Tag: Polônia

Agnus Dei – Les Innocentes

Uma história finalmente contada.

Les Innocents exibido no Festival Varilux de Cinema Francês em 2016, chegou por aqui com o nome de Agnus Dei. Baseado em fatos reais, filmado na Polônia e França, conta uma história de violência contra mulheres ao final da Segunda Guerra Mundial, em um vilarejo polonês.

Durante uma missão da Cruz Vermelha, a jovem médica francesa, Mathilde (Lou de Laâge), trata de sobreviventes franceses antes de serem repatriados. Mathilde descobre que freiras de um convento vizinho foram estupradas por soldados russos. Muitas delas estão grávidas. Apesar da ordem de prestar socorro apenas aos franceses, a médica começa a tratar secretamente de todas as freiras e madres e enfrenta os julgamentos das próprias pacientes que se sentem culpadas por terem violado o voto de castidade que se recusam a ter o corpo tocado por quem quer que seja até mesmo uma freira.

A talentosa diretora e roteirista Anne Fontaine ficou profundamente tocada com essa história sobre maternidade e questionamento da fé, e faz de “Agnus Dei”, um filme forte, denso e que provoca inúmeras reflexões.

O roteiro não tem como foco discutir a guerra em si, trata com atenção as consequências dos atos brutais dentro do convento e de como as freiras grávidas lidam com essa provação.

O longa é essencialmente de mulheres, mas alguns de homens aparecem em cena – especialmente no cotidiano de Mathilde, cercada de homens no hospital militar.

Um desses homens tem destaque na produção: o médico Samuel (Vincent Macaigne). Ele aparece, para reforçar a leitura da personagem de Mathilde e para ajudar a contrastar a vida dela com a das freiras do convento.

Conhecemos duas realidades diferentes: a das mulheres enclausuradas que acabam tendo suas vidas invadidas e agredidas de forma covarde, sem possibilidade de defesa em contraste com a vida independente de uma médica que fez a escolha de dedicar a vida para ajudar as pessoas na Cruz Vermelha.

Mathilde é solteira, possuí uma profissão, sai com o homem que quer, fuma, tem origem familiar comunista, e faz o que acha certo. Em contrapartida as freiras que ela encontra em situação de vergonha e medo devem seguir hierarquia com o propósito ter obediência, e dedicar todo tempo a Deus.

Essas duas realidades não se chocam, mas é difícil para Mathilde se colocar no lugar daquelas jovens mulheres, até que em certa uma noite, ela passa por uma situação semelhante.

”Les Innocents” nos conta uma história terrível e convida o espectador a conhecer mais uma das chagas pouco comentadas que foram deixadas pela Segunda Guerra Mundial.

O longa convida as mulheres a fazerem um exercício de empatia que é duro, porém é necessário.

Bem construído e com ótimo elenco, “Agnus Dei” fala de humanidade e compaixão. Independe de religião, de visão política, ou lado da guerra.

Anne Fontaine empresta sua assinatura a esse magnífico filme sobre transgressão e amparo. O emocionante encontro entre a médica francesa e a irmã Maria (Agata Buzek), dividida entre seus votos e a vontade de aceitar a vida.

 Acima de tudo é uma belíssima homenagem às mulheres vítimas tão esquecidas – e tão silenciadas – de todas as guerras.

Um filme, belo, sensível, tocante e acrescenta-se também, que nos faz refletir sobre dogmas e comportamentos humanos durante a guerra. Nos faz notar que a humanidade é capaz de triunfar diante de tantos absurdos e perversidades que o ser humano é capaz de cometer em nome do poder, do prazer e até mesmo de Deus.

Importante mencionar dois aspectos: a trilha sonora emocionante, e a fotografia com  belíssimas imagens com potencial de serem emolduradas.

Confira o Trailer:

https://youtu.be/Gr6w-22dOEk

Veja também:

https://dominique.com.br/beleza-americana/

https://dominique.com.br/lore/

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Baseado em Fatos Reais – Uma história densa de apreensão e obsessão

Dominique - Baseado em fatos reais
Baseado em Fatos Reais é o mais recente longa do polêmico diretor Roman Polanski que escolhi para comentar hoje.

Trata-se de um thriller psicológico inventivo, mas não tão arrebatador ou inédito, embora com a qualidade que sua assinatura assegura.

Baseado em Fatos Reais traz uma dupla de protagonistas, Emmanuelle Seigner (atriz premiada e também esposa de Polanski),e Eva Green, que comandam o espetáculo.

No início do longa temos Delphine, escritora celebrada pelo sucesso de um livro bastante pessoal dedicado à sua mãe que parece viver o auge de seu prestígio e popularidade. Na noite de autógrafos é abordada por Elle (Eva Green), sua grande fã.

Elle se apresenta como “ghost whriter” em biografias de celebridades e se insinua como amiga inestimável da escritora. Como costuma acontecer com escritores após publicação, Delphine enfrenta uma crise de criatividade. Mas, Elle agora está lá, com opiniões duras, porém úteis ao seu trabalho.

Resumindo, a moça ganha a confiança irrestrita da escritora, e isso, sabemos, é sempre um perigo.

O namorado de Delphine, Raymond (Vincent Perez), é o apresentador de um programa de TV sobre literatura e, embora perceba que Delphine está um tanto desestabilizada, prefere manter o cronograma de suas viagens para a nova temporada do programa.

Dominique - Baseado em fatos reais

É nessa lacuna que Elle vai se apropriando da amiga e Polanski, com os préstimos de Olivier Assayas, que aqui assina o roteiro, vai desvelando uma trama que aborda a construção da identidade.

A trama é inquietante e vai brincando com o espectador a cada camada que avança o relacionamento da escritora e sua fã. Depois que Elle se torna amiga de Delphine, passa a confidente, invade o espaço do apartamento da escritora, até literalmente tomar o lugar dela.

Elle se insere na sua vida com violência emocional e psicológica. O nível de piração vai cercando as duas e prendendo o público.

Polanski sabe aumentar o clima e nos lança dúvidas e inquietações como ninguém.

Baseado em Fatos Reais remete aos suspenses dos anos 80 e 90, mas apesar de cortejar o cinema clássico, não deixa de ser moderno.

A fotografia competente e trilha sonora do grande Alexandre Desplat, que recebeu um Oscar® pelo filme A Forma da Água, ajudam a criar um clima denso, perigoso e assustador.

Baseado em Fatos Reais pode não ser o filme mais genial de Polanski, mas não deixa de ser um excelente entretenimento. Vale a pena conferir!

Leia Mais:

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Frida – A personagem acima de tudo. Disponível na Netflix!

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Com Amor, Van Gogh: uma declaração ao criador e à Arte

Dominique - Van Gogh
Escolhido pelo público como melhor filme de ficção na 41ª Mostra Internacional de Cinema de SP, o belíssimo Com Amor, Van Gogh, animação dirigida pela polonesa Dorota Kobiela e por seu marido, o britânico, Hugh Welchman.

Foram seis anos de trabalho para que o longa ficasse pronto. Cerca de 150 artistas pintaram cenários em telas, usando a mesma técnica de Vincent van Gogh. Ao mesmo tempo, atores de verdade eram filmados em estúdio. Depois a equipe ilustrou o elenco e seus movimentos. Por fim, cerca de 65.000 frames em pintura foram animados para resultar nesse maravilhoso filme em cartaz no Brasil.

Vincent van Gogh foi um dos mais notórios artistas a não ter o reconhecimento de sua genialidade em vida.

Van Gogh só começou a pintar em 1881, aos 28 anos de idade, e sua personalidade conturbada fez com que fosse encarado como louco, o que não o impediu de produzir fabulosas pinturas a óleo (cerca de 600 obras) que realizou até pouco antes de morrer aos 37 anos.

O longa conta a história através do personagem Armand Rouland, filho do carteiro responsável pela correspondência entre Vincent e seu irmão Theo. O rapaz fica encarregado de entregar uma última carta de Vincent para Theo, naquele momento ambos já falecidos.

O protagonista assim como o público, vai entrando na vida do pintor, descobrindo a cada cidade que passa e a cada encontro que vive mais uma faceta de Vincent. Os personagens do filme contam as passagens do artista fazendo uma viagem por sua biografia.

Dominique - Van Gogh

A narrativa serve mais para ambientar a vida do pintor e suas aflições, do que propriamente para desvendar o mistério de sua morte. O filme retrata antes de tudo, Vincent como uma alma sensível e atormentada, maltratado ao longo da vida, desde sua complicada relação com a mãe e que, no final das contas, hoje não seria mais considerado um louco, um esquizofrênico.

Com Amor, Van Gogh faz com que os flashbacks sejam em preto e branco, em passagens rápidas, sem diálogos entre os personagens, rastros das memórias de terceiros sobre o pintor. O filme faz questão de deixar claro que há ali uma visão estética e bem trabalhada, não uma simples animação através de uma técnica difícil.

Há uma transição entre narrativa e flashback para combinar o preto e branco da vida do pintor com a investigação colorida deixada por Van Gogh.

A exuberância cromática dos quadros reaparece ao longo de toda investigação que o jovem Armand Roulin faz para decifrar o fim trágico do artista.

Com Amor, Van Gogh é como entrar em um museu onde as telas expostas estão vivas e te contam uma história.

Não perca esse belo e sensível filme, uma experiência cinematográfica única! Merece ser visto no cinema, mas caso não consiga ir, o filme também está disponível na Netflix. Eu amei e achei imperdível!

Assista ao trailer:

Leia mais:

Barreiras: conflito feminino de três gerações
O mistério do Assassinato no Expresso do Oriente

2 Comentários
  1. Lara também gosto muito do Cumberbatch e esse novo filme eh atualíssimo mesmo, mas tbm não vi ainda. Vamos trocar comentários assim q assistir.

  2. Todos estes filmes sobre o van gogh são fascinantes. O que eu mais gosto deles é Pintando com Palavras com o ator Cumberbatch. Ele atua tão bem que quero ver logo seu novo trabalho, Brexit. Ele sempre nos fascina nos seus papeis e neste não parece ser diferente. Gostei muito do trailer que vi do próximo trabalho dele que vai estrear, o Brexit. Achei muito inusitado utilizarem um assunto tão atual para fazerem uma produção. Creio que o filme brexit deva ser bem revelador e intrigante devido sua história, parece não ser mais um filme enfadonho de política, mas que pelo contrário, tem um ritmo legal e bem conduzido, sem ser tão previsível quanto os demais da categoria.

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Afterimage – A história do artista Wladyslaw Strzeminsk

Dominique - Afterimage
Escolhi o filme Afterimage porque se você, assim como eu, gosta de história e de artes plásticas, certamente vai gostar desse filme que, embora pesado é o último do aclamado cineasta polonês Andrzej Wajda, mais um motivo para ver no cinema.

Powidoki (título original), narra a história do celebrado artista plástico, o também polonês Wladyslaw Strzeminski, um dos principais nomes da arte de vanguarda em seu país, perseguido na União Soviética por fazer oposição ao Realismo Socialista, um movimento artístico cujo conceito era basicamente uma forma de propaganda dos ideais soviéticos.

Ao longo do filme, acompanhamos as consequências sofridas por um artista que ousou levantar a voz contra o totalitarismo soviético.

O título Afterimage vem das memórias, especialmente as visuais, que não são apagadas com agentes soviéticos destruindo obras de arte na surdina e um vasto e consagrado conjunto de obra não desaparecerá com tanta facilidade apenas impedindo que o artista continue seu trabalho.

Wladyslaw Strzeminski foi um artista plástico, um pintor do início do século XX, contribuidor fundamental ao modernismo, teórico e prático.

No longa vemos magistralmente interpretado por Boguslaw Linda um brilhante professor da Escola de Belas Artes de Lodz, feliz por desenvolver o pensamento sobre a nossa percepção de arte, “Teoria da Visão”.

No auge de sua carreira, com aulas lotadas e idolatrado pelos seus alunos da Escola de Arte de Lodz, o pai do Movimento Construtivista polonês dos anos 1920/30 vê tudo que construiu ser apagado da memória da sociedade com a destruição de suas obras e humilhação pública por não conseguir emprego.

Wadja um dos grandes diretores da Europa Oriental, sempre lutou pela liberdade e democracia e expôs as repressões dos regimes totalitários na Polônia e seu posicionamento político em suas obras, ampliando a percepção de seu público para além de seu país, traduzindo em arte questões íntimas e sociais, de um cinema que soube ser engajado, autoral e, ainda assim, interessante.

Afterimage é a prova de que é possível fazer um cinema poético e simbólico a partir de conturbados momentos da história.

Wadja nos deixa com este candidato ao último Oscar® de filme estrangeiro, um grande filme, cuja percepção plena nos chega aos poucos, nos faz questionar a função do artista e da arte, suas importâncias para acultura e seus impactos na sociedade.

Quanto à parte técnica do filme destacam-se a trilha sonora, figurinos e a excelente fotografia, que passa de uma leve exposição de luz e cor no início, para uma realidade sombria, mais escura, com planos mergulhados em cinzas e filtros azulados e esverdeados.

Sem dúvida Afterimage foi um dos melhores filmes de Wajda fechando assim com chave de ouro sua extraordinária carreira.

Vale a pena conferir. Depois me conta se gostou!

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