Nossas histórias

Insensatez do coração – a história que Tom Jobim escreveria.

E foi sem querer. Essas coisas não mandam aviso. Não foi porque eu quis. Nem ela.

Era um dia de verão, desses dias que só um país tropical tem. Abafado, úmido e meio cinzento.

Já tinha rodado toda a cidade naquele começo de ano na inglória tarefa de tentar vender, vendedor que sou, mas antes do Carnaval como sabemos, nenhum comprador ousaria comprar.

O melhor que tinha a fazer era resignar-me com um belo chopp gelado para esperar a tempestade que se aproximava chegar e partir.

E ela veio. Com fúria. Delicioso temporal que lavava as ruas, as pessoas e as almas.

Seguro e refugiado dentro daquele boteco, avisei minha esposa que provavelmente chegaria tarde já imaginando as marginais inundadas e o trânsito completamente parado.

Lindinha, minha querida. Um anjo, mas preocupada que só. Nem mesmo o advento do celular e minhas constantes mensagens a tranquilizam. Então, sempre antecipo o problema. Melhor para nós dois.

Isto posto, aprecio a corredeira que se forma em frente ao bar, sem pressa, sem objetivo. Apenas olhando e apreciando.

Quando de repente, interrompendo o barulho da chuva ela entra no bar encharcada. Ela quem? Ela, a mulher mais encantadora que já tinha visto . Não….Não…Ela era simplesmente a mulher mais encantadora que já tinha sentido.

Cabelos negros molhados escorrendo pelos ombros num ousadíssimo vestido grudado no corpo que deve ter sido muito discreto quando seco. Calçava um pé de sandália e o outro trazia na mão. Ahhh… Fora pega de surpresa pela chuva.

Eu não conseguia tirar os olhos dela. Acho até que fui deselegante pois num determinado momento ela se virou de súbito me encarando.

-Olá. Precisa de algo? Você está ensopada – disse eu tentando disfarçar.

-Obrigada, não há muito o que fazer, a não ser esperar a chuva parar.

E sentou-se em minha mesa sem cerimônia, pedindo um chopp para me acompanhar no delicioso exercício de olhar a chuva.

E foi assim. De repente, sem aviso e sem pedir permissão que meu coração caiu de amores por essa mulher tão diferente. Ahhh coração mais desavisado. Foi logo se apaixonando.

E a paixão cega. A paixão desnorteia. A paixão ilude. Mas a paixão é irresistível quando já se está a bordo.

Entreguei-me aos caprichos daquela morena. E a submeti aos meus. Contava os minutos para estar com ela. Tudo que eu pensava era nela. Tudo que eu fazia, era para esperar o momento de estar com ela.

E chegou…o Carnaval, a Páscoa, o inverno. E aquele amor que mais era um vício, não arrefecia nem esfriava.

Até um dia que cheguei em casa e não encontrei minha lindinha. Ué..Ela sempre me esperava acordada com o jantar pronto mesmo quando eu tinha “reunião” com “clientes”.

Liguei para seu celular e nada. Liguei de novo. E de novo.

Comecei a ficar preocupado. Depois de horas sem notícia, fiquei muito preocupado. Meu coração não se aquietava. Ele estava apertado… A Morena me mandava as habituais mensagens de fim de noite, mas não tinha cabeça para responder.

Saí de carro atrás de minha lindinha. Madrugada a fora e nem sinal de minha esposa.

Comecei a suspeitar que algo muito errado estava acontecendo. Refiz meus passos.

Será que ela tinha desconfiado de alguma coisa? Será que eu tinha dado alguma bandeira?

Bem, eu andava realmente meio desligado, muito tempo no celular trocando mensagens com minha morena. No mundo da lua dos apaixonados, aquele mundo para poucos corações. Impaciente por vezes talvez. Mas será que ela percebeu alguma coisa?

Sim, parece que percebeu sim.

Depois de 5 dias sem notícia alguma e de meu enorme desespero, ela apareceu em casa para pegar pertences.

Quando a vi entrando, meu coração quase saiu pela boca. Não sabia se a abraçava e a enchia de beijos ou de porradas pela preocupação que me causou (Obviamente jamais bateria nela, foi apenas maneira de falar).

Ela entrou, acenou com a cabeça e passou por mim como se lá eu não estivesse. Fui atrás tentando abraçá-la e perguntando o que tinha acontecido.

Ela me olhou com um desprezo que nunca tinha visto ou sentido vindos de ninguém.

Ela descobriu meu affair. E eu neguei. Neguei e neguei.

Eu sei..eu sei…Clichê..Baita clichê. Mas fazer o quê?

E continuei negando até que ela já sem forças para argumentar, simplesmente saiu.

Foi embora me deixando lá com minhas verdades e com minhas mentiras.

Ah, insensatez que você fez
Coração mais sem cuidado..
Fez chorar de dor
O meu amor
Um amor tão delicado

Ah, porque você foi fraco assim?
Assim tão desalmado
Ah, meu coração quem nunca amou
Não merece ser amado

Vai meu coração ouve a razão
Usa só sinceridade
Quem semeia vento, diz a razão
Colhe sempre tempestade
Vai, meu coração pede perdão
Perdão apaixonado
Vai porque quem não
Pede perdão
Não é nunca perdoado

Insensatez por Tom Jobim e Vinícius. Agora escute a música com cuidado. Vai escutar outra música, tenho certeza.

Primeira Publicação – 25 de janeiro 2019

Leia também outros textos que escrevi sobre Tom Jobim:

Passeando com o passado

Relatos de uma mulher apaixonada

E uma playlist no Spotify só com Tom – Fiz especialmente para hoje.

Eliane Cury Nahas
Eliane Cury Nahas

Economista, trabalha com tecnologia digital desde 2001. Descobriu o gosto pela escrita quando se viu Dominique. Na verdade Dominique obrigou Eliane a escrever. Hoje ela não sabe se a economista conseguirá ter minutos de sossego sem a contadora de histórias a atormentá-la.

15 Comentários
  1. Adorei sua imaginação que me levou ao sentimento da paixão e do fruto proibido!
    Muito sentimento e conexão com a música e com o Tom. Também fico feliz por ter tido a chance de ver o Tom ao vivo Show Dominique comtineuvnos enviando essa maravilhas do que refresca a mente e nos ajudam a acalmar o espírito. Bjs

  2. Adorei a homenagem!
    Q privilégio ter visto esses genios e escutado essas poesias q transmitem casos comuns de forma tão peculiar e única. Aliás Eliane, Dominique está genial na abordagem de temas tão casuais com simplicidade,coloquialidade e bom humor. Parabéns!

    1. Olá Ivana!!! Tb tive o privilégio de assistir esses monstros!! Ahhh como eu amo um bom show!! E obrigada pelo elogio. Na verdade eu que agradeço seu tempo para ler meus rabiscos!! Beijocassss

  3. Meninas, cresci escutando Bossa Nova. Que previlégio! Esses gênios queridos são riquezas brasileiras, são curativos, alegria, emoção, cultura, tudo junto!
    Só que antes disso tudo a nossa Bossa é paixão…
    Tá explicada a “Insensatez”,o “Infinito enquanto dure”, o “Perdão cansa de perdoar”, etc.
    Só que daí têm os ônus né, com os quais nossos gênios não estavam muito preocupados !
    Bom pra nós, que herdamos esse trabalho lindo e poderemos para sempre dar boas viajadas !

  4. Querida Eliane !
    Até senti a chuva , bebi o chope e conheci a morena .
    Alguns amigos homens , mais sensatos , dizem-me que rezam para que isto nunca lhes aconteça … eles sabem que o coração é assim mesmo e que no segundo em que uma mulher lhes causar esta paixão, tudo o que está estabelecido na sua vida cairá por terra .
    Pelo caminho , todos sabemos , quanto é saborosa essa “insensatez “ enquanto a mastigamos e o sabor rola na nossa boca …
    obrigada !
    Adoro ler os teus textos !

    1. Nossa Ze Valério. Não poderia ter tido um complemento melhor para o texto do que seu comentário. Além de suuuper verdadeiro, sensato e incrivelmente sensível, vc escreveu de maneira lindíssima. Amei…

  5. Amei a história principalmente por adorar a música e os compositores. Que gostoso poder entender a música. Agora muito mais.

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A Dominique que existe em cada uma de nós !

Por: ViCk Sant´Anna

Meu nome é Virgínia, mas me chamam de ViCk desde meus 16 anos quando conheci outra Virginia que tinha este apelido também. Aí eu gostei e adotei para mim. Gosto do meu nome de batismo, principalmente por ser uma homenagem à minha avó paterna que nem cheguei a conhecer. Ela também foi homenageada pelo meu avô paterno, Álvaro de Lima, que fundou o bairro Vila Virginia em Ribeirão Preto, minha cidade.

Faço ballet desde os 7 anos de idade e me formei aos 18. Mas acabei abandonando assim que me formei para fazer faculdade de publicidade e propaganda. Sempre gostei da área de comunicação.  

Foi no trabalho que conheci o meu marido, em 1992, quando construímos juntos uma produtora de vídeo.  Um encontro profissional e também um encontro de almas. Juntos, atendíamos a grandes cliente. Fazíamos videos treinamentos para a área de RH de grandes empresas. Fazíamos tudo praticamente sozinhos no início. Desde  atendimento, roteiro, gravação edição, aprovação e entrega. 

Os anos passaram e quatro anos depois ganhamos o nosso maior presente: Felippe! Com 18 anos de “namoro” e um filho de 13, em outubro de 2010 oficializamos o nosso casamento. Hoje nosso filho tem 21 anos e cursa o penúltimo ano da faculdade de Direito. Mesmo ele ainda morando conosco, a temida sensação do “ninho vazio” já me angustia, apesar de saber que faz parte da vida. 

Por este motivo, me dedico ao meu blog e a dança que ilumina os meus dias. Meu blog, o ViCkNeWs (ww.vicknews.com) foi criado em 2011. Nele, faço de minhas postagens algo que de alguma maneira seja útil para que minhas leitoras mudem o seu comportamento de maneira positiva. Além dos posts dos eventos que acontecem na cidade, sempre busco compartilhar com minhas leitoras algumas atividades que as façam recuperar aquele brilho muitas vezes perdido na rotina do dia a dia, no passar dos anos.

Uma paixão: o ballet

Escrevo desde uma nova cor de esmalte, um tratamento novo para os cabelos, uma massagem,uma make ou uma atividade física que dê prazer. Foi assim com meus posts sobre minha iniciação na corrida, no pilates, e mais recentemente, no pole fitness. Mas a atividade que mais me devolveu o brilho, que vai sendo perdido a cada ano que passa, foi o meu retorno ao ballet.

Depois de formada já há alguns anos, retomei esta atividade que sempre foi a minha verdadeira paixão. E meu post sobre este retorno repercutiu de maneira muito positiva. Consegui alcançar um desejo interno que muitas tinham de retornar também a esta arte. E várias leitoras retornaram depois de ler meus posts não só no blog como também em minhas outras redes sociais.

Por mais para baixo que eu esteja em alguns dias, o simples fato de ouvir o piano e me exercitar na barra me devolve todo o brilho necessário para seguir em frente e enfrentar todos os desafios. A mensagem que deixo não só nestes posts, mas também na matéria que fiz sobre o mesmo tema em uma das revistas em que tenho coluna, é de nunca deixar de acreditar nos seus sonhos e buscar realizá-los, independentemente idade e medida. Deixar os preconceitos de lado e se entregar ao que realmente as faz brilhar, um pouco mais a cada dia.

Foi através do blog que eu conheci as Dominiques e me encantei. Estou prestes a completar os temidos 50 anos e foi tão bom para mim encontrar Dominiques tão lindas e seguras de si no evento no restaurante no Shopping Anália Franco. Estou acostumada a conviver com mulheres mais jovens que eu, tanto blogueiras quanto as colegas de dança.

As amigas da mesma idade parece estarem sempre numa competição de quem está mais rica, mais gorda, mais enrugada, mais infeliz. A maioria está se separando, o que não é o meu caso. Mas me fez tão bem conhecer vocês, Dominiques, tão lindas e seguras de si. Quero ser uma de vocês e já me sinto uma.

Quero deixar aqui meu depoimento de como é para mim ter retornado a dança depois de tantos anos. Hoje é a dança que me devolve o frescor dos meus 20 anos. Não há nada que me tire o prazer que ela proporciona. Nem os fios brancos que começam a aparecer nem as ruguinhas que o botox ajuda a esconder. Se em alguns momentos me sinto invisível por não me sentir a vontade nas rodas dos mais jovens, é na sala de aula e no palco que me sinto iluminada. Não apenas pelos refletores mas internamente, mas  pela luz que sinto transmitir. 

Não nego que me incomodo com o espanto de muitas conhecidas quando sabem que eu insisto em continuar dançando. Mas vou continuar, até quando minha alma desejar e minhas pernas aguentarem. E espero influenciar mais “Dominiques” a fazerem o que as fizer feliz.

Amei conhecer as Dominiques e, apesar de não morar em São Paulo (sou de Ribeirão Preto), farei todo o possível para estar nos próximos encontros. Ah, também seria maravilhoso ter vocês por aqui…

“Se eu ajudar uma pessoa a ter esperança, não terei vivido em vão” –  Martin Luther King

#SomosTodasDominique

Sobre o evento Somos Todas Dominique

Um evento, um cliente, uma amiga e muitas histórias

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Eu quero menos check-ups e muito mais check-ins!

Pronto. Está decidido. Quero fazer menos check-ups e mais check-ins! É isso mesmo. Acabei de renovar o meu passaporte e estou disposta a me organizar para rodar mundo afora. E sabe que não é preciso gastar tanto dinheiro assim para se divertir numa viagem?

Te digo que o planejamento é tudo!  Tem muita Dominique viajando e conhecendo lugares incríveis e so-zi-nhas! Além disso, compartilham moradia e conhecem pessoas… Nada da frieza dos elevadores dos hotéis.

Então, por que não?

Vamos combinar que a companhia de uma amiga pode ser fantástica, mas também pode se tornar um desastre dependendo do humor de ambas. E se estiver sem namorado, melhor ainda…

As possibilidades de encontrar alguém nessa jornada são enormes!

No começo é natural ficar receosa sim! Afinal, eu sou do tempo em que mulher viajar sozinha seria inviável…Mas nada mais natural que acompanhar as mudanças do mundo.

É o caso dos Nômades Seniores, cuja aventura rendeu até livro.  

Pra ter mais tranquilidade resolvi pesquisar bem direitinho as aventuras mais em conta e como viabilizar essa viagem solitária. E achei muita coisa legal, inclusive gente que faz da diversão um projeto.

Como escrevem Debbie e Michael Campbell no site, eles são de Seatlle, Washington, uma ótima cidade pra se chamar de lar. Mas que ficou pequena demais pros sonhos desse casal quando estavam à beira da aposentadoria.

“Sentimos que tínhamos mais uma aventura em nós , então em julho de 2013 alugamos nossa casa”.

Eles também venderam o veleiro e um dos carros para reduzir as coisas e as despesas. Então deram adeus à família e partiram para explorar o mundo.  O objetivo era viver o cotidiano nos lares de outras pessoas, da mesma forma que fariam se tivessem se aposentado em Seattle. “Até agora a experiência tem sido tudo que esperávamos”.

Os números falam por si. Desde que partiram, utilizaram mais de 200 vezes os serviços do Airbnb visitaram mais de 250 cidades em 80 países, incluindo toda a Europa, Turquia, Israel, Rússia, México, África, Cuba, Oriente Médio, Ásia Central, Nova Zelândia, Austrália e Ásia. O resultado foi a venda da casa em Seattle para se tornarem verdadeiramente nômades.

Veja o que fazem os Tiozinhos Mochileiros. Julio e Rosi voltaram a viajar com a mochila nas costas depois que os filhos cresceram, como quando eram jovens sem preconceitos. E os filmes, como esse aqui embaixo, são exibidos em um canal no Canadá.

Pra não dizer que são só os gringos que têm coragem. Li outro dia a história da aposentada Josefa Feitosa, de Fortaleza (CE), que se “autocondenou à liberdade”, como ela mesmo diz.

Já visitou cerca de 40 países.

E diz que só volta ao Brasil para renovar o passaporte.  Divorciada, mãe de três filhos e avó de um neto, resolveu se desfazer de casa, móveis e roupas. Tudo o que tem agora cabe dentro de uma bagagem.

Assim como mantém um diário de viagem no Facebook , batizada Jô: minha casa é onde minha mala está, a aposentada também registra a vida em cadernos, desde os anos 1980. No roteiro, experiências em Auroville, a cidade onde se vive sem dinheiro na Índia, na noite de Amsterdã, nas praias de Zanzibar e no leito do rio Nilo, no Egito.

Ok! Tudo bem. Eu concordo que os casos acima são um pouco radicais, mas dá pra conciliar as viagens e manter a rotina do lar. Eu penso que uma temporada viajando e outra em casa pode ser uma boa alternativa.

E, olha, depois de tudo que li, cheguei a conclusão que viajar não é apenas rejuvenescedor; também pode ser intelectualmente estimulante. Eu, ao menos, sou naturalmente propensa às novas experiências e aventuras. É uma oportunidade para mudar as coisas da monótona rotina do dia-a-dia.

E você? Se aventuraria?

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Sobre autoestima, ego, pretensão e bom humor.

Autoestima é sempre algo a ser perseguido. Principalmente depois que completamos 5 décadas, ela é essencial. Algumas pessoas a têm em bom patamar pois cultivaram durante uma vida. Outras nunca a tiveram e provavelmente nunca a acharão por mais que procurem.

Agora nós Dominiques, temos um trabalho extra pois além de recuperar nossa própria autoestima tão machucada, temos que ensinar o mundo a nos respeitar. Já falei um bocado sobre isso – veja aqui.

Assim sendo, deixa eu te contar uma historinha* que li há tempos sobre uma pessoa com autoestima colossal – Pablo Picasso.

Dizem que o Picasso nunca tinha dinheiro no bolso.

Quando ele terminava de jantar num restaurante, o dono aproximava-se da mesa com a nota, esperançoso, e perguntava se ele ia pagar ou assinar.

Picasso fazia uma mímica de procurar dinheiro nos bolsos, mas sempre acabava assinando a nota. O dono do restaurante mandava emoldurar e depois vendia como um Picasso autêntico, por muito mais, é claro, do que o valor do jantar. Entretanto se a comida estivesse especialmente boa ou se o seu grupo fosse grande, Picasso não assinava apenas a nota. Fazia um rápido desenho na toalha, que, depois, mesmo com as manchas de comida, passava a valer uma pequena fortuna. Ou então fazia uma rápida escultura com miolo de pão e palitos.

Quando precisava mandar buscar alguma coisa no armazém, Picasso rabiscava uma pomba ou uma odalisca num papel e dava para a empregada pagar a conta.

Certa vez, a empregada saiu para fazer o rancho levando um bico-de-pena razoavelmente bem acabado – a conta seria grande – e voltou com as compras e mais um horrível desenho feito em papel de embrulho e assinado embaixo pelo dono do armazém, Monsieur Pinot.

– O que é isso? – quis saber Picasso, segurando o papel com a ponta dos dedos.

É o troco – explicou a empregada.

Desse dia em diante, dizem, Picasso olhava com respeito, cada vez que passava pelo armazém de Monsieur Pinot. Tinha encontrado um ego maior que o seu.”

*Foi escrita por Luis Fernando Veríssimo e está no livro Comédia da Vida Pública – 1995, ed. L&PM

Adooooooro essa história, quer ela seja verdade, quer ela seja pura ficção.

Agora analisemos: Monsieur Pinot realmente achava que poderia desenhar algo do valor das obras de Picasso? Ou que uma obra dele não pagasse uma compra no mercadinho?

Claro que o ego de Monsieur Pinot e sua autocrítica sabiam que ele não era artista e passava longe de qualquer tipo de talento pictórico.

O que acontece é que o quitandeiro tinha autoestima suficiente para brincar com um mestre, considerado quase uma lenda viva.

E não. Isso não é pouca coisa. Poderia ser considerado arrogância, apesar de ter sido arrogante justamente quem subjugou a moeda de troca corrente, tomando como certo e aceitável o valor “superior”de um pedaço de papel.

Veja bem, o ato de M. Pinot nada teve de arrogante ou sem noção. Muito menos foi ele pretensioso embora até possa parecer. Ele usou uma das armas mais poderosas do universo que é inegavelmente o bom humor.

Acredito piamente que o bom humor é uma das maiores qualidades de uma pessoa da mesma forma que o bom senso.

A coragem de usar-se de humor com um homem como Picasso, veio sem dúvida alguma de uma autoestima muito bem lustrada e em dia.

E vou além. Quando você acha que Pablo Picasso prestaria atenção a Monsieur Pinot, da quitanda, tornando-se até eventualmente um amigo?

Veríssimo diz em seu texto que Picasso achou finalmente alguém com o ego maior que o seu. Mas sou obrigada a discordar. Porque não foi o tamanho do ego daquele homem simples da Cote D’Azure que cativou o ilustre pintor mas sim a sua autoestima .

Quem gosta de si próprio, sente-se merecedor do outro, seja ele quem for. No caso Pablo Picasso.

Entendeu?

autoestima Picasso

Leia Também :

Eliane Elias – Muita autoestima na vida e ao piano

Ao procurar um novo amor é preciso paquerar-se antes.

Eliane Cury Nahas
Eliane Cury Nahas

Economista, trabalha com tecnologia digital desde 2001. Descobriu o gosto pela escrita quando se viu Dominique. Na verdade Dominique obrigou Eliane a escrever. Hoje ela não sabe se a economista conseguirá ter minutos de sossego sem a contadora de histórias a atormentá-la.

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Será que dá pra viver sem?

Esses dias me peguei pensando sobre minha mania de comprar coisas sem precisar. De tempos em tempos eu encano com algo: cosmético, objeto pra casa, suplemento, vinil, livro, sapato… Sempre tem uma bola da vez para gastar algum dinheiro e acumular mais.

Mas conversa vai conversa vem, eu descobri que não se trata de comportamento exclusivo meu. Eu tenho uma amiga que surta na papelaria, por exemplo. Ela considera sagrada aquela passadinha semanal pra checar as novidades. E, vamos combinar, que ninguém precisa de marcador ou de post it todo dia, né?

Já o marido de outra amiga até sabe das nossas compulsões e brinca sempre com isso. Quando ela diz que vai a farmácia, por exemplo, e pergunta se ele precisa de algo, ele logo responde: – Vê lá um lançamento pra tratar o coração ou algo novo pra diabete…

Eu sei, eu sei. Nosso sistema econômico é baseado na perspectiva de crescimento infinito. Mas os recursos naturais são limitados.

Agora, será que essa mania de sempre mais não precisa acabar?

É fato que quanto mais a gente envelhece mais tendência a manter coisas que funcionem como recordações. E não bastasse as nossas bugigangas acumuladas sempre guardamos as dos nossos filhos também. Mesmo quando eles já saíram de casa para montar a própria.

Mas afinal, o que dá pra viver sem?

E se o sistema entrasse em colapso e as pessoas em todo o mundo fossem obrigadas a viver com muito pouco? Te convido a fazer esse exercício. O que na sua vida não é essencial?

E eu garanto que tem muita coisa aí pra abrir mão…

Li esses dias um artigo sobre uma jornalista alemã que decidiu passar um ano de sua vida longe das facilidades do consumo. Ela contou a experiência num livro chamado “Apocalipse Now!” e fiquei bem curiosa pra ler.

Durante a experiência, realizada em Barcelona, na Espanha, ela viveu apenas de escambo e agricultura orgânica. Ela contou no artigo que para sobreviver apelou às técnicas e estilo de vida de seus antepassados, que viveram durante o período de guerra e pós-guerra na Europa.  

Tá booom! Concordo.

Não precisa ser tão radical.

Mas eu fiz uma relação de coisas que vou cortar pra reduzir o meu consumo e vou tentar sobreviver por algum tempo. Quer saber o que são?

A primeira coisa pela qual sou completamente louca são cremes pra cabelo e corpo. Ah meus sais! Não digo que vou viver absolutamente sem. Mas vou escolher um kit prioritário com shampoo, condicionador, hidratante, finalizador e “day after”. Chega dessa mania de variar tanto. Não preciso ter tanta opção diariamente…

Outro lugar onde gasto rios de dinheiro é em farmácias. É uma baita compra de vitaminas, analgésicos e afins. Desde que não seja orientação médica, estou disposta a lidar com as minhas dores de cabeça de forma alternativa.

Sapatos. Tenho muitos. E alguns novinhos, que nunca saíram da caixa. Minha meta é ficar 12 meses…Ops! Melhor reduzir pra seis meses (eu me conheço) sem comprar nenhum par.

Assinatura de TV a cabo e de algumas revistas. Eu tenho tanta opção na internet então pra que ainda assino um pacote completo se nem dou conta de ver?

Uma coisa que já faço faz tempo é levar minha garrafinha de água pra onde vou. Assim não preciso comprar mais uma a cada hora que sinto sede. Acho que são pequenas coisas que podem fazer grande diferença rumo a uma existência mais minimalista e mais consciente.

Depois eu conto pra vocês como foi minha experiência, mas acho que super dá pra viver sem!

E vocês Já pensaram nas coisas que não são essenciais para uma vida mais leve e feliz? Me contaaaaa!

Leia também Organizei minha casa (e minha vida) com as técnicas da Marie Kondo.

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