Dominique

Coisas de Dominique é onde histórias de mulheres são contadas. Histórias de mulheres que realmente têm o que contar.
Eliane Cury Nahas por vezes transcreve, por vezes traduz coisas que Dominiques (aquelas mulheres com 50 ou mais anos de histórias) contam. Surpreendentemente você se identificará com muitas delas, afinal #SomostodasDominiques

Qual é seu preço? Caro é aquilo que não vale.

Não estava exatamente apaixonada. Interessada era a palavra que definia melhor o sentimento de Dominique por Cassio. Teve outros relacionamentos desde sua separação, 10 anos antes. Nenhum deles traumático, no entanto, alguns foram complicados o suficiente para lhe dar experiência e sabedoria no quesito . 

Cassio despertava em Dominique curiosidade e aquela vontade de encontrar mais uma vez. Era, sem dúvida, um homem interessante. Já passado dos 50, talvez bem próximo dos 60, estava física e mentalmente em forma. Não que fosse um Adonis, até porque nessa idade, raramente homens o são, mas era atraente e exalava masculinidade. Além disso, sua perspicácia aliada a seu bom humor, tornavam-no um papo divertido.

Em comum tinham a liberdade, tanto financeira quanto familiar, já que eram profissionais bem sucedidos, separados, com filhos criados e independentes.

Conheceram-se na casa de amigos um ano antes, e saiam com certa frequência, mas sem qualquer tipo de comprometimento. Iam a bares e restaurantes descolados, eventualmente a algum show ou exposição e invariavelmente terminavam na cama de um ou de outro. E era bom, muito bom.

Foi jantando naquele restaurante de cozinha contemporânea, daquele chef meio metido, já na segunda garrafa de vinho que surgiu o assunto.

— Todo mundo tem seu preço – falou Cassio.

— Até concordo, mas a que você se refere?

— A tudo. Refiro-me a absolutamente tudo. Seja na política, na empresa, vendendo segredos industriais, pessoais, ou o próprio corpinho, uma hora chegam no nosso valor. Pode ser que tenham pessoas que se vendam caro, mas no final é só chegar no número certo.

— Hummm – murmurou Dominique pensativa- Talvez, mas e quando dinheiro não é mais um atrativo? Você acha que Bill Gates teria um preço?

— Mas é claro! Sempre teve e continua tendo. Não se iluda com seus bilhões, muito menos com a fundação da Melinda. Obviamente não serão alguns pares de Dólares que o corromperão, se é que essa é a palavra, entretanto, sempre há algo que ele ainda deseje, ou que ele preze demais a ponto de não querer perder.

— A troco do que, então, Mr Gates aviltaria sua consciência?

— Querida Dominique, você já é bem grandinha para saber que o que move o mundo é dinheiro, poder e sexo, não necessariamente nessa ordem

Todo mundo tem seu preço – complementou Cassio de maneira enfática.

— Boa Cassio, então eu te pergunto o que te move nesse momento? E qual seria o seu preço?

–Ahh, não é dessa forma que se chega no valor de uma pessoa. Faça uma pergunta mais específica, porque senão é impossível até de devanear e mergulhar em meus íntimos desejos e pecados.

-Não sei se entendi. Como assim? Que tipo de pergunta, Cassio?

— Deixa eu pensar…. O melhor jeito de explicar é te fazer uma proposta. Mas não se ofenda, ok? Estamos em ambiente controlado, com teor alcoólico elevado e é só um exercício de retórica, quem sabe de luxúria.

— Querido, fique tranquilo, pois como bem sabe, sou mulher criada.

-Dominique, por quanto você toparia fazer sexo? Qual o valor em dinheiro, que te levaria a transar com alguém?

-Tipo aquele filme com a Demi More? Como se chama mesmo? Ah, Proposta Indecente?

-Mais ou menos, porque no caso, você não é casada e seus dilemas morais, se é que os tem, devem ser de outra ordem.

Dominique sorriu, e disse que precisaria refletir , pois de bate-pronto não conseguia pensar em nada.

A conversa seguiu animada, e a terceira garrafa de vinho foi apenas uma boa desculpa para grandes inconfidências e ousadias mútuas.

Já no cafézinho e no clima para o que viria, Cassio retomou o assunto.

-Vamos lá Dominique, sem pudores, me diga, por que valor entregaria esse corpinho lindo?

-Você o tem de graça. Sempre. Com muito prazer.

— Eu sei, eu sei..Ah Dominique, entra na onda. Digamos que você precise ajudar um filho, ou sei lá o que te motivaria.

Dominique ficou séria por uns instantes, pensativa, e logo sorriu.

— Cem mil, Cassio. 1 zero zero zero zero zero.

— Fechado. Eu pago seu preço.

Dominique sorriu olhando fixamente nos olhos de Cassio, e quando percebeu que ele se mantinha sério, aguardando uma resposta, estourou na gargalhada.

— Não estou brincando Dominique, quero você e pagarei por isso.

— Como faço para levar uma coisa dessas a sério? Não quero seu dinheiro, não preciso dele

— Algo a motivou quando fez seu valor. Pense nisso, entre no personagem. Vamos experimentar algo diferente ma cherie.

Depois de alguns segundos de hesitação, Dominique estendeu a mão para Cassio dizendo:

— Negócio fechado. Temos um acordo. Escolha dia, lugar e eu estarei lá, pronta para servi-lo e para satisfazer seus desejos, mas já aviso que só aceito meu dinheiro em cash.

— Sem problema, você o terá em notas conforme deseja, por isso, faça por merecer seu pagamento. Não espero nada menos do que seu melhor como profissional para essa noite.

— Quando?

— Semana que vem, quarta-feira, 18h30, no meu escritório.

— No seu escritório, Cassio? No nosso acordo estava incluído plateia?

— Isso é problema meu Dominique. Preocupe se com sua parte.

Naquela noite, Dominique disse que não iria para casa dele. Pediu para que a deixasse em casa despedindo-se com um singelo beijinho no rosto e diante de toda estranheza de Cassio disse.

-Mon Cher, se transarmos agora, podemos tirar o brilho ou até mesmo o suspense de quarta-feria. Até lá, não nos falaremos.

Despediram-se rapidamente para não correr o risco de caírem em tentação

Nos cinco dias que se seguiram, ambos trataram dos detalhes do negócio a fim de que nenhum pormenor fosse esquecido.

Dominique dedicou um tempo enorme para se preparar até porque não conseguia pensar em outra coisa. O que usaria? Não queria ser um clichê, no entanto, tinha que surpreender Cassio e principalmente excitá-lo, sabendo que uma coisa era decorrente da outra. A meia arrastão, a pinta no rosto, coisas assim estavam fora de questão apesar de não ter nada contra. Precisava de algo que também a estimulasse.

Foi em sua meditação matinal que teve o clique de como montaria seu personagem.

Pensou em todos os detalhes, nos mínimos. Agendou cabelo e maquiagem naquele salão TOP. Não poupou dinheiro, tempo ou capricho, afinal era inegável que Dominique estava deslumbrada e excitadíssima com a ideia de alguém pagar aquela montanha de dinheiro para passar uma noite com ela. Lisonjeiro! Sabia que se contasse, a maioria das pessoas julgaria e provavelmente no mal sentido, todavia ela não estava disposta a explicar, muito menos justificar suas atitudes. De mais a mais, esse era um assunto privadíssimo apesar de muito divertido. No fundo, talvez, Dominique dividisse com Valentina, sua amiga mais aberta a novas experiências. Pensaria nisso depois…

Arrumou sua vasta cabeleira num penteado cheio de ondas. A maquiagem foi um pouquinho mais carregada do que aquela natural do tipo “acordei assim, nasci desse jeito”, mas antes, dedicou-se a uma sessão de massagem, para além de hidratar, relaxar e deixar os pensamentos fluirem.

Sua roupa estava toda separada, esperando-a para completar sua fantasia. Vestiu-se e perfumou-se com cuidado, pois não há nada pior do que excesso de cheiro, mesmo sendo esse, dos melhores franceses. Sua única hesitação foi na hora de escolher a bolsa para compor o visual. Sorriu ao pensar que não fazia ideia do volume de notas de seu “pagamento”, mas tinha a certeza que não caberiam em sua clutch habillé.

Estava orgulhosa. Será que orgulhosa era a palavra? Que sentimento era aquele? De regojizo? Prazer? A autoestima altamente enaltecida por saber que lhe desejavam tanto a ponto de pagarem uma pequena fortuna.

O fato de não precisar do dinheiro, ao invés de lhe trazer dilemas morais, trouxe muita tranquilidade para executar essa fantasia que não era só do Cassio, obviamente, mas sua também.

Pronta, deu uma última olhada no espelho, pegou a chave do carro, chamou o elevador e torceu para encontrar com algum vizinho a fim de testar o resultado final.

Chegou na porta do prédio de Cassio, 10 minutos antes do marcado, e esperou no carro que se passassem os 10 e mais cinco.

Apresentou-se na portaria com seu nome real, afinal não havia porque mentir, e ficou muito feliz ao ver cabeças virando por onde passava. Talvez não fosse comum, mulheres irem a um edifício comercial daquele jeito, naqueles trajes, mas naquela altura do campeonato, seu ego não acreditava em outra coisa que não fosse a admiração por sua beleza e charme.

Quando a porta do elevador abriu, Cassio a esperava do lado de fora.

Dominique viu toda a surpresa nos olhos do “cliente”. Cassio poderia ter esperado por tudo, mas jamais por Dominique vestida com seu chiquetérrimo vestido longo de festas preto. Era uma daquelas roupas definitivas, que compramos uma vez na vida, sabe? Super bem cortada, realçava as curvas de Dominique sem entregá-las assim como a ousada fenda lateral fazia com sua perna bem torneada. O decote exibia um colo bronzeado e suas charmosas sardas, coisas de gente que tomou muito sol na juventude. Um colar de pedras da cor azul-turquesa realçavam a beleza de seu tom de pele. O toque final Dominique deixou para a sandália de tirinha de saltos altíssimos e mega sexy.

Cassio deu passagem e não escondeu sua expressão de apreciação.

-Uau, Ma Cherie, você está um arraso. Muito chique. Um tesão.

Dominique sorriu enquanto analisava lentamente o ambiente. Um balde de gelo com uma garrafa de champagne transpiravam ao lado de taças de cristal e de uma bandeja de petit fours. Ah, Cassio sabia o que era bom.

Nunca esteve lá antes, e estava admirada com a sofisticação e o nível de detalhes do lugar.

Grandes plantas verdes davam volume para cantos e vasos com orquídeas brancas espalhados por pontos estratégicos, conferiam textura e contrastes.

A iluminação não era a típica luz branca fria de escritório, pelo menos não as poucas que estavam acesas e que davam um tom ambar aos móveis super modernos e de design daquele ambiente.

Dominique girou sobre si mesma naquele salto finíssimo e altíssimo e parou de frente a Cassio que agora estava a centímetros dela.

— Somos só nós dois? Onde estão todos? O que você fez com o pessoal que ocupa todas essas mesas?

— Eu te falei, Dominique, que disso cuidaria eu, e decerto cuidei. Hoje foi dia de home office depois do almoço. Ou não. Todos dispensados.

— Eles não quiseram saber o porquê? Não ficaram curiosos?

— Sim, ficaram, e é por isso que é bom ser o chefe vez por outra, e não precisar dar satisfação. Amanhã as fofocas correrão soltas, mas e daí? O que importa é que você está aqui, e está uma delícia.

Cassio abriu o champagne e serviu uma taça para Dominique pegando suavemente em sua mão.

Viraram cadeiras das mesas próximas e sentaram-se frente a frente. Dominique cruzou as pernas, deixando por cima, justamente a perna cuja fenda do vestido exibia gloriosamente.

Guilherme sorriu e perguntou.

— Por onde começamos? Você preparou alguma surpresinha para mim?

— Sim, muitas, pois você sabe que não brinco em serviço e justamente por isso, começaremos pelo meu pagamento. Negócios negócios…

— Sim, Dominique, você tem toda razão – disse guilherme levantando-se.

Caminhou até um armário, destrancou-o e de dentro pegou uma caixa grande, prateada, que parecia estar pesada.

Então esse é o volume que daquele dinheiro todo, pensou Dominique.

— Aqui está Ma Cherie. U$ 100.000,00

— Cem mil Dólares??????? – Gritou Dominique

— Não combinamos a moeda naquela noite, lembra? Você falou apenas 100.000, então me vi no direito de escolher a moeda, e para você, nada menos do que dólares minha querida.

Dominique pousou a pesada caixa na mesa ao seu lado e abriu a tampa. Seu sorriso esmaeceu.

-Cassio, o que é isso? Que dinheiro é esse? – Perguntou ela segurando um punhado de notas coloridas que poderiam ser tudo, mas jamais dólares.

— São 100.000 dólares liberianos. Como falei, não chegamos a combinar a moeda.

— Que brincadeira é essa? – disse ela se afastando- Quanto vale isso?

-Ma cherie, de que importa o valor? você não mprecisa, e estamos brincando.

-Não! Não! Quanto vale isso???

-Algo em torno de 200 dólares americanos. Você não tem ideia do trabalho que me deu achar dólares liberianos – Disse Cassio estourando na gargalhada.

Faltava o ar para Dominique.

Ela se afastava da caixa como se nela estivesse contido o mais tenebroso dos insultos. Olhou profunda e agressivamente para Cassio e disparou:

— Como pode você ser tão insensível? Como pode você ser tão estúpido? Quer dizer que eu não valho R$100.00,00? Eu não valho mais do que U$200,00? O que te levou a pensar que esse seria o meu valor, o meu preço?

-Ahhh, Dominique, sério que você achou que eu pagaria R$ 100.000,00 para uma transa com você?

No mesmo momento que falou, arrependeu-se mortalmente, entretanto já era tarde e tentou corrigir.

— Tudo isso não passa de uma brincadeira, transamos de graça, você não precisa desse dinheiro, e eu quis apenas dar um toque de humor a isso tudo.

— Que você me pagasse com notas do Banco Imobiliário, Cassio, mas jamais com um a moeda desvalorizada atribuindo-me assim um valor desmerecedor. O que você fez foi aviltante! Não, não preciso do dinheiro, nem você! Entretanto achei estarmos em um jogo de sedução, jamais imaginaria uma canalhice dessas. O que você pretendia? Me submeter? Me humilhar? Mostrar quão pouco eu valho perto de você? Ahhh Darling, sinto muito. Nada disso.

Cassio parecia, de fato, estar surpreso e confuso com a reação de Dominique sem saber como lidar com a situação.

Dominique pega sua clutch, e sai em direção a porta apressada, segurando o choro.

Cassio segura-a pelo braço.

-Não saia assim, fique para conversarmos.

Dominique olhou para ele com cara de nojo, desvencilhou-se num arranco, abrindo a porta para sair quase que correndo.

-Você veio de carro? Espera que eu te levo. Deixa eu pegar as chaves.

Dominique, apertava freneticamente o botão do elevador como se apertar mais de uma vez fosse acelerar a velocidade de sua chegada.

— Não precisa Cassio. Toda puta que se presa tem sua própria condução.

Finalmente quando o elevador chegou, ela entrou fazendo um sinal para que Cassio não a acompanhasse e antes que a porta se fechasse Dominique falou:

— Só volte a me procurar quando tiver U$100.000,00. Em dinheiro e a vista. Adeus.

XXXXXXXXX

Leia também : Recomeços aos 50 anos existem?

Eliane Cury Nahas

Economista, trabalha com tecnologia digital desde 2001. Descobriu o gosto pela escrita quando se viu Dominique. Na verdade Dominique obrigou Eliane a escrever. Hoje ela não sabe se a economista conseguirá ter minutos de sossego sem a contadora de histórias a atormentá-la.

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  1. Oi Eliane como vai é o Nelson Assad ou Neca meu apelido no Clube Monte Líbano, como vc está vejo acompanho sua empresa e depois de alguns anos , depois de Eu ter tido a oportunidade de administrar os bens da sua vovó mãe da sua mãe, da sua mãe tia Lily dos seus tios , agora estou retornando na empresa da família a Construtora Cury como Gestor é uma imensa honra novamente em fases diferentes da vida mais retornando com muito prazer , pensei que fosse vê la nos meeting algumas vezes fiquei com o Fábio relembrando bons momentos de carnavais em Salvador nós todos do clube íamos e fomos durante 22 anos kkk bons momentos espero que esteja bem e sua família e sua mãe também gostei e gosto muito de vcs por isso estou aqui , alias escrevendo lembrei me quando fomos no hipopótamos kk bons tempos Obrigado fiquem com Deus e Bjos meu WhatsApp 11938019570

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8 em Istambul, Ethos ou Bir Başkadır

Mini-série Turca espetacular no Netflix.

8 em Istambul, é o nome dado no Brasil, Ethos em inglês e em Portugal, e Bir Başkadır no próprio idioma turco.

O título dado para o Brasil, refere-se aos 8 personagens envolvidos na série, porém confesso que demorei muito tempo até fazer essa ligação.

Ethos, palavra grega que significa o modo de ser, o caráter e originou a palavra ética. Esse título, já traz bem mais complexidade, o Ethos religioso que é o “caráter moral”, é usado para descrever o conjunto de hábitos ou crenças que definem uma comunidade ou nação.

O tradutor já foi bem menos preguiçoso aqui do que no nosso querido Brasil.

Digo isso, porque depois de assistir a mini-série, fui pesquisar a tradução do título em turco para o português, e descobri, se não me falham as fontes, que Bir Başkadır é um dito popular que significa que algo ou alguém é único, não havendo no mundo nada comparável – sempre com sentido positivo. Sem dúvida, esse é o melhor título para essa obra que fala de 8 vidas únicas, com realidades e mentalidades diferentes apesar de serem todas de uma mesma etnia: a turca.

O primeiro episódio começa com Meryem, uma jovem toda coberta de acordo com os costumes da religião muçulmana, no consultório de uma moderna a até um tanto pedante psiquiatra que atende um hospital público. A jovem foi direcionada para tratamento com a Dra Peri, pois nenhum problema clínico justificou seus desmaios repentinos

Meryem, com apenas seu lindo rostinho a mostra, é uma expressiva e inteligente jovem de pouca instrução, religiosa. Mora na área rural e periférica de Istambul, na casa com seu irmão mais velho que é super autoritário. Moram junto, os sobrinhos e a cunhada que vive uma perigosa depressão.

A série traz em seu subtexto grandes reflexões sobre preconceitos de toda sorte, machismo estrutural, polarização de uma sociedade que vive em extremos. Interessantíssimo seja para turcos, seja para brasileiros.

Apesar da trama se mover lentamente e a cinematografia lembrar um filme de arte, está longe de ser uma série chata ou enfadonha. Talvez não seja daquelas que maratonamos, até porque tenho certeza, você vai parar para refletir entre um episódio e outro.  

As questões psicológicas permeiam todos os personagens com amarrações muito interessante.

Talvez seja a humanidade e a empatia palpável com que Ethos (obviamente, prefiro esse título a 8 em Istambul) trata seus personagens que fizeram da série um fenômeno. Em um momento de intensa polarização social e desconfiança mútua em muitos eixos da nossa sociedade, a série imagina um modo diferente de vivermos juntos. É como se o Ethos nos colocasse a todos no consultório do terapeuta.

Vale a pena conferir, e insista ainda que no começo ache muito devagar.

Leia também:

Borgen – A série que ajuda a entender como se faz a boa política.

8 em Istambul tem em comum com a série dinamarquesa Borgen , o protagonismo feminino, a política mais ou menos explícita e muitos conflitos pessoais. Ahhh, Tem mais uma! Não conseguimos entender uma única palavra nem de uma, nem de outra série já que ambas estão com o som original.

Eliane Cury Nahas

Economista, trabalha com tecnologia digital desde 2001. Descobriu o gosto pela escrita quando se viu Dominique. Na verdade Dominique obrigou Eliane a escrever. Hoje ela não sabe se a economista conseguirá ter minutos de sossego sem a contadora de histórias a atormentá-la.

3 Comentários
  1. Achei uma pena a série não ter tido uma segunda temporada. Faz resenha da série A Atriz, está disponível na Star Plus, por favor????
  2. Oi Dominique, só queria esclarecer que na maioria das vezes não é o tradutor que escolhe os títulos dos livros e das séries, essa é sempre uma escolha comercial, para algo que chame mais a atenção e que “VENDA” mais. Por exemplo, o que vende mais “O som da música” ou “A noviça rebelde”?O primeiro titulo seria a tradução mais literal do filme “The sound of music”… Enfim, só queria dizer mesmo que “preguiçoso” não seria a melhor forma de descrever o tradutor, que nessa horas é meio que impotente. Abraço…

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Insônia: Surfando por águas perigosas

O Lavabo e 2021

Bem, essa é a continuação do texto de ontem, 2021 e o Lavabo, onde conto como foi minha passagem de ano, onde em resumo, entre outras coisas, meu celular quebrou e clonaram meu cartão. Nossa! Olha só o meu poder de síntese consegui, em resumo, com meia dúzia de palavras reproduzir um textão que levei horas escrevendo. Olha ele aqui.

Na sexta feira, dia 8 de janeiro, já em São Paulo, acabei pegando um celular já que estava “sobrando” na firma do marido, um desses que as operadoras “dão” quando voc(ninguém dá nada pra ninguém. Doce ilusão).

Não posso reclamar, mas vou fazê-lo sim. Trocar de celular, na minha idade, é um saco!! Por mais que os apps já venham todos instaladinhos, tem um monte de coisas que precisa reconfigurar, milhares de senhas que eu não salvei em lugar nenhum e obviamente não lembro, e os aplicativos de banco nunca funcionam de primeira sendo que uma visitinha a agência sempre se faz necessária.

Por essas e outras que eu tinha decretado que do IPhone 7 pularia direto para o 14, fazendo valer a teoria dos setênios também para Steve Jobs. E estava indo muito bem já que tinha conseguido pular o 8, o 9, o 10, o 11, o 12 e até um X no meio do caminho. Para quem interessar possa, apesar de não ser de nenhum interesse, meu novo telefone é modelo 8 e está pra lá de bom!!

Enfim, sepultado o celular possuído pelo demo, assim como o assunto, mudemos para o próximo.

Vai ano, vem ano, e algumas coisas continuam as mesmas, não é mesmo? Quem tem o sono delicado, continua tendo o sono complicado, com ou sem pandemia, com ou sem perspectiva de vacina, na praia ou em São Paulo ou numa casinha de sapê como já dizia Kid Abelha.

E na própria sexta-feira, dia 8, já em Sampa, fui deitar lá pelas 23h, como sempre. Peguei no sono depois de um bom tempo, como sempre. Acordei antes da hora como sempre. O que teve de diferente nesse dia, foi que meus olhos abriram as 2 da matina e nada de conseguir dormir de novo. Vira prum lado, vira pro outro, e nada. Fritando na cama, com o tempo passando a passos de cágado, resolvi que iria para a sala com o intuito de não incomodar meu marido e quem sabe pegar no sono no sofá.

Liguei a TV. Procurei filme na Netflix. Fui até a cozinha. Abre e fecha geladeira diversas vezes, na esperança de que seu conteúdo pudesse mudar e quem sabe, eu encontrasse um pudim encantado em algum momento, contudo o que eu via era aquele desolador figo já meio passado, que insistia em me assombrar a cada tentativa.

Visito a janela para espiar meus vizinhos a fim de contabilizar quantas luzes acesas denunciam outras pessoas insones, ou quem sabe, apenas com medo de dormir no escuro.

Por falta do que fazer, resolvo fazer pipi. Não ousaria voltar para meu quarto e mais uma vez incomodar o coitado do homem, que dorme o sono dos justos. Por pura lógica de distâncias, dirijo-me ao lavabo, minúsculo e simpático ambiente de minha casa.

Nesse momento, devo fazer uma consideração técnica. Moro num edifício construído na década de 80, portanto com mais de 30 anos. Isso significa que algumas atualizações foram feitas, entretanto, outras são mais difíceis, mais trabalhosas ou mais onerosas, como, por exemplo, trocar aquele antigo e perdulário sistema de descarga pelo de caixa acoplada.

Preciso contar o que aconteceu?

Lavando as mãos, depois de dar a descarga, percebo que as águas continuam correndo. Não tinha nada entupido, pois era um movimento contínuo e incessante. Quem viveu isso sabe do que eu estou falando. Levantei a abinha da válvula, puxei, puxei, e nada. O que fazer? Parece óbvio, não é mesmo? Fechar o registro.

Mas que registro? Qual não foi minha surpresa ao descobrir que não há registro de água no lavabo de minha casa! Pânico! Continuei tentando fazer tudo que estava dentro de minhas possibilidades e de meus parcos conhecimentos hidráulicos.

Pânico!

Só me restava uma coisa a fazer. Sim, sim sim. Tinha que acordar o maridão no meio da madrugada, correndo todos os riscos previstos no manual dos casamentos longevos. Deixar rolar não era uma opção apesar de ter passado pela minha cabeça, confesso, ligar para uma Porto da vida ou até mesmo acordar o zelador. Todavia o bom senso venceu a covardia e lá fui eu.

Devagarinho, bem mansinha, ao pé da cama, fazendo carinho na perna do amado e sussurrando. Aliás, pelo meu tom de voz, algum desavisado poderia acreditar que eu estava tentando seduzi-lo, de tão baixinho e amoroso que estava.

-Amor, amor…Está tudo bem… Mas eu preciso de sua ajuda.

Pronto. Disparei a palavra de pânico. Ajuda, no meio da madrugada? Ele saltou da cama assutado perguntando o que tinha acontecido.

— Nada sério. Calma. Foi só a descarga do lavabo que disparou.

Eu cheguei a comentar com você que não acendi nenhuma luz para entrar no quarto? Não?

Pois bem, aquele homenzarrão, desperto no meio da noite pela esposa pedindo ajuda, sai no escuro em desabalada carreira rumo ao lavabo. Por completa falta de ideia minha, não previ o caminho que ele faria, e no escuro, encontrava-me eu justamente no meio dele.

Resultado? Fui atropelada impiedosamente, como se lá não estivesse, pelo meu marido. Por sorte ele não me viu caindo desajeitadamente sobre o pé de madeira da cama, porque não sei o seu marido, mas o meu é do tipo que fica bravo quando eu me machuco. Claro que não é por mal, mas ele me acha muito desastrada e desligada. Dessa vez não era o caso, entretanto, não deixava de ser minha culpa.

— Você está bem? – pergunta ele depois do ‘esbarrão’.

Não haveria dor, hematoma, machucado algum que me faria piar naquele momento.

— Claro que estou!

Problema resolvido em 5 minutos.

Ahhh, que orgulho de meu herói!

Maridão volta para cama, mudo, sem nenhum comentário, reclamação ou resmungo, que dessa vez, talvez, até pudessem ser pertinentes.

Resolvi voltar para a cama pra tentar não sujar mais minha barra e surpreendentemente, peguei no sono rapidamente dormindo até bem depois do amanhecer.

Moral da História que são várias.

  • Descobri que meu lavabo não tem registro. Até agora, não tive a curiosidade de saber onde seria o esconderijo desse meliante, mas talvez seja interessante saber, just in case. Vai que, né?
  • Preciso deixar alguma coisa muito gostosa escondida para comer nessas horas de desespero. Mas de que adianta eu conhecer o esconderijo? Provavelmente na hora da necessidade, nada mais lá encontraria. Oh vida cruel!
  • Concluo que a maioria das luzes acesas de meus vizinhos de prédio naquela madrugada, eram de pessoas que não gostam de dormir no escuro e não sofridos insones. O mundo e os casamentos não suportariam uma quantidade daquelas de gente acordada aprontando noite afora.
  • Meu marido sabe muito! De consertar a válvula do lavabo no meio da madrugada a saber quando não é preciso falar nada, não me fazendo sofrer mais do que o necessário. Ele sabe muito!

Eliane Cury Nahas

Economista, trabalha com tecnologia digital desde 2001. Descobriu o gosto pela escrita quando se viu Dominique. Na verdade Dominique obrigou Eliane a escrever. Hoje ela não sabe se a economista conseguirá ter minutos de sossego sem a contadora de histórias a atormentá-la.

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Feliz Ano Novo e meus pedidos pulando ondas para 2021

Feliz ano novo para você também!

Passei a virada no litoral como faço há 23 anos, na mesma casa, na mesma praia, com os mesmos amigos. Graças a Deus.

Mas dessa vez, algumas coisas foram diferentes como você deve imaginar.

  1. Não ficamos zanzando na casa dos vizinhos. Todo mundo ficou mais recolhido. Lembrei até de um antiquíssimo slogan de rádio “Cada um na sua e todos na Difusora”(quem lembrou, lembrou, sorry, não vou explicar) .
  2. As casas estavam cheias, porém, pareciam estar mais “calmas”, música mais baixa, luzes apagando mais cedo.
  3. Falando por mim, nunca estive tão introspectiva. Fiz tapeçaria e pintei aquarelas, muitas aquarelas, mas não se iluda, jamais verá aqui uma grande artista, aliás, sequer uma artista. Apenas dei vasão a necessidade de me concentrar em algo sem precisar pensar muito ou elaborar o que quer que seja.
  4. Ao pular as 7 ondinhas, tenho certeza que os pedidos desse ano, da grande maioria dos supersticiosos, foi diferente. Saúde em primeiro lugar? Muito possivelmente. Ânimo para continuar? Talvez em outras palavras, mas acho que deve ter tido muito pulinho por aí com essa intenção. Bom humor para não deixar a peteca cair? Também, seguindo a mesma linha do “ânimo para continuar”.

Bem, se esses não foram os pedidos da maioria, você acabou de saber parte dos meus. E sinceramente? Acho que os 7 mares e seus deuses me ouviram. Pelo menos nesse começo de ano. 

O que você acharia, se seu telefone, nos segundo dia do ano, começasse a enlouquecer, e fosse, gradativamente, perdendo seu touch, perdendo a sensibilidade? Eu tentava digitar um ‘e’ e saia um ‘w’. Do que me serve um W? Quem usa W a não ser Waldir, Wilma e Waldemar? Tentava abrir aplicativos, que teimavam em não obedecer. Via borbotões de mensagens de WhatsApp (facilmente substituível por ZAP na ausência do W) entrando sem conseguir lê-las. Amiga, você imagina a aflição de não conseguir atender ligações apesar de ouvir meu telefone tocando, de ver o nome de quem me ligava? O celular estava imprestável e não tinha muito o que fazer, uma vez que só poderia resolver a situação em São Paulo no dia 8 de janeiro, portanto seis ou sete dias ainda. Af, como sobreviver?

Contudo, e com a ajuda dos anjos marítimos, cumpri um de meus desejos. Vi o lado bom da situação e lidei com ela com bom humor. Qual é o lado bom? Acabei tendo que forçosamente me desconectar de tudo e de todos. Onde entra o bom humor? Algumas ligações até dava para atender, se conseguisse chegar dentro do carro a tempo de ligá-lo para acionar o aparelho a partir do painel de meu possante. Ahhh, fala verdade..Muito engraçado eu dentro do carro na garagem batendo papo…

A epopeia estava perto de acabar, pois, eu estava prestes a voltar para São Paulo, já colocando as coisas no carro para partir quando recebi uma mensagem, que por generosidade do destino, eu consegui ler naquele celular possuído pelo demo. A mensagem era sobre um gasto no meu cartão de crédito feito em Londres. Uhhuuuuu Meu cartão foi vacinado e foi passear nas Europa!!!..

Não. Nada disso. Meu cartão foi clonado na primeira semana do ano.

Fácil, dá tempo de cancelar se eu agir rapidamente. Só preciso ligar para a empresa de cartões. Só. Lembra do touch que não aceitava mais touch? Então…Dei um jeito. Peguei o aparelho do marido. Peguei, não. Arranquei dele. Um pouco mais de estresse, um pouco mais demorado, mas continuamos todos com saúde. E isso é o que importa. Ficar 15 dias sem cartão, sem compras on line, sem compras físicas de verdade, pode ser edificante, né? Não, não. É muito complicado, mas mostra como posso ser criativa na hora de gastar, porque mesmo sem cartão alcancei todos os meus objetivos, hehehehe.

Pronto! Olha só como comecei o ano bem!

Ih, menina, muita coisa ainda para contar, mas vou deixar para contar em outro texto porque esse aqui já está bem grande. Gente! Tudo isso e não tinha chegado nem no 10 dia do ano!!

Feliz 2021. Esse ano promete.

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Eliane Cury Nahas

Economista, trabalha com tecnologia digital desde 2001. Descobriu o gosto pela escrita quando se viu Dominique. Na verdade Dominique obrigou Eliane a escrever. Hoje ela não sabe se a economista conseguirá ter minutos de sossego sem a contadora de histórias a atormentá-la.

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Festa do Cablo, a Festa do Caboclo triste.

Já perdera a conta  quantas vezes tentou jogar no lixo o conteúdo daquela caixa de cartão. Lá no seu íntimo, Dandara achava que, talvez, desfazendo-se das lembranças, conseguiria também apagar as dores. 

Entretanto, ao invés de queimar aquelas assombrações, mais uma vez, abriu a caixa, e oxigenou o fogo que alimentava os seus fantasmas. 

Segurou o desbotado papel amarelo do parolo guarda-chuva de chocolate que ganhou naquela noite na Festa do Cablo. Conseguia lembrar cada pequeno detalhe daquele folguedo, que foi também a última vez que viu Zaki. 

Veja só quanta ironia, pois tinha que ser justamente na Festa do Cablo, aquela que já se chamou Festa do Caboclo.

Hoje em dia, está incorporado ao calendário do folclore nacional e provavelmente, tornar-se-a patrimônio imaterial da humanidade, mas surgiu no século passado, para  reunir os seguidores das religiões de matriz africana, como Candomblé e Umbanda. Porém, com a perseguição sofrida e as constantes acusações de bruxaria, o nome da festa mudou de Caboclo para Cablo, uma alteração, que apesar de aviltante, salvou muitas vidas negras.

Dandara, ainda com o papel de doce na mão, lembrou-se do esmero com que se arrumou aquela noite para encontrar Zaki. Tomou um duche como mandava a tradição, com óleos e essências da terra. Colocou aquele vestido amarelo que tanto realçava a sua pele cor de chocolate, que Zaki não cansava de afagar e elogiar. Dizia que nem a noite de lua cheia resplandecia tanto quanto aquela sua pele negra que ele tanto amava. Não se furtou de usar os sapatos de saltos altíssimos e finíssimo e aquelas “sexys” meias de vidro 7/8,  que deixavam as suas pernas ainda mais bem torneadas, se é que era possível. Uma maquiagem leve, e apenas um par de ganchos a prender os seus cabelos de maneira a soltá-los como num passe de mágica, quando as mãos de Zaki, se aproximassem, para as festinhas carinhosas nos seus cachos.

Na bolsa, levava alguns trocos para um suco, batom, lenços, um comprimido para enxaqueca e as chaves de casa.

Lá foi Dandara, ansiosa por encontrar aquele homem, que acreditava,  já poder chamar de namorado afinal eram meses de encontros, cinemas, lanches, beijos e carinhos.

Assim que chegou, avistou Zaki com um copo na mão e um saco de papel na outra. Sorriu feliz, pois sabia que ele trazia no saco, como sempre, os guarda-chuvas de chocolate, mimo que adorava. 

Aproximou-se sorrindo o sorriso de uma mulher apaixonada. Encontrou o triste olhar de um homem triste. 

Zaki  largou o copo, puxando-a para perto de si, e assim, colados, permaneceram por um tempo que Dandara não saberia precisar. Em silêncio, de mãos dadas, caminharam para o jardim e lá entregou o saquinho com as prendas. 

Começou a coçar o nariz sem parar. Dandara sabia que estes comichões aconteciam quando Zaki estava nervoso e perguntou o que se passava enquanto pegava um daqueles deliciosos guarda-chuvas –  o amarelo para combinar com o seu vestido. Entretida em abrir o doce tentando não estragar o papel que iria para sua caixa de recordações, não percebeu o tremor nos lábios do seu amado que tentavam pronunciar algo.

– Desculpe – disse ele com um fio de voz – desculpe, mas vou casar semana que vem. 

Dandara não entendia o que escutava. O que Zaki falava? Casamento? Uma semana?

Muda, atónita, olhava para ele que murmurava coisas incompreensíveis para Dandara.

Viu Zaki afastando-se e a única coisa de que se lembra, é da sensação do guarda-chuva de chocolate  meio esmagado, meio derretido entre os seus dedos. 

Dos pertences levados na sua bolsa, apenas não usou  o batom. Os lenços foram providenciais tanto para as suas lágrimas quanto para a meleca que fizera com o chocolate. Os trocados garantiram a sua volta para casa de maneira digna, dentro de um táxi. E o comprimido para enxaqueca não poderia ter vindo em melhor hora, não fosse para aplacar a dor, fosse, pelo menos, para dar alguma sensação de conforto.

Soube, tempos depois, que o seu negro Zaki, casou com a alva Eugênia.  

Já perdera a conta  quantas vezes tentou jogar no lixo o conteúdo daquela caixa de papelão. Lá no seu íntimo, Dandara achava que, talvez, desfazendo-se das lembranças, conseguiria também apagar as dores. 

Entretanto, ao invés de queimar aquelas assombrações, mais uma vez, abriu a caixa, e oxigenou o fogo que alimentava os seus fantasmas. 

Segurou o desbotado papel amarelo do cafona guarda-chuva de chocolate que ganhou naquela noite na Festa do Cablo. Conseguia lembrar cada pequeno detalhe daquele folguedo, que foi também a última vez que viu Zaki. 

Veja só quanta ironia, pois tinha que ser justamente na Festa do Cablo, aquela que já se chamou Festa do Caboclo.

Hoje em dia, está incorporado ao calendário do folclore nacional e provavelmente, tornar-se-a patrimônio imaterial da humanidade, mas surgiu no século passado, para  reunir os seguidores das religiões de matriz africana, como Candomblé e Umbanda. Porém, com a perseguição sofrida e as constantes acusações de bruxaria, o nome da festa mudou de Caboclo para Cablo, uma alteração, que apesar de aviltante, salvou muitas vidas negras.

Dandara, ainda com o papel de doce na mão, lembrou-se do esmero com que se arrumou aquela noite para encontrar Zaki.

Tomou um banho como mandava a tradição, com óleos e essências da terra. Colocou aquele vestido amarelo que tanto realçava a sua pele cor de chocolate, que Zaki não cansava de afagar e elogiar, dizendo que nem a noite de lua cheia resplandecia tanto quanto aquela sua pele negra que ele tanto amava. Não se furtou de usar os sapatos de saltos altíssimos e finíssimo e aquelas “sexys” meias de seda 7/8,  que deixavam as suas pernas ainda melhor torneadas, se é que era possível. Uma maquiagem leve, e apenas um par de grampos a prender seus cabelos de maneira a soltá-los como num passe de mágica, quando as mãos de Zaki, se aproximassem, para as festinhas carinhosas nos seus cachos. Na bolsa, levava alguns trocos para um suco, batom, lenços, um comprimido para enxaqueca e as chaves de casa.

Lá foi Dandara, ansiosa por encontrar aquele homem, que acreditava,  já poder chamar de namorado afinal eram meses de encontros, cinemas, lanches, beijos e carinhos.

Assim que chegou, avistou Zaki com um copo na mão e um saco de papel na outra. Sorriu feliz, pois sabia que ele trazia no saco, como sempre, os guarda-chuvas de chocolate, mimo que adorava. 

Aproximou-se sorrindo o sorriso de uma mulher apaixonada. Encontrou o triste olhar de um homem triste. 

Zaki  largou o copo, puxando-a para perto de si, e assim, colados, permaneceram por um tempo que Dandara não saberia precisar. Em silêncio, de mãos dadas, caminharam para o jardim e lá entregou o saquinho com as prendas. 

Começou a coçar o nariz sem parar. Dandara sabia que estes comichões aconteciam quando Zaki estava nervoso e perguntou o que se passava enquanto pegava um daqueles deliciosos guarda-chuvas –  o amarelo para combinar com o seu vestido. Entretida em abrir o doce tentando não estragar o papel que iria para sua caixa de cartão, não percebeu o tremor nos lábios do seu amado que tentavam pronunciar algo.

– Desculpe – disse ele com um fio de voz – desculpe, mas vou casar semana que vem. 

Dandara não entendia o que escutava. O que Zaki falava? Casamento? Uma semana?

Muda, atônita, olhava para ele que murmurava coisas incompreensíveis para Dandara.

Viu Zaki afastando-se e a única coisa de que se lembra, é da sensação do guarda-chuva de chocolate  meio esmagado, meio derretido entre os seus dedos. 

Dos pertences levados na sua bolsa, apenas não usou  o batom. Os lenços foram providenciais tanto para as suas lágrimas quanto para a meleca que fizera com o chocolate. Os trocados garantiram a sua volta para casa de maneira digna, dentro de um táxi. E o comprimido para enxaqueca não poderia ter vindo em melhor hora, não fosse para aplacar a dor, fosse, pelo menos, para dar alguma sensação de conforto.

Soube, tempos depois, que o seu negro Zaki, casou com a alva Eugênia.  

Caboclo
Obra de Di Cavalcanti, “Samba”

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Dominique

Nasceu em 1964. Ela tem 55 anos, mas em alguns posts terá 50, 56, 48, 45. Sabe porque? Por que Dominique representa toda uma geração de mulheres. Ela existe para dar vida e voz às experiências, alegrias, dores, e desejos de quem até pouco tempo atrás era invisível. Mas NÓS estamos aqui e temos muito o que compartilhar. Acompanhe!

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Amor Escolhido

Esse foi um conto escrito para participar do concurso “Contos da Pandemia”, promovido pela Livraria Lello do Porto-Portugal. Escrevi em maio de 2020, no do “confinamento”. Uma obra 100% de ficção.

Capítulo 1 – O telefonema

 Dominique esperava os filhos para almoçar. Não abria mão daquele almoço de domingo, ainda mais depois de tanto tempo sem conseguir reunir todos eles. 

Não bastavam Ano Novo, férias e Carnaval serem épocas de grandes desencontros. Guilherme, seu marido, estava em um período profissional muito movimentado, com viagens semanais em sua agenda. Por isso, aquele domingo era, na verdade, o primeiro encontro da família no ano.

Aquelas reuniões sempre foram muito animadas, pois, com frequência, os filhos traziam amigos, namorados e afins. A filha mais velha já é casada e tem uma filhinha, os dois rapazes são solteiros e não moram mais na casa dos pais. Guilherme nunca se abalava por nada, afinal, domingo era seu dia de descanso. Ele sempre deixava tudo por conta da esposa – sua parte era prover. Porém, ao longo dos 28 anos de casamento, nem sempre foi assim. Dominique segurou muita barra, enquanto a empresa do marido não decolava. A vida deu voltas e voltas.

Alguns domingos eram deliciosos… 6, 10, 15 pessoas animadas, conversando, brincando, contando histórias. Outros eram desastrosos, terminando em terríveis bate-bocas. Provavelmente, como na maioria das famílias. Bem, só nas normais.

Acaba o almoço. Casa em ordem. Meninos e agregados já se foram, e Guilherme assistia a intermináveis mesas-redondas.

Então, como faz há 28 anos, Dominique segue para o que ela chama de ‘banho da redenção’. Um momento só dela em que consegue ouvir os próprios pensamentos. É a hora do silêncio.

Já na cama, um beijinho de boa noite.

Guilherme pergunta, carinhosamente, sobre a semana da esposa.

‒ Muita obra essa semana, querida? Arrumou aquela assistente?

Dominique é arquiteta. Sonhava ser urbanista e projetar grandes cidades, ou mesmo pequenas. Entretanto, a vida de verdade/real fez com que ela se tornasse muito mais decoradora do que arquiteta. Encarou muita reforma para ansiosos noivinhos, decoração de quartinho de bebê com as futuras preciosistas mamães, assim como obras relativamente grandes, como casas de campo ou de praia, projetos nos quais ela podia, efetivamente, exercer seu ofício. Hoje, com seus 50 e tantos anos, já alcançara o que considerava o apogeu de sua carreira, ou seja, se dava o direito de escolher seus clientes. Isso é um luxo. 

Ainda assim, gostava de trabalhar, e sempre pegava mais obras do que manda o bom senso. 

Daí a pergunta de Guilherme e sua genuína preocupação.

‒  Pesada como sempre. Mas dou conta. Você vai à Brasília?

‒  Não sei. O Ministério mostrou interesse em nosso sistema preditivo. Parece que vão precisar muito. Mas já deveriam ter dado retorno.

‒ Você sabe como é governo, Gui. Talvez nem seja negócio vender para eles.

‒ É, pode ser…

Ela apaga a luz pensando na agenda apertada da semana e em como acomodar tudo.

Acordam de madrugada com o celular tocando. Não existe sensação pior do que ouvir o celular fora de hora. Ela atende exasperada. Guilherme acende a luz e senta-se na cama.

 ‒ Alô! Sim, é ela. Como? Não entendi, como assim? E qual é o estado? Agora? Ok! Estou indo!

‒ O que foi Dominique? O que aconteceu com os meninos? Pelo amor de Deus!

‒ Tenho que sair. Não foi nada com os meninos.

 ‒ Mas o  que aconteceu??

Enquanto se veste,  respira fundo e suspira num quase gemido. Vira-se para o marido e diz:

‒ O Cassio teve um AVC, vai ser operado agora, estou indo para o hospital.

‒  Cassio? Que Cassio? Que hospital? Você está louca?

Dominique sai do quarto, de casa, da rua, do bairro… E do casamento.

CAP 2 – O Derrame

Amor escolhido Cap 2q

 – Boa Noite. Onde posso encontrar Cassio Mouton?

‒ RG por favor. Qual seu parentesco com o paciente? – pergunta a recepcionista do hospital.

Não consegue conter as lágrimas. Já está num estado emocional deplorável para ter que cumprir burocracias. 

‒ Namorada. Sou sua namorada. Por favor, onde posso encontrá-lo.

‒ Ele não está no quarto, está no centro cirúrgico nesse momento.

A recepcionista deveria estar acostumada a cenas tristes visto que não moveu um músculo, quando Dominique irrompeu no choro descontrolado.

Sentada na sala de espera, perdida em seus pesadelos, não sabia se tinham se passado vinte minutos, uma hora ou toda uma madrugada, quando aquele médico apareceu chamando por um parente de Cassio Mouton.

Levantou-se meio assustada tomando consciência de que agora era ela a responsável por Cassio. 

Escutou o que o médico falava tentando se concentrar no todo, sem que sua mente divagasse na consequência de cada frase dita por aquele estranho.

  ‒ O paciente chegou consciente ao hospital. Percebeu que estava tendo um AVC e conseguiu ainda chamar um Táxi. Tudo foi muito rápido. Os exames de imagem mostraram a necessidade e urgência de se fazer um procedimento de desobstrução. A cirurgia correu bem, mas é impossível dizer o grau das sequelas. Ele passará 48 horas na UTI, depois 3 dias no quarto antes de ir para casa. A fisioterapia e fono devem começar imediatamente. Infelizmente não pode vê-lo agora. 

Agradeceu ao médico e voltou a sentar-se na mesma cadeira. Olhou o celular para ver a hora e lá estavam 20 chamadas não atendidas de Guilherme e 40 recados de Whatsapp. 

Ela não tinha o direito de fazer isso com aquele homem, companheiro de tantos anos. Imaginou a agonia do marido em casa sem saber o que estava acontecendo, apenas conjecturando. 

Mandou uma mensagem.

Guilherme, meu amor, eu estou bem. Impossível te explicar agora o que está acontecendo. Muito menos o faria por mensagem. Conversaremos assim que eu colocar minhas ideias no lugar. Por favor, tente não me odiar. Darei notícias em breve.

Ainda com o telefone na mão, procurava mentalmente alguém para quem pudesse ligar porque precisava ouvir que tudo ia ficar bem. Não ligou para ninguém, pois não tinha para quem ligar. Levantou-se pensando para onde ir. Não tinha para onde ir e não sabia o que fazer.

Saiu do hospital sentindo o ameno calor da madrugada daquela noite de março, em contraste com o gelo e a frieza do ambiente asséptico em que estava.

Entrou no carro sem destino, dando voltas por uma cidade árida e pouco hospitaleira, que é como sentia São Paulo naquele momento.

Quando percebeu, estava na frente do prédio de Cassio. Foi para lá que o carro a levou – o carro e seu inconsciente. 

Era um desses prédios modernos sem porteiros, tudo meio automático.  Sobe, procurando a chave da porta em sua bolsa. Sai do elevador e entra naquele apartamento que ela mesma decorou anos antes. 

Quando acende a luz, vê a xícara de café quebrada no chão, e o líquido esparramado. 

Chorou imaginando a cena. Antes mesmo de limpar aquilo tudo, correu para o quarto, pegou o travesseiro de Cassio e apertou-o contra o rosto. Precisava sentir seu cheiro, precisava sentir seu homem. 

Foi para sala, pois sabia que não conseguiria dormir. Restava-lhe esperar dar meio-dia para poder voltar ao hospital. Ligou a TV apenas para amenizar a solidão. Sorriu ao perceber que estava sintonizada no canal de notícias francês. Apesar de ter vindo morar no Brasil com 5 anos de idade, Cassio ainda tinha raízes importantes em sua terra natal.

A apresentadora do telejornal falava em tom de urgência sobre a quarentena recém decretada pelo Presidente Macron. 

Dominique tinha até se esquecido do coronavírus, assunto único das últimas semanas. Tentou prestar atenção. Eram quase 7.000 casos confirmados e 150 mortos na França, enquanto a vizinha, Itália, contabilizava assustadores 3.000 mortos naquela segunda-feira dia 16 de março.

Em São Paulo, que registrava 150 casos, pedia-se para que, quem pudesse, não saísse de casa, porém, não havia sido decretada qualquer quarentena.  Os contaminados eram devidamente rastreados, e isso dava à população uma certa sensação de controle, apesar dos alertas do então Ministro da Saúde.

A TVMonde entrevistava uma mulher chorosa, cujo marido estava isolado do outro lado do mundo, sabe-se lá por que, e agora se encontrava impedido de voltar para casa. Isso fez Dominique pensar em seu marido e em seus filhos. O que aconteceria dali para frente? Não conseguia nem pensar o quanto Guilherme estava sofrendo, e o tanto que ainda sofreria quando, finalmente, conseguissem conversar.

Levanta-se com um tranco como que para deixar seus pensamentos para trás e resolve ir para o hospital mesmo ainda sendo 8 horas da manhã.

Já na UTI, permitem que ela entre antes das 12h, pois Cassio já está acordado, ainda que sonolento e talvez um pouco confuso. 

Respirou fundo e entrou emocionada. Ia pedir a proteção dos santos, mas não se sentiu digna disso. Pensou que isso era algo que precisaria levar para terapia. 

Delicadamente, aproximou-se. Ele virou para olhá-la com uma tentativa de sorriso e ela então, dá-se conta de que o lado direito dele estava paralisado. Sorriu de volta, disfarçando o susto.

 ‒ Estou aqui Cassio. Vai ficar tudo bem.

Ele murmura sem deixar de fitá-la

  ‒ Inês…Inês…

Dominique assustou-se quando ele a chamou pelo nome da esposa. Sentiu vontade de sair correndo daquela situação bizarra, sumir, desaparecer. Não podia. Agora era hora de tentar ser fria e racional, entender que aquele homem na cama tinha sofrido um derrame há menos de 12 horas, e não foi por mal que a chamou pelo nome da esposa morta. 

Inês faleceu em 2016 vítima de câncer de mama. Lutou contra a doença por 2 anos, mas não resistiu. Dominique acompanhou tudo à distância, sofrendo com o sofrimento de seu amante. 

Não conhecia Inês, mas apesar do ciúme irracional que sentia, respeitava aquela mulher. Chegou a achar que seu affair que já durava 5 anos, não resistiria ao luto de Cassio. Ele sofreu. Sofreu muito, mas nunca por culpa de seu romance com Dominique. Sofreu pela perda da mulher que amava. Uma delas.

Após algum tempo, segurando sua mão, Cassio adormeceu.

Quando sai de perto da cama, percebe a presença do médico que observava a cena. Ela não sabia há quanto tempo ele ali estava e ficou envergonhada. Ainda se sentia a amante. Ainda era a amante. Claro que o médico não tinha como saber de nada daquilo. Enfim…

Ele a chamou para conversar.

‒ Como ele está doutor?

‒ Tudo correndo dentro do esperado, porém ainda é um pouco cedo para saber. O que acontece é que temos urgência em tirá-lo do hospital. A epidemia de COVID-19 chegou ao país, e já temos doentes infectados internados em outra ala da UTI. Ele está muito debilitado e não deve correr o menor risco de contaminação. Pode ser fatal nas condições em que se encontra.

 ‒ Certo doutor. Quais são as recomendações? 

 ‒ Ele vai para a semi intensiva amanhã, e depois vai para casa antes do previsto. Quanto tempo você precisa para organizar tudo para a chegada dele?

‒ Organizar? Como assim doutor?

‒ Cama hospitalar, adaptação de banheiro, contratação de HomeCare. Meu assistente conversará com a senhora e ajudará no que for necessário.

Dominique, nessa hora, sente as pernas fraquejarem. Fica olhando para o médico com cara de pânico. Entretanto, parece que ele estava ocupado demais para ampará-la e saiu rapidamente antes que precisasse consolar uma mulher chorosa. 

Despediu-se suavemente de Cassio e saiu para fazer o que tinha que ser feito. 

Não parou até que tudo, absolutamente tudo que era possível contratar, comprar, arrumar, alugar estivesse ticado de sua lista. Já eram quase 10h da noite. Não tinha voltado ao hospital e não tinha falado com Guilherme.

Foi tomar banho no banheiro de hóspedes, pois o do quarto principal já estava sem a porta do box e sendo adaptado com barras. A obrinha terminaria no dia seguinte. 

Já com a água a escorrer por seu corpo, começou a pensar nas consequências de tudo aquilo. 

Cassio não tinha filhos, era filho único e além de meia dúzia de amigos, só tinha a ela. Abdicou de muita coisa enquanto era casado e principalmente depois da viuvez, para manter Dominique em sua vida. 

Dominique e Cassio foram colegas de faculdade e perderam contato depois que se formaram. Mas quis o destino que se encontrassem em Paris, em 2010, num curso de atualização. 

Talvez o destino já não tenha tido muito a ver com o que aconteceu dali para frente. 

Alguns dirão que foi por livre arbítrio que Cassio convidou Dominique para jantar naquele bistrô super romântico. Dominique não pode culpar o vinho por tê-lo feito experimentar seu mil folhas com framboesas, fazendo às vezes dos talheres com seus delicados dedos.

Paixão avassaladora e duradoura. Quem falou que a paixão dura 2 anos? Dominique e Cassio atestam que isso é dito por aqueles que ficaram apaixonados somente por 2 anos. 

Apesar daquele sentimento enlouquecedor, ambos nutriam um sentimento de respeito, amor, carinho pelos parceiros de vida com quem tinham se casado.

Chegaram muito perto de se separar de seus respectivos cônjuges, mas em momentos diferentes. Tivesse coincidido qualquer período de grande dúvida ou angústia a história teria sido outra.  

Assim foram levando aqueles 3 primeiros anos, equilibrando família, culpa, trabalho, paixão… até o diagnóstico de Inês. 

Cassio fez o possível e o impossível. Não se conformava que estavam perdendo a batalha. Foi de uma devoção comovente, e Dominique o amou ainda mais por isso. Era com ela que ele chorava depois de cada resultado de exame de Inês. 

Depois da morte da esposa, saiu da casa em que moravam e se mudou para o apartamento atual. Foi natural Dominique ajudá-lo a escolher o imóvel e decorá-lo como se fosse aquela, a casa do casal. 

Mas não era. Eles não eram um casal, eram amantes. Ela estava no chuveiro da casa do amante, e seu marido estava em casa perdido, esperando por uma explicação. Imaginando um milhão de coisas, fazendo ligações com suas desculpas do passado, chegando a conclusões sem que ela estivesse lá. 

Não consegue imaginar o sofrimento que impingiu a seu companheiro. O que fará? Qual a reação de Guilherme quando conversarem? O que vai falar para as crianças? Não podia dar vazão a esses pensamentos agora. 

Cassio precisará de muitos cuidados e por bastante tempo, e é ela quem se dedicará a isso. Por amor, respeito, compaixão e responsabilidade.

Saiu do banho sentindo o cansaço daqueles dois dias. Estava exausta física e emocionalmente. Abriu a parte do armário onde mantinha suas coisas procurando algo confortável para dormir, mas antes de se deitar resolveu dar uma olhada no celular. 

Mensagem de sua filha perguntando se poderia usar a casa da praia no final de semana, ou seja, Guilherme não tinha falado com os filhos ainda. Aliás, ele estava em silêncio desde a última mensagem que enviou.

Cap 3 As Sequelas

Chegou ao hospital cedo e reparou que, diferentemente do dia anterior, todos os funcionários usavam máscaras 

Já na UTI, só era possível entrar depois de fazer todo um procedimento e vestir uma paramentação especial, o que não acontecia na véspera.  

A enfermeira explicou que a pandemia tinha chegado pra valer ao Brasil, e que já estavam com 15 doentes em respiradores e dois andares com pacientes graves. 

Quando entrou ficou assustada. Todos os leitos de UTI vazios à espera de pacientes com COVID-19, com exceção do de Cassio. Ele já estava acordado, ela chegou sorrindo por detrás da máscara, tentando disfarçar o nervosismo e a ansiedade.  

‒ Dominique nique nique…

Sim, ele a reconheceu e a saudou como sempre o fez. Segurou sua mão esquerda para que ele pudesse sentir o toque mesmo que pelo latex da luva. 

Foram minutos de silêncio nos quais palavras eram realmente desnecessárias. Ficaram se olhando apenas, e tudo foi dito. O horário de visita da UTI termina justamente quando chega o médico:

— O paciente está com importantes sequelas motoras em seu lado direito, e já notamos alteração da fala.

– Ele voltará ao normal doutor?

— Vai depender de muitos fatores, inclusive da determinação dele no processo de recuperação. O quarto na Semi Intensiva já está preparado e logo será levado para lá. Caso passe bem essa noite, amanhã irá para casa com HomeCare.

Estava tudo acontecendo muito rapidamente, estava perdida, sem saber por onde começar. Ou terminar. 

Saiu do hospital e resolveu dar uma caminhada para tentar organizar as ideias.

Andou..Andou..Andou…

Sabia o que tinha que ser feito. Não podia mais ser adiado. 

Mandou uma mensagem para Guilherme perguntando se poderiam conversar naquele momento. Já estava no carro a caminho quando recebeu um seco “Sim” dele.

Usou sua chave para entrar em casa e viu seu marido em pé encostado na parede esperando por ela.

Sua aparência não era boa, parecia cansado. Não, aquela expressão não era cansaço. Conhecia-o bem demais… Sua boca secou quando viu que seu marido estava extremamente triste. O que ela poderia esperar? Na verdade, não tinha tido muito tempo de esperar por nada.

Foi Guilherme quem rompeu o silêncio:

–Sabe quantas vezes você, sem perceber, me chamou de Cassio esses anos?

– E você nunca me chamou à atenção?

— Não. Porque aí teria que perguntar quem era Cassio e, talvez, não estivesse preparado para a resposta. Mas chegou a hora. Quem é Cassio, Dominique?  

Seguiu-se uma longa e dolorida conversa. Choros, gritos, raiva, decepção, tristeza, mágoas antigas de ambos os lados, lavação de roupa suja, imunda.  Foi uma conversa que não acabou. Estavam tão dilacerados que sabiam que não aguentariam mais nenhum espinho de dor. 

O apartamento estava preparado para receber o doente. 

O pessoal do HomeCare já estava a postos quando a ambulância chegou. 

Dominique não queria acreditar que estava vivendo aquilo. Aquele homem totalmente dependente, deitado numa cama no meio da sala e sendo cuidado por 2 enfermeiros. Três turnos de profissionais, fisioterapeuta e fonoaudióloga, além das visitas do neurologista. 

Dias depois, gerenciando aquela confusão, ela não entendeu direito as consequências do pronunciamento do governador que decretara quarentena e isolamento por conta do COVID-19.

Só caiu a ficha, quando o médico ligou para dar as orientações da semana e perguntou como ela pretendia fazer quando dispensasse o HomeCare.

‒ Como assim doutor?

‒ Você não pode ter pessoas entrando e saindo de sua casa. Isso é quarentena. Ainda mais com um doente vulnerável em estado crítico. 

‒ Doutor, como eu vou fazer? Ele precisa de muitos cuidados. Está melhorando, mas continua totalmente dependente.

‒ Vamos pensar juntos, não entre em pânico.

Quando desligou, viu que Cassio olhava para ela com lágrimas nos olhos. Tinha ouvido a conversa e sabia tudo o que estava causando na vida daquela mulher. Não era sua intenção. 

Dominique contratou um dos enfermeiros do HomeCare que topou ficar sem sair o tempo que fosse necessário. Um problema a menos, apesar de ter que se acostumar com a presença de Moacyr 24 horas por dia dentro de casa. Tudo era novo. Muito novo.

Ela e Guilherme acordaram que ainda não contariam nada para os filhos, e a quarentena justificaria a total ausência de ambos. O discurso seria o cuidado deles, filhos, com os pais, grupo de risco. Não seria difícil mantê-los à distância. Talvez até agradecessem esse descompromisso, assim poderiam ser os egoístas de sempre, mas sem culpa. 

A primeira semana de quarentena foi de adaptação. Além das tarefas diárias, Dominique ficou encarregada de aplicar fisioterapia no paciente, mediante orientação da profissional via Zoom. Moacyr ajudava muito, especialmente nessa hora. A mesma coisa com a fono. O dia a dia de um doente em recuperação de um AVC é movimentado, mas acaba ficando ainda mais pesado para quem está cuidando dele.

Ela não tinha tempo para respirar.  Ao ouvir a música de abertura de certo telejornal dominical, deu-se conta de que apenas uma semana tinha se passado desde aquele telefonema da madrugada.

Como pode uma semana ter a duração de tantos anos? Aquele último almoço em família parecia algo tão distante, acontecido há tanto tempo e numa vida que não mais lhe pertencia. 

Não queria pensar no passado agora. Muito menos no futuro. 

Seus filhos trocaram algumas poucas mensagens burocráticas com ela. O suficiente para saber que estavam bem. A filha que estava na praia, disse que ficaria por lá durante a quarentena. Os meninos, como sempre, não deram muita satisfação, mas também não a pediram.  Sobre Guilherme, nada sabia e não tinha como saber. Sua fiel escudeira que trabalhava há anos com sua família estava na casa dela cumprindo o isolamento social. 

Não eram só pessoas que estavam isoladas parecia que os acontecimentos também. Conhecia bem o marido e sabia que ele jamais se exporia antes de ter a situação completamente sob controle e resolvida. Aliás, se dependesse dele, ninguém saberia que sua esposa estava fora de casa cuidando de seu long term lover. Sorriu quando pensou no termo em inglês, digno de romances de Danielle Steel. Portanto, para o universo, nada tinha mudado na vida de Gui e Dominique.

Os dias foram passando, e a recuperação de Cassio era impressionante. Todo dia uma nova pequena conquista. Ele já ficava em pé, ensaiava passos e se esforçava muito a ponto de, em certos momentos, beirar a exaustão. Então, Dominique definiu horários obrigatórios de descanso e atividades recreativas para todos. Naqueles momentos, apesar de sua completa falta de foco, ela tentava ler. Cassio geralmente escutava música com fones de ouvidos e Moacyr assistia à TV. 

Foi num desses intervalos que ouviu, de seu quarto, uma voz conhecida. Levantou-se de súbito. Suas pernas fraquejaram e um arrepio percorreu-lhe a espinha. Guilherme estava ali? Era ele falando. Não conseguia raciocinar e não sabia o que estava acontecendo. Amortecida foi para a sala sem saber o que encontraria.

Guilherme não estava na sala, entretanto ela continuava ouvindo sua voz. Atordoada, sentou-se ao lado de Moacyr no sofá e viu seu marido na TV dando uma coletiva de imprensa junto ao Ministro da Saúde. Estava mostrando gráficos e comentando números da epidemia, não só no Brasil como no exterior. 

Então tinha conseguido, finalmente, vender seu sistema para o governo! Parece que se vendeu junto. A TV o classificava como “Consultor “. 

Cassio estava de olhos fechados com fones de ouvidos, e Moa não tinha ideia de que Dominique pudesse ser casada com outro homem, muito menos com aquele da televisão. 

Casaram-se cedo, e Guilherme era o que se chamava de menino prodígio da tecnologia. Em 1999, foi um dos únicos a não acreditar nas catástrofes do BUG do Milênio profetizado por sábios da informática. Convenceu seu gerente a investir menos naquilo que considerava uma grande bobagem. A economia gerada para a empresa rendeu-lhe promoções e, assim, sua carreira começou a decolar, como escrito nas estrelas. 

Resolveu abrir seu próprio negócio, uma daquelas PontoCom do início dos anos 2000. A ideia era fabulosa, um site para comparar preços de passagens aéreas. De tão inovadora que era, chegou muito antes de seu tempo.  O 11 de setembro enterrou de vez a Fly2Me.com levando com ela tudo o que a família tinha, deixando como recordação dívidas e processos trabalhistas. 

Conseguiram vender a casa em que moravam e, por incrível que pareça, o nome Fly2Me.com, seu registro e legado valiam alguma coisa e acabou sendo vendido para alguém no exterior. 

Foi um tempo muito difícil carregado de inevitáveis brigas, desgastes e atribuições de culpas. Dominique até hoje não sabe como fez para dar conta de 3 crianças e de seu trabalho que, por alguns anos, acabou sustentando a família. 

Guilherme, ao longo do tempo, teve altos e baixos profissionais acompanhados por períodos de depressão. Dominique nunca soube o que vinha primeiro: se era a depressão que puxava os negócios para baixo ou o contrário. Por essas e outras, nunca tinha pensado em parar de trabalhar. 

Hoje em dia, além da própria empresa desenvolvedora, investia em StartUps, e foi uma delas, que criou um sistema que conseguia prever ocupação de leitos de UTI de acordo com parâmetros, além de diversas outras simulações. 

 E lá estava ele, em Brasília, ao lado do Ministro da Saúde, usando o colete azul do SUS. 

Passado o susto, sentiu um orgulho gigantesco do marido e foi invadida por uma enorme felicidade por ter feito parte daquela conquista. Porém, não iriam comemorar juntos. Esperou acabar a coletiva de imprensa e, aí sim, acordou Cassio para que ele se preparasse para os últimos exercícios do dia.

Cap 4 – Reaprender a Dançar

Passam-se os dias, a epidemia avança no mundo e no Brasil. Fazia um mês que Dominique tinha saído de casa. Começava a mostrar alguns sinais de depressão, mesmo tendo recomeçado a fazer sua terapia online. 

Naquela noite, secando os cabelos, olhou-se no espelho. A raiz estava branca, coisa que nunca permitiu acontecer, mas agora não tinha como ir ao salão ou deixar alguém entrar em casa. Estava abatida, com olheiras. Passou um pouco de maquiagem para se sentir melhor. Continuava sendo uma mulher atraente mesmo naquele estado. 

Ao chegar na sala levou um tempo para entender o que estava acontecendo. Primeiro se acostumou a penumbra. Penumbra? Velas?

‒ Acabou a força? – Perguntou sem se dar conta que tinha acabado de usar o secador.

Cassio estava em pé esperando por ela. Vestia calças bege e camisa azul, aquela que o deixava um gato. Há quanto tempo não o via de roupa. Meu Deus, que homem lindo, pensou Dominique. O tênis que calçava destoava do visual, mas tudo bem, vai…

Ele estendeu a mão em sua direção e puxou-a para perto de si. Nesse momento, ela percebeu que tocava uma música. Aquela música!!! Olhou-o nos olhos. Sentiu que ele a apertava contra si com a pouca força restaurada em seu braço direito. Dançaram. Sentiram um ao outro. Abandonou-se nos braços dele e, pela primeira vez naquele tempo todo, sentiu paz. 

Jantaram e conversaram como faziam antes. Assuntos divertidos, conversas deliciosas. Mas onde estava Moacyr? Cassio havia dado folga para ele aquela noite.

‒ Ele não pode sair daqui. Você está louco? Ele pode ter contato com o vírus. Não podemos correr o risco.

 ‒ Podemos sim, meu amor. Eu posso. Ponderei os riscos e decidi que valia a pena uma noite só para nós. Ele voltará amanhã. Emprestei meu carro. 

Conversaram muito. Choraram. Namoraram. Lembraram o que era felicidade…  Dominique não precisou recorrer a nenhuma memória, como fizera ao longo deste mês, para saber porque estava com aquele homem há 10 anos. 

Cassio teve uma recuperação fenomenal, mas, aparentemente, ficaria com uma pequena sequela na mão direita. Só isso? Grande coisa! Diz ele o tempo todo. Já fazia os exercícios sozinho ou só com a ajuda de Moacyr – no geral, já estava bem independente. 

Ainda era cedo para que ele voltasse a trabalhar, contudo estava despreocupado, pois seus sócios franceses comandavam remotamente o escritório.

Seus projetos pioneiros na área de sustentabilidade chamaram a atenção desse escritório francês de arquitetura e, após algumas idas e vindas, acabaram se associando em 2012. 

Foram muitas as viagens de Dominique a Paris com a desculpa de exposições de móveis e objetos ou materiais de construção. Lá encontrava Cassio, e tentavam viver uma semana de vida normal, sem se esconder, sem paranoias. 

Claro que passaram por grandes apuros ao longo desses 10 anos. Não foram nem uma, nem duas vezes. Foram inúmeras as situações em que cruzaram com conhecidos no Brasil ou em Paris. Sabem que, provavelmente, deixavam pistas pelo caminho, porque, afinal de contas, não existe crime perfeito. Se seus parceiros desconfiavam do caso deles, fingiam não saber de nada, pois nunca nenhum deles foi atrás.

Agora Dominique não teria mais o que esconder. Poderia viver seu romance à luz do dia.

 A hora da coletiva do Ministro da Saúde na TV tinha virado o ponto alto do dia, quase que uma sessão pipoca. Os 3 se preparavam minutos antes em seus lugares na expectativa das novidades e dos números. Guilherme, a essa altura, já tinha ganhado projeção nacional por estar diariamente ao lado do ministro e ser ele a divulgar estatísticas e previsões. Moacyr entendeu que Dominique conhecia aquele homem, mas achou que era um amigo próximo ou parente. Não deram maiores explicações.

Dominique surpreendeu Cassio olhando para ela algumas vezes, enquanto Guilherme falava.  Talvez fosse evidente o orgulho que sentia. Ou seria saudade? Nem ela sabia o que estava sentindo. 

Os dias foram passando. Um de seus filhos pegou COVID-19 quase matando Dominique de preocupação, sem que ela pudesse fazer qualquer coisa a respeito. Recuperou-se rapidamente, apesar de dizer que foi a pior “gripezinha” que já teve. 

Quem parece que também pegou essa “gripezinha” foi o Presidente da República, mas os exames dele sempre deram negativo. Vai entender. 

Entra Ministro, sai Ministro, e Guilherme lá. Firme! 

Nos últimos tempos, evitavam o noticiário, pois Cassio andava perdendo o controle de tanto nervoso que passava com o descontrolado governo brasileiro. 

Tudo acontecia sem que medidas concretas fossem tomadas. O Brasil já era o epicentro mundial do coronavírus, e o presidente preocupado com sua reeleição. Governadores e prefeitos idem. Impressionantemente, secretários de saúde superfaturando respiradores e levando propina. A economia em frangalhos.

Cassio esbravejava, gritava. Escrevia nas redes sociais. Isso também era um sinal de que ele já estava bem. Devolveram a cama hospitalar e, enfim, chegou o dia de dispensarem Moacyr. Muita emoção, porque, além de terem se apegado a ele, aquilo também vinha carregado de significados.

Apesar da melhora de Cassio, a quarentena continuava para eles e para todos. As coisas pioravam, mesmo após tanto tempo de confinamento. As informações continuavam desencontradas, a população dividida e os nervos à flor da pele. 

Porém, para eles tudo era mais leve do que para os outros, pois ela já tinham passado pelo pior. Tanto que Dominique se deu ao luxo de começar a se sentir enjoada das poucas roupas que tinha no apartamento. Vinha usando nesse tempo todo as mesmas 8 peças. Adaptou algumas do namorado para ela. Mas estava sentindo falta de seus cremes, de seus moletons, enfim, de suas coisinhas. 

Resolveu que daria um pulo na casa dela e aproveitaria para ver se estava tudo em ordem, até porque a casa estava fechada há quase dois meses com Guilherme em Brasília e sua funcionária na casa dela. Não queria nem pensar no pó e no estado que encontraria as coisas. Nossa! Que aventura colocar a máscara e sair do apartamento depois daquele tempo todo. Quando saiu da garagem, o céu se descortinou ofuscando-a com aquela claridade cheia de vida, e Dominique inundou-se de alegria. Abriu as janelas, respirou fundo e dirigiu admirando cada árvore, cada esquina, cada canteiro que encontrava em seu caminho. 

Parou o carro na rua, e entrou em casa pela porta da frente evitando, assim, a trabalheira de abrir o portão da garagem. 

Quando pisou naquele lugar tão familiar, sentiu-se estranha. Parecia que fazia muitos anos que não estava ali, muitas vidas. As coisas estavam exatamente como havia deixado. 

Ficou algum tempo na escuridão da sala fechada, quando resolveu abrir as cortinas e os vidros para arejar a casa. De repente, escuta alguém gritando: 

            ‒ Quem está aí? Quem está aí?

Era Guilherme.

Ele não estava em Brasília? Tinha visto ele ontem na TV. Dominique olhou para porta e calculou se daria tempo de sair correndo da casa sem que ele a visse. Sacudiu a cabeça como que para afastar aquele pensamento, tomou coragem e respondeu:

             ‒ Sou eu Gui, Dominique.

Ela escuta os tão familiares passos do marido descendo as escadas e calcula direitinho o tempo que ele levará para chegar até a sala.

              ‒ Oi

O coração de Dominique dispara ao vê-lo. Estava com saudade, quem diria!! Não conseguia decifrar o que ele estava sentindo. Será que ainda estava com muita raiva? Vai me perdoar algum dia? Já está em outra?

‒ Olá. Tenho visto você nas coletivas do ministério. Estou muito feliz com seu sucesso, de verdade. 

‒ Obrigado. O que você está fazendo aqui?

‒ Vim pegar algumas roupas. 

‒ Não poderia ter me avisado antes? – Falou ele num tom bem mais ríspido que o normal.

‒ Desculpe Guilherme. Imaginei que estivesse viajando.

‒ Imaginou errado. Voltei ontem à noite. Essa casa também é sua, eu sei. Mas você não pode ir entrando desse jeito.

‒ Você tem razão. Me desculpe. Isso não acontecerá novamente.

Ele andou até a cozinha dando a entender que Dominique podia, naquele momento, subir para pegar suas coisas.

Ela entrou no quarto do casal, evitou olhar a cama, os porta-retratos cheios de passado. Abriu seu armário e, mecanicamente, pegou um punhado de peças de roupa enfiando numa sacola de loja que achou numa gaveta. Não via a hora de ir embora, estava se sentindo uma intrusa. 

Quando desceu, não encontrou mais Guilherme em casa. 

Voltou para o apartamento quieta, evitando o olhar de Cassio que esperou apenas o momento certo para perguntar o que tinha acontecido naquela sua saída.

Contou sobre o rápido encontro com o marido. 

Ele perguntou se falaram sobre a separação e os próximos passos.  

— Não. Claro que não. Sequer contamos para os meninos – Respondeu ela num tom mais áspero que o necessário. 

‒ Dominique nique nique…. Calma. Ok. Mudemos de assunto.

Mas ela não estava a fim de papo. Ligou a TV no noticiário apenas para não ter que conversar e fingiu estar entretida naquelas notícias tão tristes e tão iguais. Nisso, descobriu que outro Ministro da Saúde tinha sido demitido. 

Provavelmente, foi esse o motivo da volta de Guilherme. Então não voltaria mais para Brasília? 

Enquanto Cassio esbravejava horrorizado com o descontrole de um país sem direção no meio de uma Pandemia, ela pensava no encontro da manhã, e em suas implicações. 

Uma hora isso tudo vai acabar. Ela não podia se esconder pro resto da vida.

Os filhos já andavam desconfiados de que algo estava errado, mas com o pai morando em Brasília, tudo tinha justificativa. Agora com ele de volta,  ficará mais difícil explicar.

Mas por que não tinham contado para eles ainda? Já tinha se perguntado isso algumas vezes, porém preferiu não dar ouvidos à resposta.

Na manhã seguinte, Dominique foi acordada com Cassio beijando-a suavemente. Entendeu o que aquilo significava. Depois que a cama hospitalar saiu do meio da sala e da vida deles, passaram a dormir na mesma cama, mas nada tinha acontecido além do aconchego do calor da proximidade. Ela tinha medo de colocar pressão num assunto tão delicado. Foi um sexo diferente daquele que conheciam, cheio de vigor e paixão. Eles experimentam agora o amor do cuidado. 

O toque de Cassio sempre fez Dominique perder o chão. Com ele, descobriu o verdadeiro significado da tal química que tanto falam por aí. Explorou todos os cantinhos escondidos de sua sexualidade e satisfez as dele. Não sabia onde começava o desejo de um ou de outro. A comparação com seu marido, apesar de injusta, era inevitável. Com o passar dos anos, começou a ter vergonha de algumas coisas e ousadias diante de Guilherme. Nunca entendeu direito qual foi o processo para que isso acontecesse, mas com certeza “It needs 2 to Tango” ou seja, não fez nada sozinha nem para o bem nem para o mal. 

Cap 5 Fly2Me

Dominique não tem mais noção de tempo, se bem que isso parece ser um fenômeno mundial. É a programação da TV daquele dia que sinaliza ser Sábado. Resolve então ligar para os filhos com calma, sabendo que atrapalhará menos. Está com saudade. Muita. Passado o terremoto, o tempo do nada e para o nada começou a existir. São nesses momentos que afloram os sentimentos. 

Fala com cada um deles, sempre se esquivando de ligações com vídeo, como tem feito desde que saiu de casa. Diferentemente de todas as anteriores, essas eram conversas demoradas, pois queria saber da vida deles e detalhes dos últimos 2 meses. Meu Deus…Mais de 60 dias.

Quando se despede da filha mais velha, a última com quem falou, encolhe-se no sofá e assim fica por muito tempo. 

O dia seguinte amanhece ensolarado, o que por si só já faz um bem danado. Dominique acorda disposta e bem humorada, e isso anima Cassio. Difícil dizer o que ele desgosta nela, mas talvez o que mais ame seja seu sorriso e, principalmente, sua gargalhada. Adora ouvir a dissonante, porém sinceríssima, gargalhada de sua Nique. Quando era ele o responsável, sentia-se premiado.

Ela achou uma aulinha de aeróbica na Internet e cismou que precisavam fazer juntos. Afastaram o sofá e mesmo com as limitações que ainda se faziam presentes nele, tentou acompanhá-la. Almoçaram qualquer coisa na varanda e beberam 2 garrafas de vinho, afinal era domingo, se não estivessem enganados. De tarde, namoraram aproveitando o finalzinho daquela luz de outono e cochilaram sem remorsos.

Parecia um dia normal na vida de dois amantes. Divertiram-se muito dentro da toca. Porém não era um dia normal e já não eram mais amantes. Teoricamente.

E foi naquele entardecer, com Dominique em seus braços que Cassio falou:

— Nique, e agora?

– E agora o quê?

— E agora? Você casa comigo?

Ele não esperava por aquele silêncio. Depois de intermináveis e infinitos minutos, ela levanta e liga a TV.

 Cassio atônito fica esperando que ela mostre algo, mas não, ela apenas coloca no canal das notícias.

Não dá para saber se ela está escutando ou apenas olhando para o nada, mas não se move quando anunciam que o Brasil tem quase 16.000 mortes pelo COVID 19 e segue numa curva crescente. 

Também não se manifesta diante da notícia que a França parece ter superado o pior e no dia seguinte retomaria o dia a dia com os devidos cuidados.

‒ Desliga isso, Nique. DESLIGA ISSO! Eu te fiz uma pergunta.

‒ E eu não sei o que te responder.

‒ Como assim? Você se separou, não foi? Qual seria a outra resposta possível?

‒ Não sei. 

Mas ele sabia. Levantou-se pesaroso e foi para o quarto. Aquela noite Dominique não foi. Não conseguiu pregar os olhos, parecendo um zumbi de um lado para o outro.

Alta madrugada, já perto do amanhecer, Cassio sai do quarto. Olham-se com uma tristeza profunda. A tristeza do fim. Entenderam naquele momento que não ficariam juntos. 

Na semana seguinte, Cassio embarcou para Paris, seu país de origem. Resolveu que nada mais tinha a fazer no Brasil. Era melhor então que fosse para o país que estava mais longe do coronavírus para acabar sua recuperação. Se ficaria por lá quando tudo isso passasse, não sabia.

Dominique fechou o apartamento. Não aceitou de maneira alguma ficar lá. Ficaria apenas o tempo necessário até encontrar algo para alugar.

O tempo passa, a pandemia também, até mesmo no Brasil. Mesmo com todo esforço que o governo fez para que o COVID-19 ficasse por aqui, chegou a hora dela partir, e assim aconteceu.

Quando menos se esperava, dezembro chegou. De que ano? Bem, digamos que talvez não tenha sido tão rápido assim. Mas isso é detalhe.

Guilherme resolveu fazer o Natal com os filhos na casa dele para comemorar a chegada de mais um netinho. Ligou para Dominique. Falavam-se com uma certa frequência depois da separação.

Ela tentou manter os vínculos mesmo com toda a agressividade de Guilherme nos primeiros meses. Viram-se no aniversário dos filhos. Surpreenderam-se que nenhum deles estranhou quando contaram que tinham se separado durante a quarentena. Não deram muitos detalhes e, como sempre, não foram muito questionados.

As obras de Dominique foram retomadas junto com a vida, e foi isso que a manteve em pé durante aquela ressaca horrorosa.

O Natal foi divertidíssimo. Parece que a pandemia ensinou a turma a aproveitar a companhia e tentar tirar proveito de tudo aquilo de que haviam sido privados naquele tempo. O detalhe é que os Natais não têm mais presentes. Não daqueles que se compram.

Depois que todos foram embora, Dominique, naturalmente, foi para a cozinha arrumar as coisas – tudo pode mudar, mas a bagunça do pós Natal vai sempre ser a mesma. Ela e Guilherme conseguiram deixar tudo em ordem em menos de 2 horas, nem sentiram passar o tempo, pois comentavam cada lance daquela noite.

Quando Dominique pegava suas coisas para ir embora, Guilherme pediu a ela que ficasse. Ela ficou. Retomaram a vida de onde tinham parado naquele março de 2020. Houve maturidade suficiente para não transformar as feridas em cicatrizes.

O segundo netinho nasceu, o filho mais novo foi morar com a namorada e o outro se mudou para África do Sul por conta de uma proposta de trabalho. A Startup de Guilherme foi determinante para o encaminhamento das estratégias de saúde aqui e em outros países. No final da pandemia, foi vendida por uma cifra inimaginável. 

Estavam os dois no sofá, naquela noite fresca de primavera assistindo ao jornal. Olhando para o semblante tranquilo do marido, Dominique teve a certeza de que mais do que dinheiro, a venda da Startup trouxe-lhe a paz de espírito e devolveu-lhe a autoestima roubada, quando sua grande ideia do passado não passou de frustração e sofrimento para sua família. Ele se sentia reconhecido tantos anos depois, pensou Dominique, enquanto procurava, ironicamente, uma passagem aérea no site  Fly2Me.com, aquele que um dia tinha sido o sonho de Guilherme. 

Queria uma passagem para Paris onde visitaria uma exposição de materiais de construção no mês seguinte.

Dominique

Nasceu em 1964. Ela tem 55 anos, mas em alguns posts terá 50, 56, 48, 45. Sabe porque? Por que Dominique representa toda uma geração de mulheres. Ela existe para dar vida e voz às experiências, alegrias, dores, e desejos de quem até pouco tempo atrás era invisível. Mas NÓS estamos aqui e temos muito o que compartilhar. Acompanhe!

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Machado de Assis – Ironias à parte

Estou lendo um livro de contos de Machado de Assis. É um daqueles livros que eu tento economizar para não acabar. Seu texto impressiona por vários motivos, mas principalmente porque é de uma atualidade contundente.

Existe em seus contos, sem exceção, uma dramaticidade irônica ou por vezes uma ironia dramática. Sim, sim, são coisas diferentes, entretanto, sutilezas e entrelinhas tornam os desfechos magníficos, sem falar das expressões bordadas que fazem pensar até o mais distraído dos leitores. Quer ver um exemplo?

“A vida é uma enorme loteria; os prêmios são poucos, os malogrados inúmeros, e com os suspiros de uma geração é que se amassam as esperanças de outra.”

Do conto, Teoria do Medalhão, um de meus preferidos até agora.

Injusto dizer isso, uma vez que amei A Cartomante, A Chinela Turca, Mariana, Cantiga de Esponsais e olha que estou no começo do livro.

A ironia contida em Teoria do Medalhão é sublime, coisa digna de mestre. Fiquei pensando para quem e por que Machado de Assis escreveu aquela cutucada. Seja quem for, deve ter atingido o fígado.

Trata-se de um pai a aconselhar seu filho, que completa 21 anos, profissionalmente. Segundo o discurso paterno, para se tornar um medalhão (pessoa de destaque), o filho deveria renunciar à possibilidade de ter ideias próprias evitando qualquer atividade que propiciasse o movimento independente do intelecto. Sempre usar frases feitas do mesmo modo que pensamentos já consolidados. Nunca, em tempo algum, causar estranheza em suas falas para que jamais fosse destacado pelo diferente.

“Longe de inventar um ‘Tratado científico da criação dos carneiros’, compra um carneiro e dá-o aos amigos sob a forma de um jantar, cuja notícia não pode ser indiferente aos seus concidadãos.”

Machado de Assis, provavelmente, fala aqui de políticos ou até mesmo de figuras da sociedade, que aquiescem mudas, sem nunca se posicionarem inclusive diante do inescrupuloso. Aponta, com sua ironia impar, a mediocridade reinante no século XIX. Que bom que estamos no século XXI, né?

Ainda na mesma década, do mesmo século, apenas 3 anos depois, o autor escreve A Cartomante, um conto de humor cáustico, com final imprevisível com um narrador sutilmente manipulador.

A história começa com Rita contando a seu amado, Camilo, que esteve em uma Cartomante. A primeira coisa adivinhada, era que existia um bem-querer, mas que havia também por parte dela o medo de ser esquecida. Garantiu-lhe a vidente que isso não aconteceria.

Camilo, apaixonado, riu muito da ingenuidade de sua amada, mostrando-se totalmente cético em relação a esse tipo de recurso.

Rita é casada, porém, não com Camilo, mas com Villela, portanto, é um caso de adultério e para piorar, os homens são amigos próximos o que só deixa a trama mais dramática.

Um dia, Camilo recebe bilhete do amigo/marido para que fosse a seu encontro com urgência. Camilo sabia. Camilo tinha certeza de que uma tragédia se avizinhava, contudo, no caminho, ao passar pela casa da tal cartomante, resolveu parar e contrariando sua razão e por puro desespero foi consultar-se.

A mulher fez seu trabalho com esmero, e falou o que o cliente queria ouvir, restaurando-lhe a desejada segurança de que tudo estava bem.

Mas não estava. Seus instintos primários estavam certos. A Cartomante era uma grande picareta e seu affair havia sido descoberto.

Morreu ele, morreu Rita.

Isso a vidente não previu. Sabe por quê? Porque ela só consegue ver o que contamos para ela.

Isso valeu para os séculos XIX, XX e continua valendo em XXI, cada vez mais.

Você chegou a ler um texto sobre esse assunto que escrevi há muito tempo?

Eliane Cury Nahas

Economista, trabalha com tecnologia digital desde 2001. Descobriu o gosto pela escrita quando se viu Dominique. Na verdade Dominique obrigou Eliane a escrever. Hoje ela não sabe se a economista conseguirá ter minutos de sossego sem a contadora de histórias a atormentá-la.

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Passei o Carnaval de 2020 no Brasil. Eu e o Corona.

Como ficar longe do Carnaval carioca?

Depois que você o conhece, não existe lugar no mundo que queria estar em fevereiro que não seja nos arredores da Sapucaí. Não, ninguém vive por 25 anos no Rio de Janeiro impunemente. Falei isso no texto anterior quando expliquei que voltei a morar em Portugal recentemente.

O plano perfeito: fugir do frio europeu dessa época do ano, aproveitar o verão brasileiro, ver os meus filhos, os meus amigos, os meus lugares prediletos, enfim, esganar a saudade até matá-la e ainda de quebra, pular o Carnaval de 2020. Obviamente para fazer tudo isso nada menos do que 30 dias, ou seja, fevereiro e ainda alguns dias de março.

Ter deixado o meu apezinho em Ipanema, ajuda muito a esticar as minhas temporadas em Terra Brasilis.

Lá fui eu no voo das 10h da manhã da minha querida TAP. Adoro voos diurnos. Assisto todos os filmes que estou atrasada, já que não durmo mesmo, e quando chego no destino ainda tenho a noite inteira para descansar. É colega, foi-se o tempo….

Bem, tudo lindo maravilhoso e como dizem, tudo de bom nesse país tropical abençoado por Deus.

Chegavam notícias de uma distante Itália tomada pelo COVID-19, mas no Brasil era tudo samba, choro e futebol.

Desfiles, blocos, bailes, trios elétricos. Teve de tudo. Lindo. Lindo. Águias de Ouro ganhou o desfile em São Paulo e Viradouro no Rio. Claro que eu estava na arquibancada sambando, pulando, nos 2 dias de desfile, na apuração quarta-feira torcendo para a Grande Rio (verde/vermelho, minha gente), assim como no desfile das campeãs no sábado seguinte. Quando digo que amo Carnaval, acredite!

E passou o Carnaval de 2020.

Menina, uns dias depois na semana seguinte, acordei toda dolorida. Culpei as minhas 5 décadas e tralalá e a vida mansa que andava a levar em Cascais. Tomei um relaxante muscular e fui para praia.

O Mate e o biscoito Globo não caíram bem. Bateu aquele enjoo chato, mas como ir embora justo agora que todo o mundo tinha chegado? Rio 40 Graus. Aguenta Barbara… Faça jus a seu nome!

Troquei o mate pelas caipirinhas e o enjoo foi melhorando. Ou a tontura aumentando. Sei lá.

Cheguei em casa me sentindo quente. Ahhhh não! Todos esses anos morando no Rio e vou ter febre de sol? Isso é coisa de principiante!

Descansei aquela tarde toda e fui tomar um choppinho com a turma ignorando o meu mal-estar.

Lá no boteco, soubemos do primeiro caso de COVID diagnosticado no Brasil, e coincidentemente no mesmo dia do primeiro em Portugal também. Estava tranquila em ambos os casos, pois foram em São Paulo e no Porto. So far away from Ipanema, right?

Voltei para o meu ap. e tive uma noite do cão. Minha febre voltou. Uma tosse chata e um mal-estar medonho.

Sim, inegavelmente eu estava com o tal COVID19, corona ou o raioqueoparta. Acontece que essa não era uma possibilidade para mim naquele instante, por não reconhecer os sintomas, já que por ser tudo muito recente, a divulgação de prevenção e dos cuidados ainda estava por acontecer. Eu simplesmente não tinha como saber. Quando liguei para o meu filho, alguns dias depois, já mal conseguia respirar.

Fui internada as pressas na UTI. Os protocolos eram inexistentes, até porque, infelizmente, fui a primeira pessoa no Rio a ser entubada, acredita?

Ninguém fuma por 30 anos impunemente e isso sem dúvida, deve ter contribuído para ter tido aquela pneumonia tão agressiva. A falta de ar e a sensação de asfixia são aterrorizantes assim como passar por tudo isso sozinha num leito de UTI. Mesmo sedada a maior parte do tempo sobrou medo e solidão. Os médicos e enfermeiros, apesar de atenciosos, não conseguiam esconder o medo quando se aproximavam. Era tudo muito novo, e ninguém esperava encontrar aquele vírus logo após o Carnaval de 2020.

Vou poupar-lhe dos detalhes desse horror, mas foram quase 20 dias de hospital. Para você ter uma ideia da luta que travei contra o vírus, perdi quase 8 quilos nesse tempo internada.

Sabe quando na minha vida consegui perder 5 quilos que fossem, em 20 dias? Nem no auge das minhas paixões e muito menos das desilusões.

Fato é que quase morri. Saí do hospital ainda precisando de cuidados e assim sendo, desmarquei o meu voo de volta que seria dia 15 de março.

Assim que eu desmarquei, Portugal entrou em estado de calamidade, ou seja, fechou as fronteiras e cancelou todos os voos.

Bem, o que não tem remédio, remediado está. No Brasil fui ficando, tratando de recuperar-me a esperar pelo momento de voltar.

O começo do confinamento foi muito conturbado por conta da minha doença e recuperação de maneira que só comecei a sentir o isolamento de fato, no final de abril.

Abril. Maio. Junho.

Chega, né? Tá bom! Queria voltar para Portugal, pois lá, no começo de junho, eles começaram a voltar ao normal. Fizeram por merecer e já estavam liberados e livres. Ou quase.

Enquanto isso, a coisa no Brasil só piorava.

A TV brasileira fazia questão de contar os seus mortos dentro da minha sala de estar. Muito triste. Essa mesma TV esfregava na minha cara a incompetência e mau-caratismo do ser humano. Desolador. Um enorme desencontro de informações e uma enorme aflição por conta de um total desgoverno.

Confesso que já estava a beirar a depressão, e também, não é para menos com tudo que já tinha passado até ali.

Então comecei a procurar ocupação. Fiz cursos, pães, novenas, lives, meetings, músicas, dei ordem em armário e o resto até que me dei conta da minha imunidade.

Se teve algo de bom nesse episódio todo, foi o fato de eu já estar imunizada. Realmente não sei se valeu o preço altíssimo que paguei, mas uma vez pago, ser livre para poder ir e vir e não sentir aquele medo que paralisa é catártico.

Comecei com caminhadas pelo calçadão e inscrevi-me para possíveis trabalhos voluntários em hospitais, os quais fui chamada para um ou dois apenas. Passei eu mesma a fazer as minhas compras no mercado com visitas diárias a padaria.

Foi aí que os telefonemas começaram. Muitas amigas, mas muitas mesmo, ligaram para avisar que esse vírus poderia ser contraído por mais de uma vez. Insistiam que nada garantia que eu estava imune.

Aquela preocupação em massa intrigou-me demais. Infelizmente, pior que isso, começou a incomodar, pois, sutilmente, passaram a me controlar.

Na-na-ni-na-não! Aqui não violão!

Percebi que tinha a turma da dor de cotovelo, e para essa um abraço!!

Mas tinha outro povo que estava tão apavorado, mas num grau tão grande de histeria que realmente acreditava contra todas as evidências, que eu deveria ficar em casa trancada, mesmo estando imune. A esses, perguntei quando, na opinião deles, estaríamos liberados. Silêncio.

Tenho cá para mim, minhas teorias a respeito, entretanto, todas polêmicas demais para esse Brasil polarizado, ainda mais se for eu, uma portuguesa, a dizê-las.

Foi aí que a TAP, a minha querida TAP confirmou o meu voo de volta para o dia 23 de junho. Ahhhh, que felicidade. Eu acho.

Finalmente o Carnaval de 2020 chegaria ao fim.

Arrumei as minhas coisas numa ansiedade infantil. Ameacei fazer um bota-fora só para colocar terror na mulherada, mas acabei por despedir-me por telefone mesmo só daqueles que tinha certeza não me alertariam para o risco de eu entrar num avião.

Continua…Vai ter outro texto só para contar como foi meu regresso. Ou você pensa que foi fácil?

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Barbara Godinho

Sou uma Portuguesa meio tropicalizada. Moro em Lisboa, já fui curadora de museu e exposições. Hoje trabalho com turismo. Apaixonei-me pelo projeto Dominique e cá estou a colaborar.

1 Comentário
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    hmgy83
  2. Texto maravilhoso! Me identifiquei em gênero, número e grau. Também sou Covid Free! Não passei, graças a Deus, por suas agruras de internação, muito menos UTI. Mas posso imaginar seu sofrimento. Agora, quanto à cobrança, inspeção dos outros e a raiva em todoS quererem me cobrar o tal “fica em cada”, aff! Ninguém merece! Pelo nos não merecemos, né? Viva a imunidade! Fui, peguei e venci!!
    Beijo, Barbara e Passeie Bastante!

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Previsões…Quem acredita nelas?

Ahh, foi uma noite de réveillon  muito gostosa com amigos que resolveram juntar as ceias para que pudessem estar juntos nos últimos minutos de 2019 e principalmente começar 2020 dentro de abraços verdadeiros.

Adoro essas coisas que acontecem meio de última hora e de improviso. Não faz mal o cardápio ter 2 lasanhas, 2 pratos de bacalhau, 4 salpicões. Ninguém pediu para que fossemos criativas na hora de bolar a ceia. O importante é que não faltasse a lentilha, a romã e as 7 ondinhas para pularmos.

Todo mundo de branco, pedindo paz. Bem verdade que eu estava de azul, mas essa também é uma cor para quem está em busca de tranquilidade.

Foi-se o tempo que ficávamos acordados para ver o sol nascer. Atualmente nossas festas de ano novo acabam pouco tempo depois da queima de fogos que aliás são silenciosos hoje em dia. Não acho nem bom nem ruim estar na cama antes das 2h da manhã porque a única certeza que sempre tenho é que as 6h30 estarei de pé. Vai entender meu ciclo de sono, né?

Como sempre, fui a primeira a acordar em casa. Na verdade acho que fui a primeira a acordar no condomínio. Ou talvez na praia inteira.

Coloquei meu biquini e desci correndo pra praia naquele lindo amanhecer.

E aí sim, tive a certeza que fui a primeira pessoa a acordar no mundo!!

O sol estava ameno tentando aquecer a areia antes que eu nela pisasse, o mar tranquilo como que descansando da agitada noite de festas e sem ondas para não fazer barulho, tomando cuidado para não atrapalhar meus pensamentos. Percebi que o verde das montanhas que faz das praias de nosso litoral tão únicas, estava mais verde que de costume num enorme contraste totalmente integrado àquele céu azul cristalino.

Não tinha como me sentir mais feliz, mais próxima do Sublime. A cada respiro um admirado suspiro de encantamento.

Resolvi que precisava me integrar ainda mais com aquilo tudo e entrei no mar deixando que ele me envolvesse.

Estava tão divino e harmonioso que por um momento cheguei a acreditar que eu fazia parte daquilo. Que eu era aquilo tudo.

Talvez por isso me assustei quando vi uma mulher na areia, olhando em minha direção. Ela conseguia me ver, distinguir-me naquele cenário idílico. Eu não era mais uma peça integrada a paisagem deslumbrante. Eu era um elemento a mais. Assim como aquela mulher. Ela também estava sobrando e destoando de toda aquela elegância e equilíbrio de texturas e cores.

Era tanta a insistência de seu olhar que acabei por sair daquele abraço molhado.

Sentei na areia para me secar ao sol, sem me importar no “croquete”em que isso me tornaria, enquanto olhava a mulher contra a luz. Ela de pé com aquele vestido branco, lembrou-me Clara Nunes saindo de uma roda de samba. Ahh, tenho caminhos mentais que nem eu mesma entendo.

Sem cerimônia ela caminhou em minha direção e sentou ao meu lado.

– Feliz Ano Novo – desejei a ela que apenas sorriu.

Sorriu um sorriso triste porém resignado.

E como se fossemos velhas amigas perguntei.

-Por que essa tristeza?

-Porque também gostaria de lhe desejar um feliz ano, mas não sei mentir.

-Oi???

Tenho tentado evitar esse meu “oi?” que considero uma das mais burras expressões já inventadas pelo brasileiro. Mas ele ainda vem em situações de espanto genuino.

Continuando.

-Oi??? O que você quer dizer com isso? Aliás, quem é vc? Onde é sua casa?

-Meu nome é Soraia. Não sou daqui. Também não ficarei. Vou-me embora enquanto posso.

-Como assim Soraia? Não estou entendendo nada.

-Tenho que ir embora agora, enquanto posso, porque em breve teremos nossa liberdade tomada numa batalha inglória – disse -me Soraia com o mesmo sorriso triste.

Olhei para ela tentando imaginar o tanto que ela devia ter bebido naquela madrugada ou se estava sob o efeito de alguma droga.

Para ter o que contar ou simplesmente pelo prazer de ser o irritante contraponto retruquei:

– Se está com medo do trânsito já deveria ter ido embora. Daqui pre frente serão 7 horas presa dentro de um carro.

Foi aí que ela me contou que esse ano a humanidade enfrentaria o caos. Que fronteiras seriam fechadas e os vôos cancelados. Empresas e comércio fechariam. Falou que os governos decretariam que as pessoas não poderiam mais se encontrar, e que deveriam ficar trancadas em casa. Cada um em sua “caverna” por mais de 30 dias.

Olhei para Soraia esperando uma gargalhada depois de seu ponto final.

A gargalhada não veio, nem mesmo um sorriso.

Nesse momento parece que acordaram o vento que resolveu se manifestar mexendo com os cabelos ondulados daquela mulher, como que num cafuné para acalantar seu choro e suas lágrimas.

Aí, você leitor pergunta qual foi minha reação diante daquela cena.

Sou obrigada a confessar naquele momento aquilo tudo foi apenas mais uma história da praia dentre tantas que já coleciono.

Perguntei a Soraia se queria tomar um pouco de água ou comer alguma coisa pois tinha certeza cá com meus botões que aquela mulher estava tendo uma tremenda de uma bad trip.

Voltei para casa pensando se tinha ouvido bem aquelas últimas palavras de despedida.

-Lenha no Coronel!! Lenha no Coronel!

Eram palavras que o vento dissipava, mas que chegaram a meus ouvidos com uma certa clareza.

Entendi tudo naquele momento. Soraia era contra o então presidente que não era exatamente um Coronel, e sim o Capitão.

Affff…Mais uma engajada pra me encher o saco. E essa ainda veio com discurso que insinuava uma guerra nuclear , terceira guerra mundial, sei lá… Que falta de respeito com os neurônios alheios. No primeiro dia do ano! Só eu mesma pra trombar com uma louca dessas.

Voltei para casa e para os amigos sem coragem de comentar tal insólito encontro.

Vida que segue.

Hoje, 100 dias após conhecer Soraia, entendi o que aquela frase queria dizer.

Não era exatamente Lenha no coronel.

Mas sim:

– Compra álcool gel! Compra álcool gel!

bem querido leitor, não era assim que ia terminar essa história. Ia falar do egoísmo mundial, da mesquinharia humana, mas pra quê??? Deixa assim, né?

Vamos torcer para Soraia reaparecer trazendo alguma novidade menos cruel que seja adoçada com muito mel de maneira que tudo isso não passe de literatura de Cordel. Abaixo o álcool em gel!

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Eliane Cury Nahas

Economista, trabalha com tecnologia digital desde 2001. Descobriu o gosto pela escrita quando se viu Dominique. Na verdade Dominique obrigou Eliane a escrever. Hoje ela não sabe se a economista conseguirá ter minutos de sossego sem a contadora de histórias a atormentá-la.

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13 curiosidades sobre Oprah Winfrey

Quem não conhece Oprah? Talvez alguma menina desavisada, mas não há Dominique que se preze, de qualquer nacionalidade que não saiba quem é Oprah.

Americana negra que venceu um zilhão de obstáculos para sobreviver.

Da infância pobre a estupros e abortos. Tem muita história caso você não conheça.

1. Seu nome “Oprah” foi em homenagem à personagem do Livro de Rute do Antigo testamento. Na verdade o nome deveria ser Orpah, mas seus pais resolveram dar uma personalizada no nome bíblico.

2. Aos 17 anos ganhou o concurso de beleza Miss Black Tennessee.

3. A família de Oprah era tão pobre que quando criança, usava vestidos feitos de sacos de batata.

4.Oprah Winfrey tem pelo menos 8% de sangue de nativos americanos

5. Oprah era âncora de um tele-jornal em Nashville quando tinha apenas 19 anos, tornando-a a pessoa mais jovem e a primeira mulher negra a ocupar o cargo.

6.Oprah dublou vários personagens de desenhos animados.

7.Oprah Winfrey entrevistou inúmeras celebridades, incluindo Michael Jackson, cuja entrevista se tornou o quarto evento mais assistido na história da televisão americana, bem como a entrevista mais assistida de todos os tempos, com 36 milhões de telespectadores.

8.Oprah foi fazer cinema e adivinha? Ganhou um Oscar!! Sério. Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante por seu papel em The Color Purple, de Steven Spielberg.

9.Oprah Winfrey é a primeira mulher negra bilionária e a mulher afro-americana mais rica.

10.Oprah odeia chiclete e fica muito irritada quando encontra pessoas que mascam, fazem bola, puxam. (Temos isso em comum. Também)

11.Ela tem medo de balões e acredite se quiser tem até nome para esse medo. Oficialmente conhecido como “globofobia”.

12. Seu primeiro grande luxo foram toalhas de banho Ralph Lauren. “Para uma garota que cresceu compartilhando uma toalha de banho com duas meia-irmãs, ter um armário de luxuriantes toalhas Ralph Lauren de todas as cores, em um apartamento com vista para o Lago Michigan, era realmente uma coisa linda”, disse ela.

13. Entre as 37.000 entrevistas que Oprah fez, talvez a mais desconfortável tinha sido com Elizabeth Taylor. “Ainda é doloroso de assistir”, diz ela, “por muitas razões, incluindo meu cabelo ruim”. Logo antes da entrevista, Liz pediu a Oprah para não perguntar nada sobre seus relacionamentos. “Isso é difícil de fazer quando você é Elizabeth Taylor e se casou sete vezes”, diz Oprah.

As respostas de Liz foram tão breves que Oprah não pôde deixar de provocar: “Você é tão transparente – acaba de contar tudo! Eu declaro, você precisa parar de falar tanto, Srta. Taylor!”

Assista nesse link esse episódio com Liz e outras entrevistas no mínimo constrangedoras. Os motivos são diversos. Vale muito a pena.

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Eliane Cury Nahas

Economista, trabalha com tecnologia digital desde 2001. Descobriu o gosto pela escrita quando se viu Dominique. Na verdade Dominique obrigou Eliane a escrever. Hoje ela não sabe se a economista conseguirá ter minutos de sossego sem a contadora de histórias a atormentá-la.

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