Aconteceu

Insônia: Surfando por águas perigosas

O Lavabo e 2021

Bem, essa é a continuação do texto de ontem, 2021 e o Lavabo, onde conto como foi minha passagem de ano, onde em resumo, entre outras coisas, meu celular quebrou e clonaram meu cartão. Nossa! Olha só o meu poder de síntese consegui, em resumo, com meia dúzia de palavras reproduzir um textão que levei horas escrevendo. Olha ele aqui.

Na sexta feira, dia 8 de janeiro, já em São Paulo, acabei pegando um celular já que estava “sobrando” na firma do marido, um desses que as operadoras “dão” quando voc(ninguém dá nada pra ninguém. Doce ilusão).

Não posso reclamar, mas vou fazê-lo sim. Trocar de celular, na minha idade, é um saco!! Por mais que os apps já venham todos instaladinhos, tem um monte de coisas que precisa reconfigurar, milhares de senhas que eu não salvei em lugar nenhum e obviamente não lembro, e os aplicativos de banco nunca funcionam de primeira sendo que uma visitinha a agência sempre se faz necessária.

Por essas e outras que eu tinha decretado que do IPhone 7 pularia direto para o 14, fazendo valer a teoria dos setênios também para Steve Jobs. E estava indo muito bem já que tinha conseguido pular o 8, o 9, o 10, o 11, o 12 e até um X no meio do caminho. Para quem interessar possa, apesar de não ser de nenhum interesse, meu novo telefone é modelo 8 e está pra lá de bom!!

Enfim, sepultado o celular possuído pelo demo, assim como o assunto, mudemos para o próximo.

Vai ano, vem ano, e algumas coisas continuam as mesmas, não é mesmo? Quem tem o sono delicado, continua tendo o sono complicado, com ou sem pandemia, com ou sem perspectiva de vacina, na praia ou em São Paulo ou numa casinha de sapê como já dizia Kid Abelha.

E na própria sexta-feira, dia 8, já em Sampa, fui deitar lá pelas 23h, como sempre. Peguei no sono depois de um bom tempo, como sempre. Acordei antes da hora como sempre. O que teve de diferente nesse dia, foi que meus olhos abriram as 2 da matina e nada de conseguir dormir de novo. Vira prum lado, vira pro outro, e nada. Fritando na cama, com o tempo passando a passos de cágado, resolvi que iria para a sala com o intuito de não incomodar meu marido e quem sabe pegar no sono no sofá.

Liguei a TV. Procurei filme na Netflix. Fui até a cozinha. Abre e fecha geladeira diversas vezes, na esperança de que seu conteúdo pudesse mudar e quem sabe, eu encontrasse um pudim encantado em algum momento, contudo o que eu via era aquele desolador figo já meio passado, que insistia em me assombrar a cada tentativa.

Visito a janela para espiar meus vizinhos a fim de contabilizar quantas luzes acesas denunciam outras pessoas insones, ou quem sabe, apenas com medo de dormir no escuro.

Por falta do que fazer, resolvo fazer pipi. Não ousaria voltar para meu quarto e mais uma vez incomodar o coitado do homem, que dorme o sono dos justos. Por pura lógica de distâncias, dirijo-me ao lavabo, minúsculo e simpático ambiente de minha casa.

Nesse momento, devo fazer uma consideração técnica. Moro num edifício construído na década de 80, portanto com mais de 30 anos. Isso significa que algumas atualizações foram feitas, entretanto, outras são mais difíceis, mais trabalhosas ou mais onerosas, como, por exemplo, trocar aquele antigo e perdulário sistema de descarga pelo de caixa acoplada.

Preciso contar o que aconteceu?

Lavando as mãos, depois de dar a descarga, percebo que as águas continuam correndo. Não tinha nada entupido, pois era um movimento contínuo e incessante. Quem viveu isso sabe do que eu estou falando. Levantei a abinha da válvula, puxei, puxei, e nada. O que fazer? Parece óbvio, não é mesmo? Fechar o registro.

Mas que registro? Qual não foi minha surpresa ao descobrir que não há registro de água no lavabo de minha casa! Pânico! Continuei tentando fazer tudo que estava dentro de minhas possibilidades e de meus parcos conhecimentos hidráulicos.

Pânico!

Só me restava uma coisa a fazer. Sim, sim sim. Tinha que acordar o maridão no meio da madrugada, correndo todos os riscos previstos no manual dos casamentos longevos. Deixar rolar não era uma opção apesar de ter passado pela minha cabeça, confesso, ligar para uma Porto da vida ou até mesmo acordar o zelador. Todavia o bom senso venceu a covardia e lá fui eu.

Devagarinho, bem mansinha, ao pé da cama, fazendo carinho na perna do amado e sussurrando. Aliás, pelo meu tom de voz, algum desavisado poderia acreditar que eu estava tentando seduzi-lo, de tão baixinho e amoroso que estava.

-Amor, amor…Está tudo bem… Mas eu preciso de sua ajuda.

Pronto. Disparei a palavra de pânico. Ajuda, no meio da madrugada? Ele saltou da cama assutado perguntando o que tinha acontecido.

— Nada sério. Calma. Foi só a descarga do lavabo que disparou.

Eu cheguei a comentar com você que não acendi nenhuma luz para entrar no quarto? Não?

Pois bem, aquele homenzarrão, desperto no meio da noite pela esposa pedindo ajuda, sai no escuro em desabalada carreira rumo ao lavabo. Por completa falta de ideia minha, não previ o caminho que ele faria, e no escuro, encontrava-me eu justamente no meio dele.

Resultado? Fui atropelada impiedosamente, como se lá não estivesse, pelo meu marido. Por sorte ele não me viu caindo desajeitadamente sobre o pé de madeira da cama, porque não sei o seu marido, mas o meu é do tipo que fica bravo quando eu me machuco. Claro que não é por mal, mas ele me acha muito desastrada e desligada. Dessa vez não era o caso, entretanto, não deixava de ser minha culpa.

— Você está bem? – pergunta ele depois do ‘esbarrão’.

Não haveria dor, hematoma, machucado algum que me faria piar naquele momento.

— Claro que estou!

Problema resolvido em 5 minutos.

Ahhh, que orgulho de meu herói!

Maridão volta para cama, mudo, sem nenhum comentário, reclamação ou resmungo, que dessa vez, talvez, até pudessem ser pertinentes.

Resolvi voltar para a cama pra tentar não sujar mais minha barra e surpreendentemente, peguei no sono rapidamente dormindo até bem depois do amanhecer.

Moral da História que são várias.

  • Descobri que meu lavabo não tem registro. Até agora, não tive a curiosidade de saber onde seria o esconderijo desse meliante, mas talvez seja interessante saber, just in case. Vai que, né?
  • Preciso deixar alguma coisa muito gostosa escondida para comer nessas horas de desespero. Mas de que adianta eu conhecer o esconderijo? Provavelmente na hora da necessidade, nada mais lá encontraria. Oh vida cruel!
  • Concluo que a maioria das luzes acesas de meus vizinhos de prédio naquela madrugada, eram de pessoas que não gostam de dormir no escuro e não sofridos insones. O mundo e os casamentos não suportariam uma quantidade daquelas de gente acordada aprontando noite afora.
  • Meu marido sabe muito! De consertar a válvula do lavabo no meio da madrugada a saber quando não é preciso falar nada, não me fazendo sofrer mais do que o necessário. Ele sabe muito!

Eliane Cury Nahas
Eliane Cury Nahas

Economista, trabalha com tecnologia digital desde 2001. Descobriu o gosto pela escrita quando se viu Dominique. Na verdade Dominique obrigou Eliane a escrever. Hoje ela não sabe se a economista conseguirá ter minutos de sossego sem a contadora de histórias a atormentá-la.

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Feliz Ano Novo e meus pedidos pulando ondas para 2021

Feliz ano novo para você também!

Passei a virada no litoral como faço há 23 anos, na mesma casa, na mesma praia, com os mesmos amigos. Graças a Deus.

Mas dessa vez, algumas coisas foram diferentes como você deve imaginar.

  1. Não ficamos zanzando na casa dos vizinhos. Todo mundo ficou mais recolhido. Lembrei até de um antiquíssimo slogan de rádio “Cada um na sua e todos na Difusora”(quem lembrou, lembrou, sorry, não vou explicar) .
  2. As casas estavam cheias, porém, pareciam estar mais “calmas”, música mais baixa, luzes apagando mais cedo.
  3. Falando por mim, nunca estive tão introspectiva. Fiz tapeçaria e pintei aquarelas, muitas aquarelas, mas não se iluda, jamais verá aqui uma grande artista, aliás, sequer uma artista. Apenas dei vasão a necessidade de me concentrar em algo sem precisar pensar muito ou elaborar o que quer que seja.
  4. Ao pular as 7 ondinhas, tenho certeza que os pedidos desse ano, da grande maioria dos supersticiosos, foi diferente. Saúde em primeiro lugar? Muito possivelmente. Ânimo para continuar? Talvez em outras palavras, mas acho que deve ter tido muito pulinho por aí com essa intenção. Bom humor para não deixar a peteca cair? Também, seguindo a mesma linha do “ânimo para continuar”.

Bem, se esses não foram os pedidos da maioria, você acabou de saber parte dos meus. E sinceramente? Acho que os 7 mares e seus deuses me ouviram. Pelo menos nesse começo de ano. 

O que você acharia, se seu telefone, nos segundo dia do ano, começasse a enlouquecer, e fosse, gradativamente, perdendo seu touch, perdendo a sensibilidade? Eu tentava digitar um ‘e’ e saia um ‘w’. Do que me serve um W? Quem usa W a não ser Waldir, Wilma e Waldemar? Tentava abrir aplicativos, que teimavam em não obedecer. Via borbotões de mensagens de WhatsApp (facilmente substituível por ZAP na ausência do W) entrando sem conseguir lê-las. Amiga, você imagina a aflição de não conseguir atender ligações apesar de ouvir meu telefone tocando, de ver o nome de quem me ligava? O celular estava imprestável e não tinha muito o que fazer, uma vez que só poderia resolver a situação em São Paulo no dia 8 de janeiro, portanto seis ou sete dias ainda. Af, como sobreviver?

Contudo, e com a ajuda dos anjos marítimos, cumpri um de meus desejos. Vi o lado bom da situação e lidei com ela com bom humor. Qual é o lado bom? Acabei tendo que forçosamente me desconectar de tudo e de todos. Onde entra o bom humor? Algumas ligações até dava para atender, se conseguisse chegar dentro do carro a tempo de ligá-lo para acionar o aparelho a partir do painel de meu possante. Ahhh, fala verdade..Muito engraçado eu dentro do carro na garagem batendo papo…

A epopeia estava perto de acabar, pois, eu estava prestes a voltar para São Paulo, já colocando as coisas no carro para partir quando recebi uma mensagem, que por generosidade do destino, eu consegui ler naquele celular possuído pelo demo. A mensagem era sobre um gasto no meu cartão de crédito feito em Londres. Uhhuuuuu Meu cartão foi vacinado e foi passear nas Europa!!!..

Não. Nada disso. Meu cartão foi clonado na primeira semana do ano.

Fácil, dá tempo de cancelar se eu agir rapidamente. Só preciso ligar para a empresa de cartões. Só. Lembra do touch que não aceitava mais touch? Então…Dei um jeito. Peguei o aparelho do marido. Peguei, não. Arranquei dele. Um pouco mais de estresse, um pouco mais demorado, mas continuamos todos com saúde. E isso é o que importa. Ficar 15 dias sem cartão, sem compras on line, sem compras físicas de verdade, pode ser edificante, né? Não, não. É muito complicado, mas mostra como posso ser criativa na hora de gastar, porque mesmo sem cartão alcancei todos os meus objetivos, hehehehe.

Pronto! Olha só como comecei o ano bem!

Ih, menina, muita coisa ainda para contar, mas vou deixar para contar em outro texto porque esse aqui já está bem grande. Gente! Tudo isso e não tinha chegado nem no 10 dia do ano!!

Feliz 2021. Esse ano promete.

Leia também:

Branco ou colorido para o Ano Novo?

O que não pode faltar na minha lista de Ano Novo

Eliane Cury Nahas
Eliane Cury Nahas

Economista, trabalha com tecnologia digital desde 2001. Descobriu o gosto pela escrita quando se viu Dominique. Na verdade Dominique obrigou Eliane a escrever. Hoje ela não sabe se a economista conseguirá ter minutos de sossego sem a contadora de histórias a atormentá-la.

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Praia dos Ossos – O Podcast de um crime contra a mulher

Claudia Guimarães
“Uma mulher como ela não traz simpatia. As pessoas não gostam de uma mulher bonita demais, sedutora demais, livre demais” – Jacqueline Pitanguy

Só quem já acompanhava o noticiário entre os anos 70 e 80 deve se lembrar do que se refere o título desse podcast de oito episódios produzido pela Rádio Novelo.

Cada episódio é fruto de um incansável trabalho de pesquisa, realizado por Flora DeVeaux e Paula Scarpin, narrado e comentado de maneira envolvente por Branca Vianna e prende a atenção pela série de entrevistas, reportagens, reproduções de áudios originais e também por imagens publicadas no site da Rádio Novelo.

Dentro de uma casa situada na Praia dos Ossos, em Búzios – RJ, ocorreu um dos crimes que mais impactou a sociedade brasileira à época.
Na véspera do Réveillon de 1976, um homem pertencente a uma tradicional família paulista assassina sua jovem e bela namorada com quatro tiros a queima-roupa.

Além de narrar as circunstâncias que precederam o crime, Praia dos Ossos também apresenta um retrato da alta sociedade brasileira nas décadas de sessenta e setenta ao contar a história de vida de Ângela Maria Fernandes Diniz, a “Pantera de Minas” e ao abordar os principais aspectos do julgamento de seu assassino, Raul Fernando do Amaral Street, conhecido por Doca Street. O que lá se viu foi a vítima colocada no banco dos réus
e o seu assassino recebendo o apoio da opinião pública.

Ângela era uma mulher linda e sedutora, que não se intimidava – e, como disse Jacqueline Pitanguy no episódio 2 do podcast, “uma mulher como ela não traz simpatia…Então ameaça! Ameaça mulheres, ameaça homens”.
O processo acabou sofrendo reviravoltas graças à atuação de um grupo de ativistas da causa feminista, tornando-se um marco na história dos tribunais brasileiros.

Só o enredo acima já seria suficiente para atrair a curiosidade das Dominiques, mas Praia dos Ossos vai muito além. Cumpre a importantíssima função de relembrar esse assassinato brutal e outros da mesma natureza também cometidos nos anos setenta,
quando o agravante feminicídio ainda nem existia no Código Penal Brasileiro, e enriquece muito o debate sobre a punição aos crimes contra a mulher, que, infelizmente, continuam atingindo níveis de ocorrência assustadores.

A série completa de “Praia dos Ossos” está disponível no site
https://www.radionovelo.com.br/praiadosossos/ e em diversas plataformas de podcast (Spotify, Deezer, Apple Podcasts, entre outras).

Leia também: Amor Escolhido

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Dominique

Nasceu em 1964. Ela tem 55 anos, mas em alguns posts terá 50, 56, 48, 45. Sabe porque? Por que Dominique representa toda uma geração de mulheres. Ela existe para dar vida e voz às experiências, alegrias, dores, e desejos de quem até pouco tempo atrás era invisível. Mas NÓS estamos aqui e temos muito o que compartilhar. Acompanhe!

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Passei o Carnaval de 2020 no Brasil. Eu e o Corona.

Como ficar longe do Carnaval carioca?

Depois que você o conhece, não existe lugar no mundo que queria estar em fevereiro que não seja nos arredores da Sapucaí. Não, ninguém vive por 25 anos no Rio de Janeiro impunemente. Falei isso no texto anterior quando expliquei que voltei a morar em Portugal recentemente.

O plano perfeito: fugir do frio europeu dessa época do ano, aproveitar o verão brasileiro, ver os meus filhos, os meus amigos, os meus lugares prediletos, enfim, esganar a saudade até matá-la e ainda de quebra, pular o Carnaval de 2020. Obviamente para fazer tudo isso nada menos do que 30 dias, ou seja, fevereiro e ainda alguns dias de março.

Ter deixado o meu apezinho em Ipanema, ajuda muito a esticar as minhas temporadas em Terra Brasilis.

Lá fui eu no voo das 10h da manhã da minha querida TAP. Adoro voos diurnos. Assisto todos os filmes que estou atrasada, já que não durmo mesmo, e quando chego no destino ainda tenho a noite inteira para descansar. É colega, foi-se o tempo….

Bem, tudo lindo maravilhoso e como dizem, tudo de bom nesse país tropical abençoado por Deus.

Chegavam notícias de uma distante Itália tomada pelo COVID-19, mas no Brasil era tudo samba, choro e futebol.

Desfiles, blocos, bailes, trios elétricos. Teve de tudo. Lindo. Lindo. Águias de Ouro ganhou o desfile em São Paulo e Viradouro no Rio. Claro que eu estava na arquibancada sambando, pulando, nos 2 dias de desfile, na apuração quarta-feira torcendo para a Grande Rio (verde/vermelho, minha gente), assim como no desfile das campeãs no sábado seguinte. Quando digo que amo Carnaval, acredite!

E passou o Carnaval de 2020.

Menina, uns dias depois na semana seguinte, acordei toda dolorida. Culpei as minhas 5 décadas e tralalá e a vida mansa que andava a levar em Cascais. Tomei um relaxante muscular e fui para praia.

O Mate e o biscoito Globo não caíram bem. Bateu aquele enjoo chato, mas como ir embora justo agora que todo o mundo tinha chegado? Rio 40 Graus. Aguenta Barbara… Faça jus a seu nome!

Troquei o mate pelas caipirinhas e o enjoo foi melhorando. Ou a tontura aumentando. Sei lá.

Cheguei em casa me sentindo quente. Ahhhh não! Todos esses anos morando no Rio e vou ter febre de sol? Isso é coisa de principiante!

Descansei aquela tarde toda e fui tomar um choppinho com a turma ignorando o meu mal-estar.

Lá no boteco, soubemos do primeiro caso de COVID diagnosticado no Brasil, e coincidentemente no mesmo dia do primeiro em Portugal também. Estava tranquila em ambos os casos, pois foram em São Paulo e no Porto. So far away from Ipanema, right?

Voltei para o meu ap. e tive uma noite do cão. Minha febre voltou. Uma tosse chata e um mal-estar medonho.

Sim, inegavelmente eu estava com o tal COVID19, corona ou o raioqueoparta. Acontece que essa não era uma possibilidade para mim naquele instante, por não reconhecer os sintomas, já que por ser tudo muito recente, a divulgação de prevenção e dos cuidados ainda estava por acontecer. Eu simplesmente não tinha como saber. Quando liguei para o meu filho, alguns dias depois, já mal conseguia respirar.

Fui internada as pressas na UTI. Os protocolos eram inexistentes, até porque, infelizmente, fui a primeira pessoa no Rio a ser entubada, acredita?

Ninguém fuma por 30 anos impunemente e isso sem dúvida, deve ter contribuído para ter tido aquela pneumonia tão agressiva. A falta de ar e a sensação de asfixia são aterrorizantes assim como passar por tudo isso sozinha num leito de UTI. Mesmo sedada a maior parte do tempo sobrou medo e solidão. Os médicos e enfermeiros, apesar de atenciosos, não conseguiam esconder o medo quando se aproximavam. Era tudo muito novo, e ninguém esperava encontrar aquele vírus logo após o Carnaval de 2020.

Vou poupar-lhe dos detalhes desse horror, mas foram quase 20 dias de hospital. Para você ter uma ideia da luta que travei contra o vírus, perdi quase 8 quilos nesse tempo internada.

Sabe quando na minha vida consegui perder 5 quilos que fossem, em 20 dias? Nem no auge das minhas paixões e muito menos das desilusões.

Fato é que quase morri. Saí do hospital ainda precisando de cuidados e assim sendo, desmarquei o meu voo de volta que seria dia 15 de março.

Assim que eu desmarquei, Portugal entrou em estado de calamidade, ou seja, fechou as fronteiras e cancelou todos os voos.

Bem, o que não tem remédio, remediado está. No Brasil fui ficando, tratando de recuperar-me a esperar pelo momento de voltar.

O começo do confinamento foi muito conturbado por conta da minha doença e recuperação de maneira que só comecei a sentir o isolamento de fato, no final de abril.

Abril. Maio. Junho.

Chega, né? Tá bom! Queria voltar para Portugal, pois lá, no começo de junho, eles começaram a voltar ao normal. Fizeram por merecer e já estavam liberados e livres. Ou quase.

Enquanto isso, a coisa no Brasil só piorava.

A TV brasileira fazia questão de contar os seus mortos dentro da minha sala de estar. Muito triste. Essa mesma TV esfregava na minha cara a incompetência e mau-caratismo do ser humano. Desolador. Um enorme desencontro de informações e uma enorme aflição por conta de um total desgoverno.

Confesso que já estava a beirar a depressão, e também, não é para menos com tudo que já tinha passado até ali.

Então comecei a procurar ocupação. Fiz cursos, pães, novenas, lives, meetings, músicas, dei ordem em armário e o resto até que me dei conta da minha imunidade.

Se teve algo de bom nesse episódio todo, foi o fato de eu já estar imunizada. Realmente não sei se valeu o preço altíssimo que paguei, mas uma vez pago, ser livre para poder ir e vir e não sentir aquele medo que paralisa é catártico.

Comecei com caminhadas pelo calçadão e inscrevi-me para possíveis trabalhos voluntários em hospitais, os quais fui chamada para um ou dois apenas. Passei eu mesma a fazer as minhas compras no mercado com visitas diárias a padaria.

Foi aí que os telefonemas começaram. Muitas amigas, mas muitas mesmo, ligaram para avisar que esse vírus poderia ser contraído por mais de uma vez. Insistiam que nada garantia que eu estava imune.

Aquela preocupação em massa intrigou-me demais. Infelizmente, pior que isso, começou a incomodar, pois, sutilmente, passaram a me controlar.

Na-na-ni-na-não! Aqui não violão!

Percebi que tinha a turma da dor de cotovelo, e para essa um abraço!!

Mas tinha outro povo que estava tão apavorado, mas num grau tão grande de histeria que realmente acreditava contra todas as evidências, que eu deveria ficar em casa trancada, mesmo estando imune. A esses, perguntei quando, na opinião deles, estaríamos liberados. Silêncio.

Tenho cá para mim, minhas teorias a respeito, entretanto, todas polêmicas demais para esse Brasil polarizado, ainda mais se for eu, uma portuguesa, a dizê-las.

Foi aí que a TAP, a minha querida TAP confirmou o meu voo de volta para o dia 23 de junho. Ahhhh, que felicidade. Eu acho.

Finalmente o Carnaval de 2020 chegaria ao fim.

Arrumei as minhas coisas numa ansiedade infantil. Ameacei fazer um bota-fora só para colocar terror na mulherada, mas acabei por despedir-me por telefone mesmo só daqueles que tinha certeza não me alertariam para o risco de eu entrar num avião.

Continua…Vai ter outro texto só para contar como foi meu regresso. Ou você pensa que foi fácil?

Leia Também:

Por que Barbara Godinho decidiu voltar para a sua Terra Natal?

Barbara Godinho
Barbara Godinho

Sou uma Portuguesa meio tropicalizada. Moro em Lisboa, já fui curadora de museu e exposições. Hoje trabalho com turismo. Apaixonei-me pelo projeto Dominique e cá estou a colaborar.

1 Comentário
  1. Texto maravilhoso! Me identifiquei em gênero, número e grau. Também sou Covid Free! Não passei, graças a Deus, por suas agruras de internação, muito menos UTI. Mas posso imaginar seu sofrimento. Agora, quanto à cobrança, inspeção dos outros e a raiva em todoS quererem me cobrar o tal “fica em cada”, aff! Ninguém merece! Pelo nos não merecemos, né? Viva a imunidade! Fui, peguei e venci!!
    Beijo, Barbara e Passeie Bastante!

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Voltar a Minha Terra Natal

Faz tempo que não escrevo para Dominique. É capaz que nem lembre mais de mim, aquela portuguesa tropicalizada que casou com um brasileiro do Leblon.

Bem, como disse em outro texto que escrevi, por conta de um casamento de mais de 2 décadas, falo um português bem brasileiro além de outros detalhes.

Depois de 25 anos morando no Brasil, os filhos cresceram, o casamento acabou e não vi mais sentido em continuar longe da minha terra natal. Não necessariamente nessa ordem.

Resolvi voltar para Portugal, onde estavam parte da minha família e amigos de infância.

Claro que ao longo desses anos todos que morei no Brasil, visitei Portugal com uma certa frequência, não a desejada, mas a possível quando se está a criar filhos e fazendo a vida. Mesmo quando passávamos grandes temporadas, um mês ou mais, parecia ser apenas uma breve passagem. Pouco a pouco passei a ser turista no lugar em que nasci.

Não digo que foi fácil ficar tão longe dos meus por tanto tempo, mas também não foi uma tragédia, até porque eu que escolhi essa vida de expatriada, por assim dizer. Sendo que fui muito bem recebida pela família do meu ex, sem nunca esquecer que era família DELE e que no final das contas sangue sempre fala mais alto.

Fiz amigas e algumas super amigas de quem jamais me separarei mesmo com um oceano de distância, entretanto, reconheço, que mesmo com todas as mais modernas ferramentas de comunicação, o bom mesmo é o tête a tête sendo que alguns assuntos só mesmo se pudermos cochichar, sabe como é?

Entre os muitos motivos para meu regresso talvez o mais importante seja minha mãe, que, apesar da estupenda saúde, já passa dos 80 anos e não suportaria a dor que passei por estar longe quando o meu pai faleceu. Está na hora de ajudar os meus irmãos nesse sentido.

De mais a mais, parece que quando envelhecemos começamos a querer ficar perto de nossas lembranças mais longínquas para que elas não esmaeçam ou até mesmo desapareçam nas falhas de nossas memórias.

Como foi minha volta a minha terra natal? Mais difícil do que imaginei.

Bem, não é só desligar um botão e ligar outro.

Partidas são partidas e recomeços, geralmente, são edificantes, todavia, esse bom sentimento vai surgir apenas no final do processo, quando já conseguimos ver o tal “recomeço” com distanciamento histórico.

Para tentar sofrer menos, resolvi que não cortaria totalmente os vínculos com o Rio de Janeiro. Como se isso fosse possível para quem tem 2 filhos cariocas! Decidi manter um pequenino flat na cidade maravilhosa.

Procurei morada perto do conselho onde nasci e cresci. Agora, ninguém vive na Cidade Maravilhosa por 25 anos impunemente, de maneira que morar perto da orla, mais que um luxo, tornou-se uma necessidade. Assim sendo, mudei-me para Cascais, onde fui generosamente acolhida e não me arrependo uma vírgula da minha escolha.

Tal e qual, ninguém fica longe de Portugal por 25 anos impunemente. As diferenças culturais assimiladas por mim, se faziam notar a todo instante.

Só para ilustrar: nunca perdi o meu sotaque lusitano, sendo que em qualquer lugar que chegasse no Brasil, a primeira coisa que sempre ouvi foi a inevitável pergunta acompanhada de um simpático sorriso – É portuguesa? Ora pois! Sim, sou. Como adivinhou? – brincava eu de maneira coquete.

Agora pasme! No meu regresso a terra natal, qual não é meu espanto quando vejo que os meus conterrâneos julgam-me brasileira justamente pelo meu sotaque. Como assim? Exatamente!

No Brasil sou considerada portuguesa e em Portugal acreditam que sou brasileira. Como disse, esse é o preço a pagar por “abandonar” não um, mas dois países ao longo da minha vida.

Quando casei e finquei pé no Rio, uma das coisas que mais senti falta eram de referências.

As mulheres com quem lá convivi conheciam-se da vida toda, e faziam questão de mencionar o passado, aquele que justamente eu não fazia parte, a cada 5 minutos. O pediatra das crianças era o pediatra que outrora tinha sido delas. Chamavam as mães uma das outras de tia, apesar de não terem laços sanguíneos algum. Passaram férias juntas em Búzios, Angra e Cabo Frio. Morriam de rir ao relembrar o Circo Voador e os seus shows na década de 80. Sentia-me uma alienígena.

Com o tempo, construí as minhas próprias memórias, virei tia de amigos dos meus filhos e acabei por conhecer o Circo voador. Foram muitos bons momentos e outros nem tanto, aliás como a vida deve ser.

A minha adaptação ao meu velho novo mundo lusitano correu bem apesar de um pouco solitária no princípio, afinal a vida de todos e de tudo que eu conhecia não tinha parado por 25 anos a minha espera. Por fim, tudo deu certo, já estou climatizada e completamente inserida. Sinto-me pertencente novamente.

Como o meu trabalho é e sempre foi remoto, posso passar temporadas no Brasil quando a saudade aperta assim tenho a ilusão de ter sempre o melhor dos dois mundos.

Penso que sou uma pessoa muito feliz com essa vida que escolhi, pois, sofro para ir, e mais ainda para voltar. Isso só pode significar que sou muito feliz em ambas as minhas pátrias, na terra natal e na terra escolhida. Sou uma grande privilegiada.

Bem, a história que ia contar aqui era outra, mas acabei numa digressão sem fim e o meu último Carnaval no Brasil vai ficar para o próximo texto. Assim pelo menos comprometo-me a escrever semana que vem, tá?

Leia Também de Barbara Godinho:

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Barbara Godinho
Barbara Godinho

Sou uma Portuguesa meio tropicalizada. Moro em Lisboa, já fui curadora de museu e exposições. Hoje trabalho com turismo. Apaixonei-me pelo projeto Dominique e cá estou a colaborar.

2 Comentários
  1. Lindo texto! Comovente e realista! Parabéns! Ansiosa pelo próximo texto!

  2. Bom conhecer a sua história. Me dá um pouco de alento. Só que fiz o caminho inverso e resolvi vir envelhecer num lugar sobre o qual não tenho memórias. Estou a tentar construí-las. Assim, vou seguindo por cá.

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