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Kai

Sabe dessas coincidências? Quando a vida traz gente de seu passado, de sua adolescência para seu momento atual? Pessoas que você lembra do nome, sobrenome, da carinha, da voz, mas que não vê há 30, 40 anos mais ou menos.

Pois é, a pandemia fez com que eu soubesse, que no prédio em que resido há mais de 15 anos, alguns andares abaixo, mora uma amiga de antigos verões. Veja você em que mundo vivemos.

Ela mudou para o prédio faz um tempo, entretanto nunca nos cruzamos e, aliás, continuamos sem nos cruzar. Soubemos uma da outra pelo grupo de WhatsApp formado pelo síndico, para que pudéssemos tomar decisões rápidas nesses tempos estranhos.

Bem, logo que vi seu nome, liguei, identifiquei-me e lembramos nossas histórias, falamos, rimos, tudo por telefone. Prometemos que nos encontraríamos assim que o prefeito deixasse. Acabei por sair de São Paulo em junho para cumprir a quarentena em outros ares e foi aí mesmo que não nos vimos mais.

Qual não é minha surpresa, quando essa semana recebo uma delicada mensagem dessa vizinha.

Oi Eliane tudo bem? No fim nem nos encontramos mais aqui no prédio. Não aguento mais essa pandemia, máscaras e etc. Tenho saído e feito o que dá, acho que adquiri imunidade própria! Kkk
Mas estou pra te falar que uma amiga do prédio vizinho está ouvindo seu cachorro chorar toda noite e está com pena
, pois não sabe se ele está doente ou com medo de ficar sozinho… Enfim, como ela falou tanto… Estou só te repassando. Talvez vc nem ouça pois fica no andar de baixo, sei lá. Bjsss e desculpe me intrometer.

Muito fofa. Não entrou direto no assunto até porque imagino como foi difícil para ela mandar essa mensagem, afinal, o assunto é delicadíssimo uma vez que estamos falando de maus-tratos de animais. Afff. Tadinha.

Agora, é óbvio que ela não me conhece tão bem, pois não há nesse universo, pessoa próxima que não saiba de meu “medo” de bichos. Não sei se é bem medo, talvez seja falta de afinidade, peninha, é difícil de definir.

O negócio é que isso é algo notório e muito característico de minha pessoa. No final das contas, todo mundo tem alguma peculiaridade ou característica própria, por exemplo: quando você vai receber fulana X, você sabe que não pode fazer nada com camarão, pois ela alérgica até ao cheiro. Quando você sai com a amiga Y, você não pede suflê, pois ela não suporta cheiro de ovo. Quando combina uma viagem com o cicrano W, não propõe nada que vá muito além da Ponte Pênsil (a de São Vicente), pois sabe que ele odeia ficar longe de casa muito tempo. E da mesma forma, todo mundo sabe que quando a Eliane vai visitar, é melhor prender o Thor. Simples assim.

Então, isso posto, é claro que dei um desconto para minha amiga, pois era claro seu desconhecimento de meus hábitos e da minha casa. Respondi educadinha também.

Querida, boa noite, tudo bem? Estou fora de São Paulo há 1 mês. Muito obrigada por avisar, mas eu nunca tive cachorro.
Aliás, animal algum.

Relendo minha própria mensagem agora, surge-me uma dúvida. Por que será que eu agradeci ela ter me avisado de algo que não existia? Bem, sei lá. Penso que foi no calor da coisa, e na ânsia de responder rapidamente, eximindo-me de qualquer responsabilidade pelo animal mal tratado, e ainda querendo, talvez, quem sabe, insinuar que a amiga de minha amiga era um tantinho desinformada.

Bem, foi eu mandar a mensagem, para me dar um estalo.

Liguei para meu marido.

– Tudo bem?

– Oi!! Tudo ótimo.

– Me diz uma coisa, tem algum cachorro em casa?

Silêncio. Um frio na espinha me percorreu.

– Responde!

-Em casa, em casa, não.

-Você tem 5 segundos para explicar.

-Eu não tenho nada a ver com essa história. O cachorro é dos seus filhos e está do lado de fora de casa. Fale com eles.

Oi? Como assim? Então, não só tinha um cão em casa, a revelia, mas estava sendo mal tratado? Como???

Encaminhei a mensagem que eu recebi no grupo da família e escrevi na sequência:

ElianeC: Eu não admito receber uma mesnagem dessas!! é para isso que vcs querem ter cachorro?
VCS SÓ PODEM ESTAR BRINCANDO!!

Silêncio.

Diante da falta de resposta, virei a artilharia para o Whatsapp do Traidor Mor. Meu marido, é claro. Falei um monte! O que ele respondeu? N-A-D-A!

Ninguém me ligou. Niguém escreveu uma única palavra.

O que você faria no meu lugar? Além de pedir desculpas para a vizinha que eu peço aqui publicamente. Adriana querida, so sorry!!

Dominique

Nasceu em 1964. Ela tem 55 anos, mas em alguns posts terá 50, 56, 48, 45. Sabe porque? Por que Dominique representa toda uma geração de mulheres. Ela existe para dar vida e voz às experiências, alegrias, dores, e desejos de quem até pouco tempo atrás era invisível. Mas NÓS estamos aqui e temos muito o que compartilhar. Acompanhe!

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Reaprender a Dançar

Amor Escolhido Capítulo 4

Passam-se os dias, a epidemia avança no mundo e no Brasil. Fazia um mês que Dominique tinha saído de casa. Começava a mostrar alguns sinais de depressão, mesmo tendo recomeçado a fazer sua terapia online. 

Naquela noite, secando os cabelos, olhou-se no espelho. A raiz estava branca, coisa que nunca permitiu acontecer, mas agora não tinha como ir ao salão ou deixar alguém entrar em casa. Estava abatida, com olheiras. Passou um pouco de maquiagem para se sentir melhor. Continuava sendo uma mulher atraente mesmo naquele estado. 

Ao chegar na sala levou um tempo para entender o que estava acontecendo. Primeiro se acostumou a penumbra. Penumbra? Velas?

‒ Acabou a força? – Perguntou sem se dar conta que tinha acabado de usar o secador.

Cassio estava em pé esperando por ela. Vestia calças bege e camisa azul, aquela que o deixava um gato. Há quanto tempo não o via de roupa. Meu Deus, que homem lindo, pensou Dominique. O tênis que calçava destoava do visual, mas tudo bem, vai…

Ele estendeu a mão em sua direção e puxou-a para perto de si. Nesse momento, ela percebeu que tocava uma música. Aquela música!!! Olhou-o nos olhos. Sentiu que ele a apertava contra si com a pouca força restaurada em seu braço direito. Dançaram. Sentiram um ao outro. Abandonou-se nos braços dele e, pela primeira vez naquele tempo todo, sentiu paz. 

Jantaram e conversaram como faziam antes. Assuntos divertidos, conversas deliciosas. Mas onde estava Moacyr? Cassio havia dado folga para ele aquela noite.

‒ Ele não pode sair daqui. Você está louco? Ele pode ter contato com o vírus. Não podemos correr o risco.

 ‒ Podemos sim, meu amor. Eu posso. Ponderei os riscos e decidi que valia a pena uma noite só para nós. Ele voltará amanhã. Emprestei meu carro. 

Conversaram muito. Choraram. Namoraram. Lembraram o que era felicidade…  Dominique não precisou recorrer a nenhuma memória, como fizera ao longo deste mês, para saber porque estava com aquele homem há 10 anos. 

Cassio teve uma recuperação fenomenal, mas, aparentemente, ficaria com uma pequena sequela na mão direita. Só isso? Grande coisa! Diz ele o tempo todo. Já fazia os exercícios sozinho ou só com a ajuda de Moacyr – no geral, já estava bem independente. 

Ainda era cedo para que ele voltasse a trabalhar, contudo estava despreocupado, pois seus sócios franceses comandavam remotamente o escritório.

Seus projetos pioneiros na área de sustentabilidade chamaram a atenção desse escritório francês de arquitetura e, após algumas idas e vindas, acabaram se associando em 2012. 

Foram muitas as viagens de Dominique a Paris com a desculpa de exposições de móveis e objetos ou materiais de construção. Lá encontrava Cassio, e tentavam viver uma semana de vida normal, sem se esconder, sem paranoias. 

Claro que passaram por grandes apuros ao longo desses 10 anos. Não foram nem uma, nem duas vezes. Foram inúmeras as situações em que cruzaram com conhecidos no Brasil ou em Paris. Sabem que, provavelmente, deixavam pistas pelo caminho, porque, afinal de contas, não existe crime perfeito. Se seus parceiros desconfiavam do caso deles, fingiam não saber de nada, pois nunca nenhum deles foi atrás.

Agora Dominique não teria mais o que esconder. Poderia viver seu romance à luz do dia.

 A hora da coletiva do Ministro da Saúde na TV tinha virado o ponto alto do dia, quase que uma sessão pipoca. Os 3 se preparavam minutos antes em seus lugares na expectativa das novidades e dos números. Guilherme, a essa altura, já tinha ganhado projeção nacional por estar diariamente ao lado do ministro e ser ele a divulgar estatísticas e previsões. Moacyr entendeu que Dominique conhecia aquele homem, mas achou que era um amigo próximo ou parente. Não deram maiores explicações.

Dominique surpreendeu Cassio olhando para ela algumas vezes, enquanto Guilherme falava.  Talvez fosse evidente o orgulho que sentia. Ou seria saudade? Nem ela sabia o que estava sentindo. 

Os dias foram passando. Um de seus filhos pegou COVID-19 quase matando Dominique de preocupação, sem que ela pudesse fazer qualquer coisa a respeito. Recuperou-se rapidamente, apesar de dizer que foi a pior “gripezinha” que já teve. 

Quem parece que também pegou essa “gripezinha” foi o Presidente da República, mas os exames dele sempre deram negativo. Vai entender. 

Entra Ministro, sai Ministro, e Guilherme lá. Firme! 

Nos últimos tempos, evitavam o noticiário, pois Cassio andava perdendo o controle de tanto nervoso que passava com o descontrolado governo brasileiro. 

Tudo acontecia sem que medidas concretas fossem tomadas. O Brasil já era o epicentro mundial do coronavírus, e o presidente preocupado com sua reeleição. Governadores e prefeitos idem. Impressionantemente, secretários de saúde superfaturando respiradores e levando propina. A economia em frangalhos.

Cassio esbravejava, gritava. Escrevia nas redes sociais. Isso também era um sinal de que ele já estava bem. Devolveram a cama hospitalar e, enfim, chegou o dia de dispensarem Moacyr. Muita emoção, porque, além de terem se apegado a ele, aquilo também vinha carregado de significados.

Apesar da melhora de Cassio, a quarentena continuava para eles e para todos. As coisas pioravam, mesmo após tanto tempo de confinamento. As informações continuavam desencontradas, a população dividida e os nervos à flor da pele. 

Porém, para eles tudo era mais leve do que para os outros, pois ela já tinham passado pelo pior. Tanto que Dominique se deu ao luxo de começar a se sentir enjoada das poucas roupas que tinha no apartamento. Vinha usando nesse tempo todo as mesmas 8 peças. Adaptou algumas do namorado para ela. Mas estava sentindo falta de seus cremes, de seus moletons, enfim, de suas coisinhas. 

Resolveu que daria um pulo na casa dela e aproveitaria para ver se estava tudo em ordem, até porque a casa estava fechada há quase dois meses com Guilherme em Brasília e sua funcionária na casa dela. Não queria nem pensar no pó e no estado que encontraria as coisas. Nossa! Que aventura colocar a máscara e sair do apartamento depois daquele tempo todo. Quando saiu da garagem, o céu se descortinou ofuscando-a com aquela claridade cheia de vida, e Dominique inundou-se de alegria. Abriu as janelas, respirou fundo e dirigiu admirando cada árvore, cada esquina, cada canteiro que encontrava em seu caminho. 

Parou o carro na rua, e entrou em casa pela porta da frente evitando, assim, a trabalheira de abrir o portão da garagem. 

Quando pisou naquele lugar tão familiar, sentiu-se estranha. Parecia que fazia muitos anos que não estava ali, muitas vidas. As coisas estavam exatamente como havia deixado. 

Ficou algum tempo na escuridão da sala fechada, quando resolveu abrir as cortinas e os vidros para arejar a casa. De repente, escuta alguém gritando: 

            ‒ Quem está aí? Quem está aí?

Era Guilherme.

Ele não estava em Brasília? Tinha visto ele ontem na TV. Dominique olhou para porta e calculou se daria tempo de sair correndo da casa sem que ele a visse. Sacudiu a cabeça como que para afastar aquele pensamento, tomou coragem e respondeu:

             ‒ Sou eu Gui, Dominique.

Ela escuta os tão familiares passos do marido descendo as escadas e calcula direitinho o tempo que ele levará para chegar até a sala.

              ‒ Oi

O coração de Dominique dispara ao vê-lo. Estava com saudade, quem diria!! Não conseguia decifrar o que ele estava sentindo. Será que ainda estava com muita raiva? Vai me perdoar algum dia? Já está em outra?

‒ Olá. Tenho visto você nas coletivas do ministério. Estou muito feliz com seu sucesso, de verdade. 

‒ Obrigado. O que você está fazendo aqui?

‒ Vim pegar algumas roupas. 

‒ Não poderia ter me avisado antes? – Falou ele num tom bem mais ríspido que o normal.

‒ Desculpe Guilherme. Imaginei que estivesse viajando.

‒ Imaginou errado. Voltei ontem à noite. Essa casa também é sua, eu sei. Mas você não pode ir entrando desse jeito.

‒ Você tem razão. Me desculpe. Isso não acontecerá novamente.

Ele andou até a cozinha dando a entender que Dominique podia, naquele momento, subir para pegar suas coisas.

Ela entrou no quarto do casal, evitou olhar a cama, os porta-retratos cheios de passado. Abriu seu armário e, mecanicamente, pegou um punhado de peças de roupa enfiando numa sacola de loja que achou numa gaveta. Não via a hora de ir embora, estava se sentindo uma intrusa. 

Quando desceu, não encontrou mais Guilherme em casa. 

Voltou para o apartamento quieta, evitando o olhar de Cassio que esperou apenas o momento certo para perguntar o que tinha acontecido naquela sua saída.

Contou sobre o rápido encontro com o marido. 

Ele perguntou se falaram sobre a separação e os próximos passos.  

‒ Não. Claro que não. Sequer contamos para os meninos – Respondeu ela num tom mais áspero que o necessário. 

‒ Dominique nique nique…. Calma. Ok. Mudemos de assunto.

Mas ela não estava a fim de papo. Ligou a TV no noticiário apenas para não ter que conversar e fingiu estar entretida naquelas notícias tão tristes e tão iguais. Nisso, descobriu que outro Ministro da Saúde tinha sido demitido. 

Provavelmente, foi esse o motivo da volta de Guilherme. Então não voltaria mais para Brasília? 

Enquanto Cassio esbravejava horrorizado com o descontrole de um país sem direção no meio de uma Pandemia, ela pensava no encontro da manhã, e em suas implicações. 

Uma hora isso tudo vai acabar. Ela não podia se esconder pro resto da vida.

Os filhos já andavam desconfiados de que algo estava errado, mas com o pai morando em Brasília, tudo tinha justificativa. Agora com ele de volta,  ficará mais difícil explicar.

Mas por que não tinham contado para eles ainda? Já tinha se perguntado isso algumas vezes, porém preferiu não dar ouvidos à resposta.

Na manhã seguinte, Dominique foi acordada com Cassio beijando-a suavemente. Entendeu o que aquilo significava. Depois que a cama hospitalar saiu do meio da sala e da vida deles, passaram a dormir na mesma cama, mas nada tinha acontecido além do aconchego do calor da proximidade. Ela tinha medo de colocar pressão num assunto tão delicado. Foi um sexo diferente daquele que conheciam, cheio de vigor e paixão. Eles experimentam agora o amor do cuidado. 

O toque de Cassio sempre fez Dominique perder o chão. Com ele, descobriu o verdadeiro significado da tal química que tanto falam por aí. Explorou todos os cantinhos escondidos de sua sexualidade e satisfez as dele. Não sabia onde começava o desejo de um ou de outro. A comparação com seu marido, apesar de injusta, era inevitável. Com o passar dos anos, começou a ter vergonha de algumas coisas e ousadias diante de Guilherme. Nunca entendeu direito qual foi o processo para que isso acontecesse, mas com certeza “It needs 2 to Tango” ou seja, não fez nada sozinha nem para o bem nem para o mal. 

Dominique

Nasceu em 1964. Ela tem 55 anos, mas em alguns posts terá 50, 56, 48, 45. Sabe porque? Por que Dominique representa toda uma geração de mulheres. Ela existe para dar vida e voz às experiências, alegrias, dores, e desejos de quem até pouco tempo atrás era invisível. Mas NÓS estamos aqui e temos muito o que compartilhar. Acompanhe!

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Machado de Assis – Ironias à parte

Estou lendo um livro de contos de Machado de Assis. É um daqueles livros que eu tento economizar para não acabar. Seu texto impressiona por vários motivos, mas principalmente porque é de uma atualidade contundente.

Existe em seus contos, sem exceção, uma dramaticidade irônica ou por vezes uma ironia dramática. Sim, sim, são coisas diferentes, entretanto, sutilezas e entrelinhas tornam os desfechos magníficos, sem falar das expressões bordadas que fazem pensar até o mais distraído dos leitores. Quer ver um exemplo?

“A vida é uma enorme loteria; os prêmios são poucos, os malogrados inúmeros, e com os suspiros de uma geração é que se amassam as esperanças de outra.”

Do conto, Teoria do Medalhão, um de meus preferidos até agora.

Injusto dizer isso, uma vez que amei A Cartomante, A Chinela Turca, Mariana, Cantiga de Esponsais e olha que estou no começo do livro.

A ironia contida em Teoria do Medalhão é sublime, coisa digna de mestre. Fiquei pensando para quem e por que Machado de Assis escreveu aquela cutucada. Seja quem for, deve ter atingido o fígado.

Trata-se de um pai a aconselhar seu filho, que completa 21 anos, profissionalmente. Segundo o discurso paterno, para se tornar um medalhão (pessoa de destaque), o filho deveria renunciar à possibilidade de ter ideias próprias evitando qualquer atividade que propiciasse o movimento independente do intelecto. Sempre usar frases feitas do mesmo modo que pensamentos já consolidados. Nunca, em tempo algum, causar estranheza em suas falas para que jamais fosse destacado pelo diferente.

“Longe de inventar um ‘Tratado científico da criação dos carneiros’, compra um carneiro e dá-o aos amigos sob a forma de um jantar, cuja notícia não pode ser indiferente aos seus concidadãos.”

Machado de Assis, provavelmente, fala aqui de políticos ou até mesmo de figuras da sociedade, que aquiescem mudas, sem nunca se posicionarem inclusive diante do inescrupuloso. Aponta, com sua ironia impar, a mediocridade reinante no século XIX. Que bom que estamos no século XXI, né?

Ainda na mesma década, do mesmo século, apenas 3 anos depois, o autor escreve A Cartomante, um conto de humor cáustico, com final imprevisível com um narrador sutilmente manipulador.

A história começa com Rita contando a seu amado, Camilo, que esteve em uma Cartomante. A primeira coisa adivinhada, era que existia um bem-querer, mas que havia também por parte dela o medo de ser esquecida. Garantiu-lhe a vidente que isso não aconteceria.

Camilo, apaixonado, riu muito da ingenuidade de sua amada, mostrando-se totalmente cético em relação a esse tipo de recurso.

Rita é casada, porém, não com Camilo, mas com Villela, portanto, é um caso de adultério e para piorar, os homens são amigos próximos o que só deixa a trama mais dramática.

Um dia, Camilo recebe bilhete do amigo/marido para que fosse a seu encontro com urgência. Camilo sabia. Camilo tinha certeza de que uma tragédia se avizinhava, contudo, no caminho, ao passar pela casa da tal cartomante, resolveu parar e contrariando sua razão e por puro desespero foi consultar-se.

A mulher fez seu trabalho com esmero, e falou o que o cliente queria ouvir, restaurando-lhe a desejada segurança de que tudo estava bem.

Mas não estava. Seus instintos primários estavam certos. A Cartomante era uma grande picareta e seu affair havia sido descoberto.

Morreu ele, morreu Rita.

Isso a vidente não previu. Sabe por quê? Porque ela só consegue ver o que contamos para ela.

Isso valeu para os séculos XIX, XX e continua valendo em XXI, cada vez mais.

Você chegou a ler um texto sobre esse assunto que escrevi há muito tempo?

Eliane Cury Nahas

Economista, trabalha com tecnologia digital desde 2001. Descobriu o gosto pela escrita quando se viu Dominique. Na verdade Dominique obrigou Eliane a escrever. Hoje ela não sabe se a economista conseguirá ter minutos de sossego sem a contadora de histórias a atormentá-la.

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O Passageiro que sabia demais

Escutei ontem uma história deliciosa, contada por uma amiga, comissária de bordo.

Contou-me Dominique, que num voo que cruzava o Atlântico, logo depois do serviço de bordo, começou uma turbulência daquelas de fazer rezar até o agnóstico.

Acostumados com esse tipo de intercorrência, ao ouvirem o aviso do comandante, os tripulantes rapidamente recolheram o serviço para que também se prendessem aos cintos de segurança em seus bancos.

Sabiam que era uma situação de estresse e conseguiam reconhecer de longe aquele passageiro que estava imobilizado pelo pânico, o que tentava segurar a aeronave no ar com a força de seus dedos nos braços da poltrona, o que orava, o novo na fé, o inabalável e o nervosinho…

Ah! o passageiro nervosinho, é o mais perigoso. Quando calhava de um deles estar na poltrona em frente aos comissários…Ihhhh…aí haja paciência.

Foi o que aconteceu naquela viagem.

Um homem, de seus lá 60 anos começou a ter ataques em sua poltrona. Já tinha reclamado da temperatura a bordo, do vinho servido e da falta da água Evian.

Agora, no meio da turbulência, aquele senhor gritava que era tudo barbeiragem do piloto, que estavam passando por aquilo desnecessariamente.

Minha amiga, experiente que só, sabia que pelo bem e calma dos outros passageiros tinham que calar aquela anta a qualquer custo. Todos tinham o direito de ter medo, mas não de insultar ou instaurar o pânico.

Com um tom de voz muito sereno, começou a conversar com o elemento e perguntou na voz mais meiga possível, por que julgava ser o Comandante inapto.

– Essa turbulência poderia ter sido desviada, mas já que ele não o fez, ele precisa baixar a altitude.

– Ora veja. O senhor é piloto também?

– Não sou!! Nem preciso ser, entretanto já fiz essa viagem mais de 30 vezes e sei do que estou falando. Essa pessoa que está conduzindo a aeronave precisa descer a altitude. Já.

Agora eu te pergunto cara leitora e eventual passageira, tem coisa mais linda? Um sujeito querer mandar um recado desses para o piloto do avião?

Olha, já vi sabichões de todas as espécies, engenheiros de obras prontas, termo, aliás, que adoooroooo, mas como esse aí, sinceramente, nunca. Fiquei impressionadíssima com a audácia!

Porque, vamos combinar, criticar as escolhas do técnico na escalação da seleção de futebol, ou esculachar o voto de um Ministro do Supremo, chamando-o de ignorante, apesar da soberba não é a mesma coisa que criticar a escolha do piloto em relação à altitude em que o avião voará. Tem que ser O Sabichão.

Assim que se sentiu minimamente segura para levantar, Dominique entregou ao reclamante uma caneta e um bloquinho pedindo que ele escrevesse sua sugestão para que ela levasse à cabine.

Era uma maneira de acalmá-lo e finalmente, quem sabe, fazê-lo calar para não exaltar ainda mais os ânimos dos outros passageiros.

E não é que ele teve a pachorra de escrever mesmo? Em tom quase que imperativo, apontava que o Capitão deveria escapar da turbulência descendo a 28.000 pés.

Oh my God.

Num dos intervalos da intermitente e persistente turbulência, Dominique vai à cabine entregar as “orientações” do passageiro.

Volta depois de um tempo, e entrega a ele um outro papel dobrado

-O comandante agradeceu e pediu para entregar-lhe isso.

Voltou para seu lugar rapidamente a tempo de vê-lo desdobrando e lendo a mensagem do comandante:

“Desci. E agora?”

Não foi maravilhosa a resposta? Espirituosa, relativamente educada, cínica sem deixar margens para continuação ou reclamação.

Contou-me Dominique, que difícil mesmo foi segurar a gargalhada nessa hora.

Não sei se saberia lidar com uma situação como essa, mas Dominique e o Capitão souberam.

História baseada em fatos reais.

Leia Também: Ela é Piloto de Avião!

Dominique

Nasceu em 1964. Ela tem 55 anos, mas em alguns posts terá 50, 56, 48, 45. Sabe porque? Por que Dominique representa toda uma geração de mulheres. Ela existe para dar vida e voz às experiências, alegrias, dores, e desejos de quem até pouco tempo atrás era invisível. Mas NÓS estamos aqui e temos muito o que compartilhar. Acompanhe!

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Minhas Playlists no Spotify para Dominiques

Você tem Spotify? Oba, que legal. Você não tem? Ahh menina, precisa ter porque isso foi uma das melhores invenções desse mundo digital.

Procurar e achar quase qualquer música do universo, poder escutar onde e como quisermos. Pelas coisas que escutamos, o algorítimo nos mostra coisas parecidas novas ou não. Sem falar na playlist que o próprio App monta pra gente toda semana com “Descobertas da Semana” .

MA_RA_VI_LHO_SO. Se você gosta de música, óbvio.

Então pede para alguém te ensinar a usar. pede de presente de Natal (oppss, too late). Pede de aniversário, dia das mães ou como um favor. Esse é o tipo de coisa onde contrair uma dívida vale a pena.

Tem outra coisa muito legal nesse app. Você pode ouvir minhas músicas, ou minhas playlists.

Playlist pronta e legal é mamão com açucar, vai? Ter listas prontas de músicas para ocasiões diferentes é tudibão.

Gosto é realmente relativo, mas Dominiques geralmente não têm um gosto musical tão discrepante assim, e é por isso que vou disponibilizar para você minhas listinhas. Ahhh, tenho uma para ocasião.

Quer ver? Olha as listas do meu Spotify.

Animar HH – Para animar nossos Happy Hours, e ainda assim podermos conversar!

Francesinhhas – Adoro música francesa, ainda mais se forem contemporâneas.

Jazz com elas – Jazz cantado por vozes femininas. Por que vozes femininas? Porque eu gosto, oras..

ME GUSTA – Eu gosto em espanhol. Claro que você sabia, mas sabia que essa é uma lista só com músicas em espanhol?

ALMA MINHA – Tá ficando mais difícil, né? Lembra de nossas aulas de literatura? Isso!! Aqui são músicas portuguesas

Salve Jorges– Sim Jorges com s no final. Todas as músicas tem como tema Jorge ou são cantadas por um. Por que? Ahhh, quem sabe sabe.

Bonitinha, mas.….- Escute duas músicas que logo entenderá.

De cortar os Pulsos. – Poderia ter chamado essa lista também De doer o dente, ou coisa assim. Tem dia e hora certa para escutá-la.

JUST BECAUSE – hummmm na verdade são músicas que não se encaixam em outras playlists.

Affffff, você tem música aqui pra muito mais que um final de ano. Isso se gostar de meu gosto. Ahhhh, mas nesse caso sou arrogante pra caramba. Não tem como não gostar. A não ser que você seja um de meus filhos.

Leia também:

Gente que não vive sem música

Eliane Cury Nahas

Economista, trabalha com tecnologia digital desde 2001. Descobriu o gosto pela escrita quando se viu Dominique. Na verdade Dominique obrigou Eliane a escrever. Hoje ela não sabe se a economista conseguirá ter minutos de sossego sem a contadora de histórias a atormentá-la.

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  1. Muito obrigada por compartilhar essa riqueza. Estou seguindo lá. Sou analfabeta nesse App. Um 2020 de muitas realizações. Sucesso!

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