Reencontrei o amor da minha vida num velório

Esta é minha história. E imagina só o inusitado.
Recebo o telefonema avisando que um querido amigo tinha falecido. Apesar de recém-operada da coluna, nada a fazer senão ir ao velório, né? Solidariedade é fundamental nestas horas. Mas inchada da cirurgia, com dores horrorosas, tudo o que eu queria era conforto. Como poderia saber que encontraria lá o homem que foi o grande amor da minha vida?
Pois é. E foi assim, inchada, com aquela roupa confortável, mas que engorda pra burro, aquele sapatinho de velha que o improvável aconteceu. Lá estava ele. Não é justo!!!

Quando o vi, ele já estava saindo, lindo e mais charmoso ainda com cabelos grisalhos. 40 anos depois, o tempo não passou para ele.

Daquele dia em diante, ele não me saiu do pensamento. Precisava revê-lo. De qualquer maneira. E isto aconteceria na missa de 7º dia! Batata!!

Fiz uma megaprodução e, para minha decepção, ele não foi.
Mas como não sou de desistir, inventei uma desculpa e liguei para a filha do falecido. Descobri coisas que talvez preferisse não saber. Ele é casado com uma empresária top,  o cara vive com a mulher-maravilha e, segundo a moça, absolutamente apaixonado por ela. Meu mundo caiu. Resolvi que o melhor a fazer era tentar esquecer essa história.

Bom… Como disse lá em cima, solidariedade nestes momentos é importante. Fui visitar a viúva uns dias depois,  mas o destino tramou a meu favor, desta vez, linda e cheia de confiança, graças a deus… Adivinha? Descendo do carro dou de cara com ele. Sabe-se lá o motivo, mas não nos falamos.

Fiquei completamente enlouquecida. Você pode imaginar. Consegui seu celular, nem conto como… Três dias depois, me enchi de coragem e liguei. Tremendo, disse:
– Aqui é a Julia. Te vi duas vezes e resolvi ligar para confirmar se era você mesmo.
Meio sem-graça ele fala:
– Como vai? Reconheci sua voz outro dia.
Completamente atônita completei com o absurdo:
– Então tá, é você mesmo, beijo.
Desliguei só o celular, porque continuei ligada nele 24 horas por dia.
Passados uns dias e imbuída de mais coragem ainda, mandei uma mensagem convidando-o para um café e levei um fora hollywoodiano.
– Melhor não Julia, já se passaram tantos anos, não gostaria de mexer nisso não.
Affffff.

Segue a vida.
Viajei para o Canadá para visitar minha filha e tentar, em vão, colocar a cabeça em ordem, estava em processo de separação. Por obra do destino, no meio de uma baita confusão no aeroporto que não vale a pena contar, mandei uma mensagem para minha agente de viagens e foi parar no celular dele. (?!?!)
João Alexandre não entendeu nada, mas muda de ideia:
– Bom, mas já que ligou, que tal aquele tomarmos aquele café?

Chegou pontualmente.
O que falar nessa hora? Tanta coisa para contar, um passado inteiro para ser remexido. Perguntei:
– Vamos para onde?
Sem pestanejar ele propõe:
– Para um motel. É o único lugar que ficaremos à vontade e sem correr risco de sermos vistos.

Por mais apaixonada e saudosa, fiquei desapontada. Logo de cara me leva para um motel, está pensando o que?
Falamos de filhos, casamento, disse que estava me separando. Ele falou que seu casamento era estável, nem bom, nem ruim, dentro dos conformes.

Abriu a carteira e para meu total espantou, tirou uma fotografia minha, com 15 anos. Segundo ele, nunca me esqueceu. Mostrei a foto que carrego no meu celular e ele começou a chorar. Choramos juntos. Como pode um amor tão bonito se perder assim na vida?

Passamos a se falar pelo Whatsapp todos os dias. Meu marido já havia saído de casa. Ele ficava sem graça de ter a mulher por perto.
Aos 53 anos, me sentia radiante ou, como ele falou, exuberante!

No segundo encontro, uma explosão de tesão acumulado, impossível descrever. O melhor sexo da minha vida!
Continuamos a nos encontrarmos, duas vezes por semana, às vezes, três.
Culpa, remorso, raiva, ciúme, tudo que um relacionamento a três pode causar, passamos em cinco meses.
Também vivi todo amor que é possível e impossível.

Tentamos nos afastar por algumas vezes sem sucesso, pois a paixão era enorme. Mas por outro lado, o sofrimento também. Então, num determinado ponto, não aguentei mais a situação. Escrevi a carta mais difícil da minha vida:

João Alexandre, meu amor,
talvez a gente se encontre novamente com o coração mais maduro e decidido, não era para ser agora.
Não me tenha mal. Tentei o mais que pude, não consegui.
Amo você demais para dividi-lo, isso tem me consumido tanto que não consigo disfarçar mais.
Sei que sou difícil, às vezes, chata, carente e até arrogante. Não me culpe, a vida me fez assim. Sempre na defensiva, com medo de perder, nem sabia o que, mas com muito medo. Sabia que tinha muito a perder, descobri que era o meu coração que já nem existia mais.
Te encontrar foi um bálsamo, uma miragem, um oásis no meio do deserto que eu habitava.
Como sonhei depois daquele encontro, me permiti, pela primeira vez, depois de tanto tempo, sonhar.
Fui em busca desse sonho, encontrei e hoje abro mão dele, não por birra, nem raiva ou qualquer tipo de sentimento pequeno que não seja esse amor enorme que não cabe no meu peito, que me tira o chão e o fôlego, que me despiu de corpo e alma como nos filmes de amor. Só esqueci que nos romances um dos dois sai dilacerado e sou eu quem está assim.
O amor só aumentou nesses cinco meses, não estou mais dando conta dele, está grande demais para ser vivido por mim sozinha.
Sozinha vivi a vida, sofri e me despi de ser eu mesma, hoje não consigo mais.
Oxalá não tivesse dignidade, nem amor próprio, tampouco me importasse com as outras pessoas envolvidas nesse laço que eu dei e só eu posso desatar.
Hoje ouvindo você falar com tanta ternura no celular com sua mulher, senti uma dor tão grande que não consigo mais parar de pensar no mal que estava fazendo a vocês dois.
Não tenho o que oferecer para você a não ser esse amor louco e sem medidas que não cabe na sua vida, não agora.
Talvez um dia a gente se encontre por aí, quem sabe em um velório ou numa festa, com os corações cicatrizados, feridas saradas e com maturidade para sentar e conversar ou até para dar um abraço gostoso sem medo e sem remorsos.
Não era para ser, se traz angústia não está certo, não culpo ninguém por isso, eu procurei essa história para minha vida e posso assegurar que foi a melhor coisa que eu fiz nesses longos 35 anos.
Amar você me fez forte, tomar decisões adormecidas, criei asas, voei nas suas asas e isso foi muito importante e muito bom, mas também muito sofrido. Sofrimento, meu caro, não quero mais para minha vida, já paguei minha cota.
Não me queira mal, o meu amor por você é real, puro e verdadeiro.
Já falei uma vez e vou lembrar que se um dia você estiver disponível, agora ou daqui a alguns anos podemos ter esse recomeço, sem medo e sem culpa.
Morar na casinha ou em qualquer lugar, não importa, o importante é estarmos juntos inteiros, sem horas marcadas, sem magoar ninguém e sem nos magoarmos.
Hoje apago você da minha vida, sigo com um vazio enorme e uma dor dilacerante no peito, me perdoe se o fiz sofrer, só queria fazê-lo feliz.
Vou sentir falta das nossas conversas, do nosso sexo e até das nossas brigas.
Até um dia.
Até talvez.
Até quem sabe?
Beijo
te amo.

Dominique

Nasceu em 1964. Ela tem 52 anos, mas em alguns posts terá 50, 56, 48, 45. Sabe porque? Por que Dominique representa toda uma geração de mulheres. Ela existe para dar vida e voz às experiências, alegrias, dores, e desejos de quem até pouco tempo atrás era invisível. Mas NÓS estamos aqui e temos muito o que compartilhar. Acompanhe!

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