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Trabalhando com Millennials há 20 anos, eu, uma Dominique

Fui muito delicada no título desse texto chamando de Dominique uma “cinquentona” . Decerto na linguagem corrente o que diriam pelos cantos do co-work em que trabalho hoje é: uma tia que trabalha há 20 anos com moçadinha, com a galera ou com xóvens – claro que xóvens é o jeito que eu acho para descontar um pouco de meu fel.

Fel talvez não seja a palavra adequada nem tampouco amargura, até porque fui eu que decidi trabalhar com tecnologia no início desse século.

Agora me diz, o que uma mulher com seus 36 anos tinha que se meter com streaming no anos 2000? Um mercado em princípio masculino, senão exclusivamente e onde quem detinha o conhecimento eram os moleques. Vale dizer que o conhecimento também era novíssimo e qualquer um poderia falar o que quisesse, fato ou não, porque não haveria muito como checar.

Mas como não tenho noção do perigo nem senso do ridículo, nunca achei que essa não fosse uma área para mim, pois se eu tinha interesse e se me entusiasmava era só eu ir atrás.

Primeiro passo naquele distante ano de 2001, foi começar entender o vocabulário já que as palavras eram todas muito diferentes do meu economês: bits, Bytes, servidor, banda, conectividade, embedar, bitrate, ondemand, multirate, buffering, codecs.

Nunca tinha ouvido essas palavras na minha vida.

Agora, vamos combinar que a a ignorância por vezes é uma benção, mas reconhecer-se ignorante é libertador.

A primeira coisa que falava numa reunião era que não entendia nada de tecnologia. Que eles, os presentes, me desculpassem se falasse alguma bobagem. Os risinhos eram inevitáveis.

Contudo, essa minha declaração inicial fazia com que os caras se desarmassem e como bons samaritanos explicavam o assunto com a paciência de quem fala com uma criança de 5 anos. Respondiam às minhas perguntas que sinceramente nem sei se eram tão idiotas assim, uma vez que tudo era novo.

Desse jeitinho fui perguntando, perguntando, perguntando, até o dia que percebi saber tanto ou mais que eles, mesmo pedindo desculpas por alguma bobagem que eventualmente falasse.

Foi aí que fiz uma grande descoberta. Aquilo tudo era terra de ninguém. Claro que um ninguém no masculino. Mas de ninguém. Aqui um parênteses: além de ser velha para os padrões, tinha o agravante de ser mulher. Se você acha que as empresas e pessoas fazem pouco pela mulher, você não imagina como era no passado, apesar disso nunca ter me incomodado ou me impedido de nada.

Um dia chamei o pessoal da Telefonica para me explicar como bilhetar banda (não queira nem saber o que é isso, não precisa). Eles me explicaram.

Aí, no dia seguinte, chamei o povo da Dédalus (outra empresa). Os meninos me falaram uma outra coisa completamente diferente.

Tive a pachorra de chamar a Diveo (nem perca seu tempo) e pasme. Uma terceira maneira.

Pra resumir, ninguém sabia o que estava falando e ninguém tinha ferramentas adequadas para medir o consumo de banda naquela altura. Era tudo meio que chute.

Aí deitei e rolei. Sério!

Economista que sou, acostumada com planilhas e oriunda do mercado financeiro, aprendi a fazer as contas, aprendi como funcionava a brincadeira. Sempre na minha santa ignorância e pedindo desculpas por possíveis bobagens.

Num determinado momento, alguns anos depois, passei a ser respeitada por meu conhecimento no mercado de streaming, veja só que ironia.

E aí você me pergunta: – E os tais Millennials que escrito lá em cima?

– Ahhh – eu te respondo – eles sempre comigo. Quem você acha que trabalhava na CdClip? 15 (quinzeee) Millennials em começo de carreira. Trabalhando com 15 Millennials imberbes, a CdClip foi referência de mercado por mais de 10 anos na área de streaming.

No final das contas e dos anos, acabamos nos entendendo muito bem na maioria das vezes. Respeitamos nossos espaços e sabíamos exatamente porque estávamos ali: trocávamos dinheiro por trabalho. Sempre com muito amor, claro.

Alguns desses meninos viraram adultos. Outros não.

Posso dizer de boca cheia que ensinei muitos deles a trabalhar. Isso me dá um prazer maior que tudo. Ver que o R. abriu uma startup unicórnio vencedora, que o F. é um estilista famosíssimo dono de uma marca poderosa, que o E. abriu uma bem sucedida produtora que eventualmente até nos presta serviços e que a Y. é Head de Ux de uma empresa digital de enorme porte, me enche de genuína felicidade. Esses são alguns dos “pirralhos” brilhantes dentre muitos. Todos eles adultos hoje. (Desculpe se deixei de falar de você especialmente)

Daqueles que não cresceram, tive poucas notícias. Vai ver por isso mesmo.

Muita coisa aconteceu de 2000 para cá, muita coisa mudou mas parece que os Millennials a cada ano chegam ao mercado mais caricatamente Millennials.

Como sei? Continuo cercada por eles por todos os lados.

Estamos numa época em que Streaming não é mais mistério para ninguém. Isso já aprendemos.

Entretanto eu com minha vocação de tia metida, mais uma vez estou onde não deveria estar, ou pelo menos onde a molecada acha que eu não deveria estar.

Apenas lembrando que já não tenho mais 36, e sim 56. E eles, ai meus sais, eles continuam com 20 e pouquinhos.

O que acontece é que essa nova geração de Millenials se acha. Afffff.

Mais uma vez estou tendo que aprender um monte de palavras novas, e com elas suas aplicações.

Pre-seed, seed, seed-money, alpha, beta, pivotar, MPV, Bootstrapping, Pitch de elevador, Hackaton, SaaS, Cap Table e assim por diante.

Mais uma vez, reconheço minha ignorância e peço desculpas por não saber. Todavia por algum motivo, hoje a reação dessa moçada é diferente daqueles de 20 anos atrás. Eles não têm paciência para explicar, fazem cara de tédio, fazem questão de mostrar explicitamente o quão fora de contexto eu estou.

No co-work que estou instalada é ainda pior. Meus vizinhos irritam-se comigo pelo simples fato de eu estar onde eles estão. Uma tia, não pertence a esse ambiente inovador, moderno, envidraçado, caro e xóven que é o WeWork.

Ahhhh, eles podem saber coisas que eu não sei, mas não sabem um monte de coisas que eu sei.

Não sabem por exemplo, como nós Dominiques aprendemos rápido.

Quando eles menos perceberem, já estaremos com nossas startups virando empresas ou investindo (sim, já podemos ser investidoras também) em startups de outras Dominiques.

– Millennials, meus anjos, aqui vai um conselho e vai de graça :

Da próxima vez que passar por uma “tia”, perceba que ela existe, abra a porta para ela, deixe que ela passe primeiro e não deixe de perguntar qual foi o último gol que ela marcou. Você provavelmente ficará muito impressionado, e quem sabe ela passe a te olhar como possível candidato a vaga recém aberta na empresa dela.

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Eliane Cury Nahas
Eliane Cury Nahas

Economista, trabalha com tecnologia digital desde 2001. Descobriu o gosto pela escrita quando se viu Dominique. Na verdade Dominique obrigou Eliane a escrever. Hoje ela não sabe se a economista conseguirá ter minutos de sossego sem a contadora de histórias a atormentá-la.

6 Comentários
  1. Brilhante! Falou tudo. Amei.
    O que falta a essa nova geração é educação de berço , trato social mesmo. E Dominiques vi tiram isso de letra.

    1. Olá Sandra, sim..tiramos..Mas olha, nem sempre é fácil. Tem horas que me dá um desânimo…Mas aí surge aquele nosso espírito “vamu que vamu”, e pronto.

  2. Nossa como amei esse artigo! Retornando ao mercado de trabalho aos 44 do 2o tempo atuo na area de direito imobiliaria e fashion law direito da moda, Fui apresentada a startups e vi que nada mais eram que contratos com Clausulas especiais, bem específicas e diferenciadas. Estudei E aprendi jovem advogado…depois Fasjion Law..nova descoberta.e agora blockchain… Chegar aos 4.9 com todo entusiasmo e vontade de aprender é o diferencial da Dominique…nos reinventarmos, recriarmos, reaprendermos.
    Inspiração p todas nós…e os xóvens..Ah os xóvens!! Têm muito que aprender conosco.. e nós com eles!!! Aí está a beleza da vida !!

  3. Como sempre seus textos são brilhantes. Suas narrativas são reais e próprias. Nos meus 71 anos de hoje, não nos de 25 atrás, ainda quero aprender. Ainda passo pelo que vc passou: dialetos meio estranhos da nossa tecnologia sempre na língua pátria de seus criadores por assim manda a evolução americana. E nós seguimos com interesse pq somos Dominiques inteligentes plugadas no futuro. Obrigado por compartilhar com seus leitores suas vivências. Bjs

    1. Vera querida..Que mensagem carinhosa. E sim, a curiosidade é fator essencial numa Dominique. A humildade não é requisito, mas faz um bem danado, né?

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