Uma história de Recomeço – Meu melhor casamento

Dominique apaixonou-se perdidamente por Mateus e foi correspondida.

Mateus era quase 15 anos mais velho que Dominique, já tinha tido uns 3 casamentos e incontáveis filhos de cada um deles.

Nada disso importava para Dominique. Desde aquela primeira conversa no bar Supremo, encantou-se com o papo, a cultura, a ousadia e até mesmo com a aparência e o jeito despojado chique.

Mateus era de família tradicionalíssima paulista, descendente de algum barão do café, daqueles com 5 sobrenomes.

Dos gloriosos tempos da política com café com leite, sobraram além das histórias, uma única fazenda em Itapira.

Dominique, neta de humildes imigrantes, não ligava para os narizes torcidos dos amigos de Mateus. Muito pelo contrário, fez com que todos eles e elas a admirassem com o tempo.

Mateus era um homem cheio de qualidades, encantadoras qualidades. Porém tinha um defeito que quando acentuado, passa a ser grave.

Ele era ávaro, pão duro mesmo, chegando a beirar a mesquinhez.

Isso incomodava Dominique que ao longo dos 15 anos de relacionamento nunca pediu um centavo sequer para o namorado e igualmente retribuiu-lhe a atitude.

Dividiam todas as contas, fosse no dia a dia, fosse em viagem. Com o passar dos anos, Dominique começou a achar esse um bom arranjo. Sentia-se mais dona de seu nariz se é que dava para ela sentir-se mais.

Tinha apenas uma coisa que Mateus não economizava. Era na comemoração do dia em que se conheceram.

Todo dia 10 de novembro Dominique podia contar com uma surpresa.

Sempre começavam com um drink no Bar Supremo, onde se conheceram. De lá poderiam ir para um Hotel 5 estrelas, para o aeroporto rumo a uma viagem surpresa para Galápagos ou para um romântico picnic em algum rooftop.

Assim compartilharam os gostos pela música, livros, animais, espetáculos, boa comida, e pela família.

Ahhh, a família é um assunto a parte. Filhos, muiiitos filhos. A quantidade de filhos cá e lá, foi motivo mais do que razoável para nunca terem morado juntos.

Os filhos de Dominique formaram-se, casaram e levavam uma vida de acordo com a possibilidade de cada um. Achavam bom a mãe ter uma companhia. Bom para ela e muito melhor para eles que não sentiam o peso da culpa pela ausência.

Já os filhos de Mateus, competiam sempre com o apoio de suas respectivas mães. Estavam sempre brigando entre si e com o pai. O motivo era sempre o mesmo. $$$$

A primeira vez que Dominique foi a fazenda em Itapira, achou que não sairia viva de lá, fosse pelo estado precário da fazenda, fosse pelo ódio que viu nos olhos dos “enteados”.

Aquela fazenda estava caindo aos pedaços. fazia anos que não via uma mão de tinta. Bolores nas paredes. Teto com goteira. E os colchões? Ela tinha a impressão que eram recheados com palha. Porém o delicioso feijão feito naquele aconchegante fogão a lenha compensava as desventuras.

Não. Mentira. Não compensava nada. Dominique queria era seu ar condicionado e seu colchão de molas. E distância regulamentar dos filhos de Mateus.

Com o tempo, muito jeitinho e dividindo as despesas, convenceu o amor de sua vida a reformar a sede, ao mesmo tempo que conseguiu afastar um pouco aqueles sangues suga de seu namorido.

Com sua visão comercial, fez com que Mateus arrendasse um pedaço da fazenda para garantir a renda e trabalhasse a terra remanescente tornando-a minimamente produtiva.

Nesses anos todos, Dominique nunca parou de trabalhar, e continuou aumentando seu patrimônio. Porém com suas frequentes idas para Iatpira, desgastava-se demais no dia a dia de seus negócios. Nenhum filho queria trabalhar com ela e nem ela os queria por perto. Achou mais fácil contratar uma secretária e um administrador. Mais fácil e mais barato.

Com o tempo, ambos foram se mostrando de grande valia e igual confiança, lembrando que o FAX, aquela invenção mágica e meio incompreensível, facilitava absolutamente tudo. A vida podia ser dividida antes e depois do FAX.

Dessa maneira Dominique foi se sentindo cada vez mais segura para passar mais tempo na fazenda curtindo seu Mozão.

Juntos viram o Brasil ganhar duas copas do mundo.

Passaram pela presidência, um José, 2 Fernandos, 1 Itamar e um Luis.

Assistiram juntos Vale Tudo, Rainha da Sucata, Pantanal (que rendeu uma viagem para conhecer aquele paraíso).

Dominique foi uma das primeiras assinantes da imberbe Tv a Cabo brasileira pois amava assistir sitcom. The Nanny, Murphy Brown, Seinfeld, Will and Grace e muitas outras, sendo que a preferida de Mateus era a Família Dinossauro, vai saber por que.

Cinema não era muito a praia do casal, mas não se furtavam a um Blockbuster no vídeocassete e depois no DVD. Telma e Louise, Tomates Verdes Fritos, A Lista de Shindler, mostraram que Mateus era um homem muito sensível por suas muitas lágrimas vertidas.

Estavam atentos ao advento da Internet. Entenderam já em 90 e pouco que aquilo mudaria o mundo. E mais uma vez, Dominique foi das primeiras a ter a tão desejada Banda Larga em casa. Foi nessa época que Mateus quase se mudou para casa da namorida. Amava a Internet da casa dela e ele não assinaria Speedy tão cedo. Qual a necessidade dele ter se ela já tinha? E vai saber se esse negócio de Internet ia dar certo mesmo?

Vibraram com o Protocolo de Kioto e derreteram juntos em 98 com a chegada daquele El Nino avassalador no mesmo ano.

Decoraram todas as Letras dos Mamonas Assassinas fazendo a alegria dos netinhos que já podia se dizer, eram de ambos.

Estavam juntos naquele 11 de setembro. Especularam se aquela escalada terrorista teria a ver com os fundamentalistas iranianos, afegãos, líbios. Ou com a Aliança soberana entre EUA e a Alemanha reunificada.

Os ataques terroristas mobilizavam o casal. Eram noites e noites tentando entender motivações, aspectos sociais, financeiros e até mesmo ocultos em cada episódio.

Mateus não chegou a saber do atentado terrorista em Madri no dia 11 de março de 2004.

Depois de lutar incansavelmente por quase 2 anos contra um câncer, na madrugada daquela quinta feira, desistiu. Fechou os olhos segurando a mão de sua maior e melhor companhia.

Dominique nunca se sentiu tão sozinha. Não sabia ao certo se agradecia aqueles 15 anos de felicidade, ou os amaldiçoava por terem lhe dado parâmetro. Ela finalmente sabia o que era ser feliz e não aceitaria nada menos que isso. Nada menos do que teve com Mateus.

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Eliane Cury Nahas
Eliane Cury Nahas

Economista, trabalha com tecnologia digital desde 2001. Descobriu o gosto pela escrita quando se viu Dominique. Na verdade Dominique obrigou Eliane a escrever. Hoje ela não sabe se a economista conseguirá ter minutos de sossego sem a contadora de histórias a atormentá-la.

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