Fly2Me

Amor Escolhido Capítulo 5

Dominique não tem mais noção de tempo, se bem que isso parece ser um fenômeno mundial. É a programação da TV daquele dia que sinaliza ser Sábado. Resolve então ligar para os filhos com calma, sabendo que atrapalhará menos. Está com saudade. Muita. Passado o terremoto, o tempo do nada e para o nada começou a existir. São nesses momentos que afloram os sentimentos. 

Fala com cada um deles, sempre se esquivando de ligações com vídeo, como tem feito desde que saiu de casa. Diferentemente de todas as anteriores, essas eram conversas demoradas, pois queria saber da vida deles e detalhes dos últimos 2 meses. Meu Deus…Mais de 60 dias.

Quando se despede da filha mais velha, a última com quem falou, encolhe-se no sofá e assim fica por muito tempo. 

O dia seguinte amanhece ensolarado, o que por si só já faz um bem danado. Dominique acorda disposta e bem humorada, e isso anima Cassio. Difícil dizer o que ele desgosta nela, mas talvez o que mais ame seja seu sorriso e, principalmente, sua gargalhada. Adora ouvir a dissonante, porém sinceríssima, gargalhada de sua Nique. Quando era ele o responsável, sentia-se premiado.

Ela achou uma aulinha de aeróbica na Internet e cismou que precisavam fazer juntos. Afastaram o sofá e mesmo com as limitações que ainda se faziam presentes nele, tentou acompanhá-la. Almoçaram qualquer coisa na varanda e beberam 2 garrafas de vinho, afinal era domingo, se não estivessem enganados. De tarde, namoraram aproveitando o finalzinho daquela luz de outono e cochilaram sem remorsos.

Parecia um dia normal na vida de dois amantes. Divertiram-se muito dentro da toca. Porém não era um dia normal e já não eram mais amantes. Teoricamente.

E foi naquele entardecer, com Dominique em seus braços que Cassio falou:

‒ Nique, e agora?

‒ E agora o quê?

‒ E agora? Você casa comigo?

Ele não esperava por aquele silêncio. Depois de intermináveis e infinitos minutos, ela levanta e liga a TV.

 Cassio atônito fica esperando que ela mostre algo, mas não, ela apenas coloca no canal das notícias.

Não dá para saber se ela está escutando ou apenas olhando para o nada, mas não se move quando anunciam que o Brasil tem quase 16.000 mortes pelo COVID 19 e segue numa curva crescente. 

Também não se manifesta diante da notícia que a França parece ter superado o pior e no dia seguinte retomaria o dia a dia com os devidos cuidados.

‒ Desliga isso, Nique. DESLIGA ISSO! Eu te fiz uma pergunta.

‒ E eu não sei o que te responder.

‒ Como assim? Você se separou, não foi? Qual seria a outra resposta possível?

‒ Não sei. 

Mas ele sabia. Levantou-se pesaroso e foi para o quarto. Aquela noite Dominique não foi. Não conseguiu pregar os olhos, parecendo um zumbi de um lado para o outro.

Alta madrugada, já perto do amanhecer, Cassio sai do quarto. Olham-se com uma tristeza profunda. A tristeza do fim. Entenderam naquele momento que não ficariam juntos. 

Na semana seguinte, Cassio embarcou para Paris, seu país de origem. Resolveu que nada mais tinha a fazer no Brasil. Era melhor então que fosse para o país que estava mais longe do coronavírus para acabar sua recuperação. Se ficaria por lá quando tudo isso passasse, não sabia.

Dominique fechou o apartamento. Não aceitou de maneira alguma ficar lá. Ficaria apenas o tempo necessário até encontrar algo para alugar.

O tempo passa, a pandemia também, até mesmo no Brasil. Mesmo com todo esforço que o governo fez para que o COVID-19 ficasse por aqui, chegou a hora dela partir, e assim aconteceu.

Quando menos se esperava, dezembro chegou. De que ano? Bem, digamos que talvez não tenha sido tão rápido assim. Mas isso é detalhe.

Guilherme resolveu fazer o Natal com os filhos na casa dele para comemorar a chegada de mais um netinho. Ligou para Dominique. Falavam-se com uma certa frequência depois da separação.

Ela tentou manter os vínculos mesmo com toda a agressividade de Guilherme nos primeiros meses. Viram-se no aniversário dos filhos. Surpreenderam-se que nenhum deles estranhou quando contaram que tinham se separado durante a quarentena. Não deram muitos detalhes e, como sempre, não foram muito questionados.

As obras de Dominique foram retomadas junto com a vida, e foi isso que a manteve em pé durante aquela ressaca horrorosa.

O Natal foi divertidíssimo. Parece que a pandemia ensinou a turma a aproveitar a companhia e tentar tirar proveito de tudo aquilo de que haviam sido privados naquele tempo. O detalhe é que os Natais não têm mais presentes. Não daqueles que se compram.

Depois que todos foram embora, Dominique, naturalmente, foi para a cozinha arrumar as coisas – tudo pode mudar, mas a bagunça do pós Natal vai sempre ser a mesma. Ela e Guilherme conseguiram deixar tudo em ordem em menos de 2 horas, nem sentiram passar o tempo, pois comentavam cada lance daquela noite.

Quando Dominique pegava suas coisas para ir embora, Guilherme pediu a ela que ficasse. Ela ficou. Retomaram a vida de onde tinham parado naquele março de 2020. Houve maturidade suficiente para não transformar as feridas em cicatrizes.

O segundo netinho nasceu, o filho mais novo foi morar com a namorada e o outro se mudou para África do Sul por conta de uma proposta de trabalho. A Startup de Guilherme foi determinante para o encaminhamento das estratégias de saúde aqui e em outros países. No final da pandemia, foi vendida por uma cifra inimaginável. 

Estavam os dois no sofá, naquela noite fresca de primavera assistindo ao jornal. Olhando para o semblante tranquilo do marido, Dominique teve a certeza de que mais do que dinheiro, a venda da Startup trouxe-lhe a paz de espírito e devolveu-lhe a autoestima roubada, quando sua grande ideia do passado não passou de frustração e sofrimento para sua família. Ele se sentia reconhecido tantos anos depois, pensou Dominique, enquanto procurava, ironicamente, uma passagem aérea no site  Fly2Me.com, aquele que um dia tinha sido o sonho de Guilherme. 

Queria uma passagem para Paris onde visitaria uma exposição de materiais de construção no mês seguinte.

Eliane Cury Nahas
Eliane Cury Nahas

Economista, trabalha com tecnologia digital desde 2001. Descobriu o gosto pela escrita quando se viu Dominique. Na verdade Dominique obrigou Eliane a escrever. Hoje ela não sabe se a economista conseguirá ter minutos de sossego sem a contadora de histórias a atormentá-la.

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