Destaque

8 em Istambul, Ethos ou Bir Başkadır

Mini-série Turca espetacular no Netflix.

8 em Istambul, é o nome dado no Brasil, Ethos em inglês e em Portugal, e Bir Başkadır no próprio idioma turco.

O título dado para o Brasil, refere-se aos 8 personagens envolvidos na série, porém confesso que demorei muito tempo até fazer essa ligação.

Ethos, palavra grega que significa o modo de ser, o caráter e originou a palavra ética. Esse título, já traz bem mais complexidade, o Ethos religioso que é o “caráter moral”, é usado para descrever o conjunto de hábitos ou crenças que definem uma comunidade ou nação.

O tradutor já foi bem menos preguiçoso aqui do que no nosso querido Brasil.

Digo isso, porque depois de assistir a mini-série, fui pesquisar a tradução do título em turco para o português, e descobri, se não me falham as fontes, que Bir Başkadır é um dito popular que significa que algo ou alguém é único, não havendo no mundo nada comparável – sempre com sentido positivo. Sem dúvida, esse é o melhor título para essa obra que fala de 8 vidas únicas, com realidades e mentalidades diferentes apesar de serem todas de uma mesma etnia: a turca.

O primeiro episódio começa com Meryem, uma jovem toda coberta de acordo com os costumes da religião muçulmana, no consultório de uma moderna a até um tanto pedante psiquiatra que atende um hospital público. A jovem foi direcionada para tratamento com a Dra Peri, pois nenhum problema clínico justificou seus desmaios repentinos

Meryem, com apenas seu lindo rostinho a mostra, é uma expressiva e inteligente jovem de pouca instrução, religiosa. Mora na área rural e periférica de Istambul, na casa com seu irmão mais velho que é super autoritário. Moram junto, os sobrinhos e a cunhada que vive uma perigosa depressão.

A série traz em seu subtexto grandes reflexões sobre preconceitos de toda sorte, machismo estrutural, polarização de uma sociedade que vive em extremos. Interessantíssimo seja para turcos, seja para brasileiros.

Apesar da trama se mover lentamente e a cinematografia lembrar um filme de arte, está longe de ser uma série chata ou enfadonha. Talvez não seja daquelas que maratonamos, até porque tenho certeza, você vai parar para refletir entre um episódio e outro.  

As questões psicológicas permeiam todos os personagens com amarrações muito interessante.

Talvez seja a humanidade e a empatia palpável com que Ethos (obviamente, prefiro esse título a 8 em Istambul) trata seus personagens que fizeram da série um fenômeno. Em um momento de intensa polarização social e desconfiança mútua em muitos eixos da nossa sociedade, a série imagina um modo diferente de vivermos juntos. É como se o Ethos nos colocasse a todos no consultório do terapeuta.

Vale a pena conferir, e insista ainda que no começo ache muito devagar.

Leia também:

Borgen – A série que ajuda a entender como se faz a boa política.

8 em Istambul tem em comum com a série dinamarquesa Borgen , o protagonismo feminino, a política mais ou menos explícita e muitos conflitos pessoais. Ahhh, Tem mais uma! Não conseguimos entender uma única palavra nem de uma, nem de outra série já que ambas estão com o som original.

Eliane Cury Nahas
Eliane Cury Nahas

Economista, trabalha com tecnologia digital desde 2001. Descobriu o gosto pela escrita quando se viu Dominique. Na verdade Dominique obrigou Eliane a escrever. Hoje ela não sabe se a economista conseguirá ter minutos de sossego sem a contadora de histórias a atormentá-la.

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Insônia: Surfando por águas perigosas

O Lavabo e 2021

Bem, essa é a continuação do texto de ontem, 2021 e o Lavabo, onde conto como foi minha passagem de ano, onde em resumo, entre outras coisas, meu celular quebrou e clonaram meu cartão. Nossa! Olha só o meu poder de síntese consegui, em resumo, com meia dúzia de palavras reproduzir um textão que levei horas escrevendo. Olha ele aqui.

Na sexta feira, dia 8 de janeiro, já em São Paulo, acabei pegando um celular já que estava “sobrando” na firma do marido, um desses que as operadoras “dão” quando voc(ninguém dá nada pra ninguém. Doce ilusão).

Não posso reclamar, mas vou fazê-lo sim. Trocar de celular, na minha idade, é um saco!! Por mais que os apps já venham todos instaladinhos, tem um monte de coisas que precisa reconfigurar, milhares de senhas que eu não salvei em lugar nenhum e obviamente não lembro, e os aplicativos de banco nunca funcionam de primeira sendo que uma visitinha a agência sempre se faz necessária.

Por essas e outras que eu tinha decretado que do IPhone 7 pularia direto para o 14, fazendo valer a teoria dos setênios também para Steve Jobs. E estava indo muito bem já que tinha conseguido pular o 8, o 9, o 10, o 11, o 12 e até um X no meio do caminho. Para quem interessar possa, apesar de não ser de nenhum interesse, meu novo telefone é modelo 8 e está pra lá de bom!!

Enfim, sepultado o celular possuído pelo demo, assim como o assunto, mudemos para o próximo.

Vai ano, vem ano, e algumas coisas continuam as mesmas, não é mesmo? Quem tem o sono delicado, continua tendo o sono complicado, com ou sem pandemia, com ou sem perspectiva de vacina, na praia ou em São Paulo ou numa casinha de sapê como já dizia Kid Abelha.

E na própria sexta-feira, dia 8, já em Sampa, fui deitar lá pelas 23h, como sempre. Peguei no sono depois de um bom tempo, como sempre. Acordei antes da hora como sempre. O que teve de diferente nesse dia, foi que meus olhos abriram as 2 da matina e nada de conseguir dormir de novo. Vira prum lado, vira pro outro, e nada. Fritando na cama, com o tempo passando a passos de cágado, resolvi que iria para a sala com o intuito de não incomodar meu marido e quem sabe pegar no sono no sofá.

Liguei a TV. Procurei filme na Netflix. Fui até a cozinha. Abre e fecha geladeira diversas vezes, na esperança de que seu conteúdo pudesse mudar e quem sabe, eu encontrasse um pudim encantado em algum momento, contudo o que eu via era aquele desolador figo já meio passado, que insistia em me assombrar a cada tentativa.

Visito a janela para espiar meus vizinhos a fim de contabilizar quantas luzes acesas denunciam outras pessoas insones, ou quem sabe, apenas com medo de dormir no escuro.

Por falta do que fazer, resolvo fazer pipi. Não ousaria voltar para meu quarto e mais uma vez incomodar o coitado do homem, que dorme o sono dos justos. Por pura lógica de distâncias, dirijo-me ao lavabo, minúsculo e simpático ambiente de minha casa.

Nesse momento, devo fazer uma consideração técnica. Moro num edifício construído na década de 80, portanto com mais de 30 anos. Isso significa que algumas atualizações foram feitas, entretanto, outras são mais difíceis, mais trabalhosas ou mais onerosas, como, por exemplo, trocar aquele antigo e perdulário sistema de descarga pelo de caixa acoplada.

Preciso contar o que aconteceu?

Lavando as mãos, depois de dar a descarga, percebo que as águas continuam correndo. Não tinha nada entupido, pois era um movimento contínuo e incessante. Quem viveu isso sabe do que eu estou falando. Levantei a abinha da válvula, puxei, puxei, e nada. O que fazer? Parece óbvio, não é mesmo? Fechar o registro.

Mas que registro? Qual não foi minha surpresa ao descobrir que não há registro de água no lavabo de minha casa! Pânico! Continuei tentando fazer tudo que estava dentro de minhas possibilidades e de meus parcos conhecimentos hidráulicos.

Pânico!

Só me restava uma coisa a fazer. Sim, sim sim. Tinha que acordar o maridão no meio da madrugada, correndo todos os riscos previstos no manual dos casamentos longevos. Deixar rolar não era uma opção apesar de ter passado pela minha cabeça, confesso, ligar para uma Porto da vida ou até mesmo acordar o zelador. Todavia o bom senso venceu a covardia e lá fui eu.

Devagarinho, bem mansinha, ao pé da cama, fazendo carinho na perna do amado e sussurrando. Aliás, pelo meu tom de voz, algum desavisado poderia acreditar que eu estava tentando seduzi-lo, de tão baixinho e amoroso que estava.

-Amor, amor…Está tudo bem… Mas eu preciso de sua ajuda.

Pronto. Disparei a palavra de pânico. Ajuda, no meio da madrugada? Ele saltou da cama assutado perguntando o que tinha acontecido.

— Nada sério. Calma. Foi só a descarga do lavabo que disparou.

Eu cheguei a comentar com você que não acendi nenhuma luz para entrar no quarto? Não?

Pois bem, aquele homenzarrão, desperto no meio da noite pela esposa pedindo ajuda, sai no escuro em desabalada carreira rumo ao lavabo. Por completa falta de ideia minha, não previ o caminho que ele faria, e no escuro, encontrava-me eu justamente no meio dele.

Resultado? Fui atropelada impiedosamente, como se lá não estivesse, pelo meu marido. Por sorte ele não me viu caindo desajeitadamente sobre o pé de madeira da cama, porque não sei o seu marido, mas o meu é do tipo que fica bravo quando eu me machuco. Claro que não é por mal, mas ele me acha muito desastrada e desligada. Dessa vez não era o caso, entretanto, não deixava de ser minha culpa.

— Você está bem? – pergunta ele depois do ‘esbarrão’.

Não haveria dor, hematoma, machucado algum que me faria piar naquele momento.

— Claro que estou!

Problema resolvido em 5 minutos.

Ahhh, que orgulho de meu herói!

Maridão volta para cama, mudo, sem nenhum comentário, reclamação ou resmungo, que dessa vez, talvez, até pudessem ser pertinentes.

Resolvi voltar para a cama pra tentar não sujar mais minha barra e surpreendentemente, peguei no sono rapidamente dormindo até bem depois do amanhecer.

Moral da História que são várias.

  • Descobri que meu lavabo não tem registro. Até agora, não tive a curiosidade de saber onde seria o esconderijo desse meliante, mas talvez seja interessante saber, just in case. Vai que, né?
  • Preciso deixar alguma coisa muito gostosa escondida para comer nessas horas de desespero. Mas de que adianta eu conhecer o esconderijo? Provavelmente na hora da necessidade, nada mais lá encontraria. Oh vida cruel!
  • Concluo que a maioria das luzes acesas de meus vizinhos de prédio naquela madrugada, eram de pessoas que não gostam de dormir no escuro e não sofridos insones. O mundo e os casamentos não suportariam uma quantidade daquelas de gente acordada aprontando noite afora.
  • Meu marido sabe muito! De consertar a válvula do lavabo no meio da madrugada a saber quando não é preciso falar nada, não me fazendo sofrer mais do que o necessário. Ele sabe muito!

Eliane Cury Nahas
Eliane Cury Nahas

Economista, trabalha com tecnologia digital desde 2001. Descobriu o gosto pela escrita quando se viu Dominique. Na verdade Dominique obrigou Eliane a escrever. Hoje ela não sabe se a economista conseguirá ter minutos de sossego sem a contadora de histórias a atormentá-la.

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Feliz Ano Novo e meus pedidos pulando ondas para 2021

Feliz ano novo para você também!

Passei a virada no litoral como faço há 23 anos, na mesma casa, na mesma praia, com os mesmos amigos. Graças a Deus.

Mas dessa vez, algumas coisas foram diferentes como você deve imaginar.

  1. Não ficamos zanzando na casa dos vizinhos. Todo mundo ficou mais recolhido. Lembrei até de um antiquíssimo slogan de rádio “Cada um na sua e todos na Difusora”(quem lembrou, lembrou, sorry, não vou explicar) .
  2. As casas estavam cheias, porém, pareciam estar mais “calmas”, música mais baixa, luzes apagando mais cedo.
  3. Falando por mim, nunca estive tão introspectiva. Fiz tapeçaria e pintei aquarelas, muitas aquarelas, mas não se iluda, jamais verá aqui uma grande artista, aliás, sequer uma artista. Apenas dei vasão a necessidade de me concentrar em algo sem precisar pensar muito ou elaborar o que quer que seja.
  4. Ao pular as 7 ondinhas, tenho certeza que os pedidos desse ano, da grande maioria dos supersticiosos, foi diferente. Saúde em primeiro lugar? Muito possivelmente. Ânimo para continuar? Talvez em outras palavras, mas acho que deve ter tido muito pulinho por aí com essa intenção. Bom humor para não deixar a peteca cair? Também, seguindo a mesma linha do “ânimo para continuar”.

Bem, se esses não foram os pedidos da maioria, você acabou de saber parte dos meus. E sinceramente? Acho que os 7 mares e seus deuses me ouviram. Pelo menos nesse começo de ano. 

O que você acharia, se seu telefone, nos segundo dia do ano, começasse a enlouquecer, e fosse, gradativamente, perdendo seu touch, perdendo a sensibilidade? Eu tentava digitar um ‘e’ e saia um ‘w’. Do que me serve um W? Quem usa W a não ser Waldir, Wilma e Waldemar? Tentava abrir aplicativos, que teimavam em não obedecer. Via borbotões de mensagens de WhatsApp (facilmente substituível por ZAP na ausência do W) entrando sem conseguir lê-las. Amiga, você imagina a aflição de não conseguir atender ligações apesar de ouvir meu telefone tocando, de ver o nome de quem me ligava? O celular estava imprestável e não tinha muito o que fazer, uma vez que só poderia resolver a situação em São Paulo no dia 8 de janeiro, portanto seis ou sete dias ainda. Af, como sobreviver?

Contudo, e com a ajuda dos anjos marítimos, cumpri um de meus desejos. Vi o lado bom da situação e lidei com ela com bom humor. Qual é o lado bom? Acabei tendo que forçosamente me desconectar de tudo e de todos. Onde entra o bom humor? Algumas ligações até dava para atender, se conseguisse chegar dentro do carro a tempo de ligá-lo para acionar o aparelho a partir do painel de meu possante. Ahhh, fala verdade..Muito engraçado eu dentro do carro na garagem batendo papo…

A epopeia estava perto de acabar, pois, eu estava prestes a voltar para São Paulo, já colocando as coisas no carro para partir quando recebi uma mensagem, que por generosidade do destino, eu consegui ler naquele celular possuído pelo demo. A mensagem era sobre um gasto no meu cartão de crédito feito em Londres. Uhhuuuuu Meu cartão foi vacinado e foi passear nas Europa!!!..

Não. Nada disso. Meu cartão foi clonado na primeira semana do ano.

Fácil, dá tempo de cancelar se eu agir rapidamente. Só preciso ligar para a empresa de cartões. Só. Lembra do touch que não aceitava mais touch? Então…Dei um jeito. Peguei o aparelho do marido. Peguei, não. Arranquei dele. Um pouco mais de estresse, um pouco mais demorado, mas continuamos todos com saúde. E isso é o que importa. Ficar 15 dias sem cartão, sem compras on line, sem compras físicas de verdade, pode ser edificante, né? Não, não. É muito complicado, mas mostra como posso ser criativa na hora de gastar, porque mesmo sem cartão alcancei todos os meus objetivos, hehehehe.

Pronto! Olha só como comecei o ano bem!

Ih, menina, muita coisa ainda para contar, mas vou deixar para contar em outro texto porque esse aqui já está bem grande. Gente! Tudo isso e não tinha chegado nem no 10 dia do ano!!

Feliz 2021. Esse ano promete.

Leia também:

Branco ou colorido para o Ano Novo?

O que não pode faltar na minha lista de Ano Novo

Eliane Cury Nahas
Eliane Cury Nahas

Economista, trabalha com tecnologia digital desde 2001. Descobriu o gosto pela escrita quando se viu Dominique. Na verdade Dominique obrigou Eliane a escrever. Hoje ela não sabe se a economista conseguirá ter minutos de sossego sem a contadora de histórias a atormentá-la.

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Borgen, seriado Dinamarquês que ajuda a entender um pouco de política

Borgen é um seriado dinamarquês lançado em 2010 que chega agora na Netflix.

Apesar de seus 10 anos, não poderia ser mais atual tanto no seu tema quanto nos direcionamentos.

Trata-se da história da primeira mulher a ocupar o cargo de primeira-ministra no Reino da Dinamarca.

Sua eleição acontece de maneira inesperada, até mesmo para ela, Brigitte Noyberg – interpretada por  Sidse Babett Knudsen).

A Família

A série mostra os conflitos pessoais de uma mulher casada com dois filhos num país em que ser político não garante regalias nababescas a que estamos acostumados a ver.

Vemos também todos os bastidores, negociações, relacionamento coma imprensa, jogos de poder que envolvem o alto escalão de um governo.

É bem verdade, que a politicagem, seja na alta esfera ou até mesmo em uma “instituição filantrópica sem fins lucrativos” no Brasil, faz Borgen parecer pueril e uma brincadeira de criança, mas ninguém tem culpa de vivermos num mar de lama.

Kasper Juul, interpretado por Johan Philip Asbæk, é o assessor de imprensa da primeira-ministra. Tem grande importância tanto na trama principal, quanto na trama paralela, em seu romance com a jornalista Katrina. Sabe aquela coisa, quando você torce para que um personagem apareça mais? Porque toda vez que Kasper Juul está em cena, é uma delícia de assistir.

Borgen – A primeira-ministra da Dinamarca, Brigitte e seu assessor de imprensa Kasper

E não é porque estamos falando da Dinamarca, país de primeiríssimo mundo, e que imaginamos estarem evoluídos em todas as questões, que não veremos um machismo escancarado. Sim, até lá, acredite se qiiser.

A parte pitoresca de Borgen fica por conta do idioma. Totalmente inusitado aos nossos ouvidos nos primeiros episódios, pode além de causar uma enorme estranheza, talvez até um certo desconforto, entretanto, a trama logo nos cativa e até quase esquecemos aqueles sons que não tem absolutamente nada de familiar com nossa língua latina.

Ahh, Borgen significa castelo em dinamarquês, e no caso, é o “apelido” utilizado para se referir ao Palácio de Christiansborg, onde estão sediados os três ramos do governo dinamarquês: o Parlamento (legislativo), o Gabinete do Primeiro-Ministro (executivo) e o Supremo Tribunal (judicial).

Veja também:

A Esposa

Eliane Cury Nahas
Eliane Cury Nahas

Economista, trabalha com tecnologia digital desde 2001. Descobriu o gosto pela escrita quando se viu Dominique. Na verdade Dominique obrigou Eliane a escrever. Hoje ela não sabe se a economista conseguirá ter minutos de sossego sem a contadora de histórias a atormentá-la.

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Festa do Cablo, a Festa do Caboclo triste.

Já perdera a conta  quantas vezes tentou jogar no lixo o conteúdo daquela caixa de cartão. Lá no seu íntimo, Dandara achava que, talvez, desfazendo-se das lembranças, conseguiria também apagar as dores. 

Entretanto, ao invés de queimar aquelas assombrações, mais uma vez, abriu a caixa, e oxigenou o fogo que alimentava os seus fantasmas. 

Segurou o desbotado papel amarelo do parolo guarda-chuva de chocolate que ganhou naquela noite na Festa do Cablo. Conseguia lembrar cada pequeno detalhe daquele folguedo, que foi também a última vez que viu Zaki. 

Veja só quanta ironia, pois tinha que ser justamente na Festa do Cablo, aquela que já se chamou Festa do Caboclo.

Hoje em dia, está incorporado ao calendário do folclore nacional e provavelmente, tornar-se-a patrimônio imaterial da humanidade, mas surgiu no século passado, para  reunir os seguidores das religiões de matriz africana, como Candomblé e Umbanda. Porém, com a perseguição sofrida e as constantes acusações de bruxaria, o nome da festa mudou de Caboclo para Cablo, uma alteração, que apesar de aviltante, salvou muitas vidas negras.

Dandara, ainda com o papel de doce na mão, lembrou-se do esmero com que se arrumou aquela noite para encontrar Zaki. Tomou um duche como mandava a tradição, com óleos e essências da terra. Colocou aquele vestido amarelo que tanto realçava a sua pele cor de chocolate, que Zaki não cansava de afagar e elogiar. Dizia que nem a noite de lua cheia resplandecia tanto quanto aquela sua pele negra que ele tanto amava. Não se furtou de usar os sapatos de saltos altíssimos e finíssimo e aquelas “sexys” meias de vidro 7/8,  que deixavam as suas pernas ainda mais bem torneadas, se é que era possível. Uma maquiagem leve, e apenas um par de ganchos a prender os seus cabelos de maneira a soltá-los como num passe de mágica, quando as mãos de Zaki, se aproximassem, para as festinhas carinhosas nos seus cachos.

Na bolsa, levava alguns trocos para um suco, batom, lenços, um comprimido para enxaqueca e as chaves de casa.

Lá foi Dandara, ansiosa por encontrar aquele homem, que acreditava,  já poder chamar de namorado afinal eram meses de encontros, cinemas, lanches, beijos e carinhos.

Assim que chegou, avistou Zaki com um copo na mão e um saco de papel na outra. Sorriu feliz, pois sabia que ele trazia no saco, como sempre, os guarda-chuvas de chocolate, mimo que adorava. 

Aproximou-se sorrindo o sorriso de uma mulher apaixonada. Encontrou o triste olhar de um homem triste. 

Zaki  largou o copo, puxando-a para perto de si, e assim, colados, permaneceram por um tempo que Dandara não saberia precisar. Em silêncio, de mãos dadas, caminharam para o jardim e lá entregou o saquinho com as prendas. 

Começou a coçar o nariz sem parar. Dandara sabia que estes comichões aconteciam quando Zaki estava nervoso e perguntou o que se passava enquanto pegava um daqueles deliciosos guarda-chuvas –  o amarelo para combinar com o seu vestido. Entretida em abrir o doce tentando não estragar o papel que iria para sua caixa de recordações, não percebeu o tremor nos lábios do seu amado que tentavam pronunciar algo.

– Desculpe – disse ele com um fio de voz – desculpe, mas vou casar semana que vem. 

Dandara não entendia o que escutava. O que Zaki falava? Casamento? Uma semana?

Muda, atónita, olhava para ele que murmurava coisas incompreensíveis para Dandara.

Viu Zaki afastando-se e a única coisa de que se lembra, é da sensação do guarda-chuva de chocolate  meio esmagado, meio derretido entre os seus dedos. 

Dos pertences levados na sua bolsa, apenas não usou  o batom. Os lenços foram providenciais tanto para as suas lágrimas quanto para a meleca que fizera com o chocolate. Os trocados garantiram a sua volta para casa de maneira digna, dentro de um táxi. E o comprimido para enxaqueca não poderia ter vindo em melhor hora, não fosse para aplacar a dor, fosse, pelo menos, para dar alguma sensação de conforto.

Soube, tempos depois, que o seu negro Zaki, casou com a alva Eugênia.  

Já perdera a conta  quantas vezes tentou jogar no lixo o conteúdo daquela caixa de papelão. Lá no seu íntimo, Dandara achava que, talvez, desfazendo-se das lembranças, conseguiria também apagar as dores. 

Entretanto, ao invés de queimar aquelas assombrações, mais uma vez, abriu a caixa, e oxigenou o fogo que alimentava os seus fantasmas. 

Segurou o desbotado papel amarelo do cafona guarda-chuva de chocolate que ganhou naquela noite na Festa do Cablo. Conseguia lembrar cada pequeno detalhe daquele folguedo, que foi também a última vez que viu Zaki. 

Veja só quanta ironia, pois tinha que ser justamente na Festa do Cablo, aquela que já se chamou Festa do Caboclo.

Hoje em dia, está incorporado ao calendário do folclore nacional e provavelmente, tornar-se-a patrimônio imaterial da humanidade, mas surgiu no século passado, para  reunir os seguidores das religiões de matriz africana, como Candomblé e Umbanda. Porém, com a perseguição sofrida e as constantes acusações de bruxaria, o nome da festa mudou de Caboclo para Cablo, uma alteração, que apesar de aviltante, salvou muitas vidas negras.

Dandara, ainda com o papel de doce na mão, lembrou-se do esmero com que se arrumou aquela noite para encontrar Zaki.

Tomou um banho como mandava a tradição, com óleos e essências da terra. Colocou aquele vestido amarelo que tanto realçava a sua pele cor de chocolate, que Zaki não cansava de afagar e elogiar, dizendo que nem a noite de lua cheia resplandecia tanto quanto aquela sua pele negra que ele tanto amava. Não se furtou de usar os sapatos de saltos altíssimos e finíssimo e aquelas “sexys” meias de seda 7/8,  que deixavam as suas pernas ainda melhor torneadas, se é que era possível. Uma maquiagem leve, e apenas um par de grampos a prender seus cabelos de maneira a soltá-los como num passe de mágica, quando as mãos de Zaki, se aproximassem, para as festinhas carinhosas nos seus cachos. Na bolsa, levava alguns trocos para um suco, batom, lenços, um comprimido para enxaqueca e as chaves de casa.

Lá foi Dandara, ansiosa por encontrar aquele homem, que acreditava,  já poder chamar de namorado afinal eram meses de encontros, cinemas, lanches, beijos e carinhos.

Assim que chegou, avistou Zaki com um copo na mão e um saco de papel na outra. Sorriu feliz, pois sabia que ele trazia no saco, como sempre, os guarda-chuvas de chocolate, mimo que adorava. 

Aproximou-se sorrindo o sorriso de uma mulher apaixonada. Encontrou o triste olhar de um homem triste. 

Zaki  largou o copo, puxando-a para perto de si, e assim, colados, permaneceram por um tempo que Dandara não saberia precisar. Em silêncio, de mãos dadas, caminharam para o jardim e lá entregou o saquinho com as prendas. 

Começou a coçar o nariz sem parar. Dandara sabia que estes comichões aconteciam quando Zaki estava nervoso e perguntou o que se passava enquanto pegava um daqueles deliciosos guarda-chuvas –  o amarelo para combinar com o seu vestido. Entretida em abrir o doce tentando não estragar o papel que iria para sua caixa de cartão, não percebeu o tremor nos lábios do seu amado que tentavam pronunciar algo.

– Desculpe – disse ele com um fio de voz – desculpe, mas vou casar semana que vem. 

Dandara não entendia o que escutava. O que Zaki falava? Casamento? Uma semana?

Muda, atônita, olhava para ele que murmurava coisas incompreensíveis para Dandara.

Viu Zaki afastando-se e a única coisa de que se lembra, é da sensação do guarda-chuva de chocolate  meio esmagado, meio derretido entre os seus dedos. 

Dos pertences levados na sua bolsa, apenas não usou  o batom. Os lenços foram providenciais tanto para as suas lágrimas quanto para a meleca que fizera com o chocolate. Os trocados garantiram a sua volta para casa de maneira digna, dentro de um táxi. E o comprimido para enxaqueca não poderia ter vindo em melhor hora, não fosse para aplacar a dor, fosse, pelo menos, para dar alguma sensação de conforto.

Soube, tempos depois, que o seu negro Zaki, casou com a alva Eugênia.  

Caboclo
Obra de Di Cavalcanti, “Samba”

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Previsões, quem acredita nelas?

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Dominique

Nasceu em 1964. Ela tem 55 anos, mas em alguns posts terá 50, 56, 48, 45. Sabe porque? Por que Dominique representa toda uma geração de mulheres. Ela existe para dar vida e voz às experiências, alegrias, dores, e desejos de quem até pouco tempo atrás era invisível. Mas NÓS estamos aqui e temos muito o que compartilhar. Acompanhe!

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