Machado de Assis – Ironias à parte

Estou lendo um livro de contos de Machado de Assis. É um daqueles livros que eu tento economizar para não acabar. Seu texto impressiona por vários motivos, mas principalmente porque é de uma atualidade contundente.

Existe em seus contos, sem exceção, uma dramaticidade irônica ou por vezes uma ironia dramática. Sim, sim, são coisas diferentes, entretanto, sutilezas e entrelinhas tornam os desfechos magníficos, sem falar das expressões bordadas que fazem pensar até o mais distraído dos leitores. Quer ver um exemplo?

“A vida é uma enorme loteria; os prêmios são poucos, os malogrados inúmeros, e com os suspiros de uma geração é que se amassam as esperanças de outra.”

Do conto, Teoria do Medalhão, um de meus preferidos até agora.

Injusto dizer isso, uma vez que amei A Cartomante, A Chinela Turca, Mariana, Cantiga de Esponsais e olha que estou no começo do livro.

A ironia contida em Teoria do Medalhão é sublime, coisa digna de mestre. Fiquei pensando para quem e por que Machado de Assis escreveu aquela cutucada. Seja quem for, deve ter atingido o fígado.

Trata-se de um pai a aconselhar seu filho, que completa 21 anos, profissionalmente. Segundo o discurso paterno, para se tornar um medalhão (pessoa de destaque), o filho deveria renunciar à possibilidade de ter ideias próprias evitando qualquer atividade que propiciasse o movimento independente do intelecto. Sempre usar frases feitas do mesmo modo que pensamentos já consolidados. Nunca, em tempo algum, causar estranheza em suas falas para que jamais fosse destacado pelo diferente.

“Longe de inventar um ‘Tratado científico da criação dos carneiros’, compra um carneiro e dá-o aos amigos sob a forma de um jantar, cuja notícia não pode ser indiferente aos seus concidadãos.”

Machado de Assis, provavelmente, fala aqui de políticos ou até mesmo de figuras da sociedade, que aquiescem mudas, sem nunca se posicionarem inclusive diante do inescrupuloso. Aponta, com sua ironia impar, a mediocridade reinante no século XIX. Que bom que estamos no século XXI, né?

Ainda na mesma década, do mesmo século, apenas 3 anos depois, o autor escreve A Cartomante, um conto de humor cáustico, com final imprevisível com um narrador sutilmente manipulador.

A história começa com Rita contando a seu amado, Camilo, que esteve em uma Cartomante. A primeira coisa adivinhada, era que existia um bem-querer, mas que havia também por parte dela o medo de ser esquecida. Garantiu-lhe a vidente que isso não aconteceria.

Camilo, apaixonado, riu muito da ingenuidade de sua amada, mostrando-se totalmente cético em relação a esse tipo de recurso.

Rita é casada, porém, não com Camilo, mas com Villela, portanto, é um caso de adultério e para piorar, os homens são amigos próximos o que só deixa a trama mais dramática.

Um dia, Camilo recebe bilhete do amigo/marido para que fosse a seu encontro com urgência. Camilo sabia. Camilo tinha certeza de que uma tragédia se avizinhava, contudo, no caminho, ao passar pela casa da tal cartomante, resolveu parar e contrariando sua razão e por puro desespero foi consultar-se.

A mulher fez seu trabalho com esmero, e falou o que o cliente queria ouvir, restaurando-lhe a desejada segurança de que tudo estava bem.

Mas não estava. Seus instintos primários estavam certos. A Cartomante era uma grande picareta e seu affair havia sido descoberto.

Morreu ele, morreu Rita.

Isso a vidente não previu. Sabe por quê? Porque ela só consegue ver o que contamos para ela.

Isso valeu para os séculos XIX, XX e continua valendo em XXI, cada vez mais.

Você chegou a ler um texto sobre esse assunto que escrevi há muito tempo?

Eliane Cury Nahas
Eliane Cury Nahas

Economista, trabalha com tecnologia digital desde 2001. Descobriu o gosto pela escrita quando se viu Dominique. Na verdade Dominique obrigou Eliane a escrever. Hoje ela não sabe se a economista conseguirá ter minutos de sossego sem a contadora de histórias a atormentá-la.

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