirado no apresentador Bozo

Dominique - Bingo
Bingo – O Rei das Manhãs, selecionado para representar o Brasil no Oscar® 2018, é o filme nacional do ano!

O filme é uma cinebiografia inspirada na vida real de Arlindo Barreto, ator que interpretou o palhaço Bozo e fez sucesso na televisão brasileira nos anos 80.

Por questões de direitos Bozo virou Bingo, Arlindo virou Augusto, SBT virou Mundial e só Gretchen continuou Gretchen.

O filme tem uma estrutura simples de ascensão, queda e superação, alternando momentos de humor, drama e uma melancolia inesperada nos olhos de um palhaço.

Nas cenas em que tira a maquiagem de Bingo, Vladimir Brichta mostra o peso de um personagem que está em conflito, ao mesmo tempo em que é líder de audiência, ele é um ilustre desconhecido. O ator por trás da máscara e da peruca de cabelos azuis, ferido em seu narcisismo por não poder revelar quem é por contrato, cai na decadência com bebida drogas e mulheres.

Surpresa mais que positiva é o trabalho de Daniel Rezende na direção: originalmente montador (inclusive indicado ao Oscar® por “Cidade de Deus” 2002), tem no seu currículo trabalhos como “Diários da Motocicleta” (2004), “Árvore da Vida” (2011) e “Robocop” (2014). Isso não é para fracos.

Em seu “debut” no comando de uma obra, Rezende entrega um filme mescla entre cinema autoral de qualidade com um produto elegante, com pompa de grande produção e totalmente vendável ao grande público apesar do teor adulto bem incorreto.

A direção de Rezende trabalha muito bem as várias percepções sobre seu protagonista e as transfere com sutileza para o espectador. Fácil se envolver com a história de Bingo.

O roteiro de Luiz Bolognesi (“Bicho de Sete Cabeças”) reúne as diversas faces do personagem e as põe em conflito. Bingo não é simplesmente um filme sobre ascensão e a derrocada de um apresentador de TV, mas trata das máscaras que vestimos diariamente para encarar o mundo. O rosto do palhaço funciona, assim, como uma metáfora para qualquer posição que assumimos frente a problemas.

Quem assina a trilha sonora, no melhor estilo pop anos 80, é o ex-DJ Rezende. Você vai ouvir as bandas como Echo & Bunnymen e Devo que se intercalam com as nacionais Titãs e Metrô.

Outro destaque é a direção de fotografia de Lula Carvalho que usa cores excessivamente saturadas, ajuda a transportar o expectador para os exageros dos anos 80: Os letreiros em neon, a maquiagem pesada, os cabelos armados e as roupas ousadas combinam com outro tipo de excesso também presente no filme, o abuso de drogas do protagonista.

No elenco, a esplêndida atuação de Vladimir que toma o filme para si, deixando transparecer a agonia e o sofrimento do protagonista que não consegue controlar seus excessos com as drogas e não sabe lidar com suas responsabilidades como pai.

Dominique - Bingo

O elenco conta ainda com Leandra Leal como a produtora Lúcia, Tainá Müller como a ex-mulher Angelica, Augusto Madeira como o câmera Vasconcelos, Emanuelle Araújo como Gretchen e o pequeno Cauã Martins como o delicado filho Gabriel.

Impossível não destacar também Domingos Montagner em um de seus últimos trabalhos. Falecido no ano passado, o ator vive um palhaço que serve como mentor para Bingo.  Difícil não ficar tocado com os apontamentos de Domingos que era um palhaço na vida real.

Bingo além de emocionar, fazer rir e chorar, já é um novo clássico do cinema brasileiro.

Agora é aguardar dia 4 de março e torcer para que o Oscar® venha dessa vez.

[fve]https://www.youtube.com/watch?v=4xHP9tiS6NM&feature=youtu.be[/fve]

Aqui tem mais algumas dicas de cinema, leia:

Uma Família de Dois: quando a paternidade fala mais alto
O Filme da Minha Vida: anseios e dilemas da juventude

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Uma Família de Dois: quando a paternidade fala mais alto

Dominique - Família
Hoje comento o longa francês Uma Família de Dois!

Um filme no melhor estilo sessão da tarde e isso é um elogio, pois um filme sessão da tarde é aquele que você vai ver várias vezes sem cansar e gostar sempre.

Na trama, Samuel (Omar Sy) é um “bon vivant”que tem a vida que pediu a Deus: trabalha em um resort na costa francesa, onde é o responsável por levar os hóspedes para passeios de iate e organizar as festas mais badaladas da região.

Tudo vai bem até o dia em que Kristin (Clémence Poésy) aparece, deixando-lhe uma criança que ela alega ser de Samuel. O bonitão, então, parte para Londres em busca da mãe da menina, mas é tarde demais: Kristin sumiu sem deixar notícias.

Samuel decide ficar na capital inglesa, onde assume a paternidade e cria um forte laço com a pequena Glória (Gloria Colston) que a cada dia que passa mais alimenta o desejo de conhecer a mãe.

Hugo Gélin, em seu segundo longa-metragem, dirige sem rodeios, é eficiente na condução da trama do personagem que se vê obrigado a mudar seu comportamento ao se deparar com as responsabilidades da vida.

A história ganha muito quando, anos depois, Kristin retorna do nada para requerer a guarda da filha. Apesar de o argumento parecer vilanizar essa figura feminina ( afinal para muitos é socialmente “aceitável” que um homem abandone uma criança, mas nunca que uma mulher o faça), é aí que se desenvolve o arco dramático da fita – e as melhores cenas surgem, tanto cômicas, quanto tristes.

Dominique - Família

Existem poucos atores tão carismáticos quanto Omar Sy. Ele tem um tom cômico perfeito para esse filme e consegue mergulhar no drama quando é necessário, fazendo lágrimas correrem.

Mas ele não está sozinho. Temos um trio sensacional composto pela atriz mirim Gloria Colston que é uma graciosidade por si só. Sem esforço algum ela consegue nos cativar. Para fechar o trio temos o divertidíssimo Bernie (Antoine Bertrand) que faz o melhor amigo dos dois, um alívio cômico que merece ter seu trabalho reconhecido.

A direção de Hugo Gélin consegue casar de maneira positiva a outros departamentos. Seja a limpa e bem enquadrada direção de fotografia de Nicolas Massart ou na edição de Valentin Feron e Grégoire Sivan. Com a maior parte dos planos centralizados, o diretor os utiliza de maneira interessante, a fim de intensificar o drama de seus personagens, tornando-os o centro de nossa atenção. Tal feito gera um resultado interessante, uma vez que o que vemos nos cativa muito mais que a base da história.

O longa embalado por trilha pop e com músicas originais de Robert Simonsen se encaixam de forma leve e adequada ao filme, sem dúvida agrada.

Uma Família de Dois é uma história gostosa de se assistir, entrega o que promete, entretêm e emociona.

Qualquer um que convive com crianças e com o universo infantil vai se sentir tocado e vai se conectar com o drama do personagem Omar.

Talvez uma das obras sobre paternidade mais belas dos últimos anos. Com um desfecho surpreendente, esse é um filme que vai emocionar.

Assista Uma Família de Dois, tenho certeza que você vai amar!

Bom programa.

[fve]https://youtu.be/ummsBoLRCVs[/fve]

 

Leia mais:

Como Nossos Pais: um filme moderno e real que gera reflexões
Dunkirk: uma batalha no inicio da Segunda Guerra Mundial

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Como Nossos Pais: um filme moderno e real que gera reflexões

Dominique - Pais
A dica de hoje é “Como Nossos Pais”.

Hoje não posso deixar de comentar esse incrível filme brasileiro.

Vencedor de seis Kikitos no Festival de Cinema de Gramado, o quarto longa de Laís Bodanzky (Bicho de Sete Cabeças, As Melhores Coisas do Mundo) é bem mais que a história de uma mãe multitarefa e as diferenças entre gerações.

O longa tem como referência a peça de A Casa das Bonecas, de Henrik Ibsen, que fala de mulheres que atravessam processos de desestabilização.

Na trama, conhecemos Rosa (Maria Ribeiro), 38 anos, uma mulher guerreira que está em crise no seu casamento com seu marido Dado (Paulo Vilhena), infeliz no emprego que tem e ainda é pega de surpresa com uma atordoante notícia de sua mãe, Clarisse (Clarisse Abujamra), com quem possui uma relação cheia de conflitos.

A notícia mexe bastante com a protagonista que passa por uma grande transformação ao longo dos 102 minutos de projeção.

Como Nossos Pais é um belo retrato de geração dos 30/40 anos, perdida em ideias progressistas e valores atrasados.

Machismo, monogamia e liberdade sexual são discutidos de forma sensível e madura. A desigualdade de gênero, tema central da história, é retratada sem fúria. Só isso já faria o filme valer a pena.

Uma super-heroína dos nossos tempos, Rosa, precisa conciliar seu tempo com a educação de suas filhas pequenas, tentar ajustes em seu casamento recheado de desconfiança e crise financeira. Rosa é o reflexo da força feminina nos dias de hoje.

A raiva e o ressentimento quase sempre presente nas relações familiares e a transmissão de valores conservadores de gêneros entre pais e filhos – mesmo os mais liberais – também são traduzidos na tela.

A narrativa central sobre as pressões que geram culpa nas mulheres é uma discussão oportuna e necessária.

Dominique - Pais

Como Nossos Pais equilibra com virtuosismo – ao menos na maior parte do tempo – seu peso dramático com alívios cômicos e suas cenas de embates violentos com diálogos mais leves, mas nunca despretensiosos ou menos reflexivos por causa disso.

Não podemos deixar de falar das excelentes interpretações de Maria Ribeiro – que dá não só a vida à personagem, mas a torna extremamente real e de Clarisse Abujamra, afiada na pele de uma mulher que diz o que sente de uma maneira fria, direta, determinantes para o bom resultado do longa.

Os conflitos entre mãe e filha no decorrer do filme são marcantes e a atuação de Jorge Mautner, em cenas que viram cômicas, merece destaque.

Não por acaso a produção foi consagrada com seis Kikitos – melhor filme, direção, atriz, ator, atriz coadjuvante e montagem.

Como Nossos Pais é sem dúvida um grande filme. Vale a pena conferir!

[fve]https://youtu.be/-_8t-3PG8Qk[/fve]

Leia mais:

Dunkirk: uma batalha no inicio da Segunda Guerra Mundial
Lady Macbeth: caso extraconjugal e suas consequências

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Dunkirk: uma batalha no inicio da Segunda Guerra Mundial

Dominique - Dunkirk
Hoje comento um filme de guerra, programa ideal para ser visto a dois. Dunkirk promete a guerra que você nunca viu e entrega uma experiência única.

O diretor britânico Christopher Nolan cria um drama extremamente real e vibrante.

Nolan já inicia seu longa nos dando um vislumbre do que estaria por vir. Um grupo de soldados percorre as ruas de Dunkirk, no norte da França, quando começa a ser alvejado pelas forças inimigas.

Em momento algum vemos os nazistas, apenas ouvimos seus tiros e enxergamos os aliados caindo um a um.

Sobrevive apenas Tommy (Fion Whitehead), um dos personagens cujo ponto de vista acompanhamos nessa jornada. O que há de diferente nessa sequência da grande maioria dos filmes de guerra por aí?

O simples fato de que não existe vilanização, apenas a angústia que nos preenche enquanto torcemos para que os soldados ingleses sobrevivam, algo que se mantém ao longo da projeção.

A batalha de Dunkirk aconteceu entre maio e junho de 1940. Na ocasião, a cidade homônima, no litoral da França, foi cercada por tropas alemãs – cerca de 400 mil soldados estavam sem saída, sem mantimentos, sem esperança.

As forças armadas da Inglaterra tentaram várias incursões para resgatar os homens e a maioria foi em vão, com aviões derrubados e navios naufragados.

Dominique - Dunkirk

O diretor britânico que também escreveu o roteiro optou por não mostrar todas as ramificações da batalha e focar na reta final da missão de resgate.

Hans Zimmer, compositor da trilha sonora, ao lado de Nolan, nos entrega seu melhor trabalho, ajudando na construção dessa insólita atmosfera. Com constantes crescendos e percussão em evidência, o compositor nos faz sentir como em uma constante corrida contra o tempo em que a recompensa é a sobrevivência.

Zimmer corta os planos abertos de Nolan, transformando o belo céu azul em fonte de tensão, com melodias que se disfarçam em efeitos sonoros, mimetizando sirenes e sons de hélices de aviões, brincando com nossas expectativas a todo e qualquer instante.

A fotografia de Hoyte van Hoytema quase nunca usa close dos atores, preferindo acompanhá-los de perfil ou por trás, ou filmar as massas humanas à distância, o que só aumenta a aflição e a experiência desumanizadora do conflito.

Como proposta visual, Dunkirk é excelente. O diretor tem plena consciência dos ângulos, lentes e movimentos de câmera adequados para provocar a máxima experiência de tensão. O cenário de guerra é captado de maneira grandiosa, pela amplitude das praias, mares e céus, e também intimista, por se focar em dramas humanos pontuais, silenciosos, envolvendo a vida de anônimos.

Nolan preferiu os planos mais longos e muitas vezes contemplativos – oposto da estética de boa parte dos blockbusters de hoje em dia. As cenas mais frenéticas têm a função de dar mais drama aos personagens do que mostrar os horrores da guerra.

Um dos grandes trunfos do longa: seu diretor e roteirista não nos permite relaxar em nenhum momento, colocando-nos lado a lado com os soldados aflitos pela possibilidade de jamais serem resgatados.

A beleza de Dunkirk, portanto, não está em contemplar o épico e sim a fragilidade humana, seja física ou emocional. Fragilidade essa que já deveria ser o suficiente para evitar qualquer um desses conflitos.

Dunkirk já é um clássico de seu gênero e o crédito disso tudo fica nas mãos de Nolan, que soube usar todas as ferramentas que tinha em suas mãos para contar uma história que apesar de triste, celebra o melhor do ser humano, mesmo diante de tanta destruição.

O filme configura talvez como o melhor longa de seu diretor. Uma obra-prima.

Se você for amante do gênero, vai amar Dunkirk!

[fve]https://www.youtube.com/watch?v=UsWyfyTjXgc[/fve]

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Lady Macbeth: caso extraconjugal e suas consequências

Dominique - Lady

Hoje comento o intenso e pulsante filme baseado no livro “Lady Macbeth do Distrito Mtzensk”, de Nicolau Lescov, o qual, por sua vez, é inspirado na famosa personagem de William Shakespeare, Lady Macbeth.

O filme se passa na Inglaterra do século XIX, mas dialoga plenamente com as questões sociais da atualidade.

Em essência, temos a história de uma mulher que acima de tudo visa a própria sobrevivência, com o roteiro explorando questões como a objetificação do feminino e, claro, tecendo críticas ao patriarcado, tão perfeitamente retratado não apenas pelos personagens masculinos, como também, por todas as mulheres que envolvem a protagonista, claramente à frente de seu tempo.

O longa apresenta algumas modificações da obra original ao contar a história de Katherine (Florence Pugh) que está presa a um casamento de conveniência, casada com Boris Macbeth (Christofer Fairbank).

A jovem agora se vê integrante de uma família sem amor. É só quando ela embarca em um caso extraconjugal com um trabalhador da propriedade do marido que as coisas começam a mudar.

O diretor teatral William Oldroyd estreia como cineasta com um drama de época centrado na expressividade minimalista da jovem atriz Florence Pugh.

Algumas ações como o abrir da janela enquanto Katherine dorme, seu cabelo sendo penteado pela criada da casa e o torturante espartilho são repetidas confirmações visuais que constroem um ambiente hostil em que essa mulher é obrigada a viver.

Visualmente, além de impecável ambientação e direção de arte, os quadros sempre privilegiam embates. Sejam em movimentos de câmera que mostram Katherine percorrendo a gigantesca casa em que mora ou nos planos e contrapontos centralizados que indicam a disputa do poder que a protagonista trava com as outras personagens na narrativa.

Lady Macbeth mantém o espírito subversivo do livro ao mostrar a protagonista se rebelando contra todas as convenções sociais da época e tomando as rédeas de sua própria vida.

Claro que sem deixar de retratar as terríveis consequências de seus atos para si mesma e para todos que a cercam.

A diretora de teatro, Alice Birch, excelente em sua estreia como roteirista, transforma Katherine em alguém ainda mais autocentrada.

A trilha sonora é muito importante nesse filme empenhado em deflagrar das pequenas às grandes violências que marcam o cotidiano das personagens.

O arranjo narrativo que faz do som aliado da imagem, enriquece o longa.

Performance espetacular de Florence Pugh, uma das melhores do ano, como a fria e amoral protagonista Katherine. Destaque também para Naomi Ackie, a criada negra Anna.

A fotografia é maravilhosa. Privilegia a luz natural e se vale constantemente das sombras e investe em planos mais longos e estáticos que evocam a monotonia que sufoca Katherine.

A cena final chega como surpresa – e provavelmente não agradará a todos, mas o filme é sensacional!

Lady Macbeth é um filme incrível. Não perca!

[fve]https://www.youtube.com/watch?v=V0e-z24MWvs[/fve]

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Malasartes e o Duelo com a Morte: trapaças, mitologia e diversão

Dominique - Malasartes

Hoje comento e indico o brilhante e inovador filme Malasartes e o Duelo com a Morte, que o genial diretor e roteirista Paulo Morelli nos presenteou. Uma superprodução nacional que resgata o folclore caipira.

Pedro Malasartes é um personagem bem mais antigo do que se pensa. Originado há séculos em Portugal e Espanha, ele acabou sendo trazido ao Brasil na época da colonização.

Esperto e sedutor, nas histórias em que é protagonista, ele alterna entre a humildade e a malandragem.

Tem um bom coração, mas sempre quer levar vantagem em tudo. Com esse perfil bem brasileiro ele acabou se tornando um mito importante na cultura nacional.

Sendo um personagem tão importante para a cultura popular, nada mais justo que Malasartes ganhar um filme próprio.

Malasartes é um filme doce e inocente, ingenuidade pura e para toda a família.

Para o roteiro, Morelli mesclou a riqueza da cultura brasileira com elementos da mitologia grega e romana.

O resultado é um filme típico caipira com um mundo místico e criativo.

Morelli entrega uma história agradável e divertida, cheia de viradas no tempo certo e um ritmo que impõe ação contínua aos personagens muito bem construídos.

A trama é bem costurada com uma mitologia própria e uma história composta por trechos de diversos contos.

Dominique - Malasartes

Na trama Malasartes (Jesuíta Barbosa), escapa de uma situação atrás da outra, conhecido como trapaceiro em sua pequena cidade. Um dos seus mais ferrenhos cobradores é Próspero (Milhem Cortaz), o valentão local, cuja irmã Áurea (a graciosa Isis Valverde) está secretamente enamorada pelo protagonista.

A história toma contornos fantásticos quando a Morte em pessoa (Julio Andrade) pretende enganar Malasartes para que esse assuma seu lugar – já que o sujeito é considerado o único capaz de derrotá-la em um duelo de esperteza.

A história de Malasartes se divide em dois grandes momentos: o que se passa no mundo rural e o que se passa no mundo mágico. Os efeitos especiais ocorrem nos dois ambientes com muito mais ênfase no mundo virtual.

Os efeitos especiais são o carro chefe do filme. Cerca de metade do longa foi feito com efeitos visuais gerados por computação gráfica.

Sem dúvida, uma conquista para o cinema nacional poder criar pela primeira vez algo assim. Realmente impressiona, em especial a forma como o além-mundo é retratado, com as velas que contam os anos de vida de cada pessoa na terra.

Dominique - Malasartes

O elenco peso pesado, renomado, mais acostumado a trabalhar em dramas intensos, como Jesuíta Barbosa, excepcional no papel, Milhem Cortaz, Julio Andrade, Luciana Paes. Realmente ótimos atores com sinergia entre todos e excelentes atuações individuais.

A Direção de Arte tem dois momentos fantásticos: nos cenários caipiras bem elaborados e visualmente ricos e nos cenários e figurinos do mundo mágico.

Essa superprodução além de ótima distração é também uma experiência inusitada, inovadora, além de muito apropriada para o nosso momento brasileiro.

Vale a pena conferir!
Divirta-se assistindo Malasartes e o Duelo com a Morte!

[fve]https://www.youtube.com/watch?v=s_qtWlhxhlA[/fve]

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O Filme da Minha Vida: anseios e dilemas da juventude

Dominique - Vida

Hoje comento e indico um filme nacional que acabou de entrar nos cinemas. O belo, poético e nostálgico O Filme da Minha Vida, chegou para nos encantar.

Uma joia brasileira, uma joia rara.

Ambientado na serra gaúcha, na década de 60, com magníficas paisagens e uma linda história de reestruturação familiar, o filme mostra o processo de amadurecimento do jovem professor Tony (Johnny Massaro), sua relação estreita com a mãe, a ausência do pai – o francês Nicolas (Vincent Cassel), seus anseios e dilemas, seus amores. Um rito de passagem da juventude para a maturidade.

Dirigido e escrito por Selton Mello (roteiro dividido Dominique - Vidacom Marcelo Vindicato), tem como base Um Pai de Cinema, escrito pelo chileno Antonio Skármeta, que se consagrou com O Carteiro e o Poeta.

O talentoso Selton Mello com uma habilidade incrível em mesclar tons de comédia com grande sensibilidade dramática mantém essa sua principal característica em seu terceiro longa.

Com narrativa que traz um ar de homenagem aos grandes épicos do cinema clássico, assistir esse filme é admirar pinturas em movimento.

As imagens captadas pelo grande mestre da cinematografia, Walter Carvalho, traduz a beleza de uma mistura de sentimentos que nunca soa descompassada.

Com questionamento poético, história intimista, minimalista e sentimental, O Filme da Minha Vida conta com personagens muito interessantes, uma história de abandono e também de solidão, momentos cômicos e tristes bem balanceados e um ar de poesia.

Há a melancolia decorrente da ausência.

O retorno do pai de Tony à França abre uma fenda profunda dentro do jovem, não só pela saudade, mas pelo impacto que tal partida provoca, dia após dia.

Há em O Filme da Minha Vida uma reverência ao passado, seja pela ambientação idealizada no sul do Brasil, com figurinos típicos dos anos 60, seja pela lembrança constante de uma felicidade que já não existe mais.

Daí vem o tom melancólico em torno do sensível Dominique - VidaTony e também a rudeza de seu amigo Paco reações diretas do modo como reagem a fatos marcantes trazidos pela vida.

Quanto a parte técnica do filme, tudo é impressionante.

A direção de Mello é ótima, ele tira o máximo que consegue de seus atores.

A trilha sonora muito bem montada, assinada pelo músico Plínio Profeta, com canções incríveis colocadas de maneira correta e condizente. Você vai se deliciar ouvindo Charles Aznavour cantando Hier Encore, Sérgio Reis cantando Coração de Papel.

O filme se permite ser lúdico e ser calcado no sonho para ilustrar as sensações de seu protagonista, como no momento em que este, ao som da ópera Carmem, de Bizet, literalmente flutua em direção às paixões amorosas.

O Filme da Minha Vida é de uma beleza cativante em sua história mais que sensível.

O excelente design de produção, que consegue uma reprodução impressionante da época, fecha com maestria os atributos visuais do longa, tornando este um dos melhores exemplares nacionais do ano. Eu amei!

Esse filme vai emocionar você! Não perca!

Bom programa!
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