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Confusões de uma Dominique brasileira numa academia portuguesa

Lembra do texto que te falei que meu nome do meio agora era Recomeço e o sobrenome Confusão? Não? Então leia aqui para entender melhor o “causo” que vou contar agora. Mas se não estiver afim não precisa, basta saber que me mudei para Portugal recentemente.

Qual é a primeira coisa que fazemos quando chegamos a um novo país?

Depois de procurar onde morar, mobiliar, ver plano de celular, TV, luz, ligar o gás, aprender a pegar transporte público, arrumar os armários, a cozinha, esperar chegar os eletrodomésticos…… ufa! A primeira coisa que se faz é entrar para uma academia!! Afinal de contas meu lema continua sendo “Mens sana in corpore sano” .

Além do que a academia pode ser um ótimo lugar para fazer amigos. Poderia, se eu não tivesse chegado chegando.

Sinceramente, eu acho que não foi tão grave o que aconteceu. Diga-me você a sua opinião.

Fui visitar 3 academias, todas perto o suficiente de minha casa para que eu fosse a pé.

No que diz respeito à malhação, sou exigente. Afinal, sou brasileira e nasci tendo que colocar biquini. Isso não é para qualquer povo não minha gente. É mais pressão do que torre de controle de aeroporto.

De cara descartei uma delas por ser ao lado de uma famosa doceria local. O quê???? Pra que passar por essa tentação? Ainda mais depois de me matar numa aula e, me conhecendo, achar que posso e devo. Nananinanão.

A academia escolhida

Fiz uma investigação minuciosa dos espaços de cada uma delas. Salas, ventilação, vestiários, armários, banheiros, chuveiros, higiene. Acabei por gostar mais da Fuerza Fitness, que era bem equipada e moderninha.

Tenho certeza de que os proprietários ficaram muito honrados com minha escolha, pois depois do detalhado questionário que enviei antes de assinar o contrato, perceberam que sou uma cliente muito rigorosa.

Lá vou eu para minha primeira aula de spinning. Todo primeiro dia dá um friozinho na barriga, não dá? Seja da aula no pré primário, na universidade, na academia ou na aula de tricô.

Quem vamos encontrar? Como seremos recebidas? Será que os outros estão em um nível melhor que o meu? Vou passar vergonha?

Fui guardar meu casaco e minha bolsa no vestiário, resolvi fazer um pipizinho básico just in case e lá fui eu.

A academia estava lotada provavelmente porque era o horário das 7 da noite, e a aula de spinning era das mais concorridas. Apresentei-me ao professor, um espanhol bem gato aliás, e fui pra minha bike.

– “Empecemos … Fuerza … uno dos tres cuatro….”

Ahhh, por isso o nome da academia! Deveriam ser todos Espanhóis.

De cara percebi que a turma era boa e entrosada, além de todos estarem obviamente muito mais bem preparados que eu. Resolvi que sairia de lá carregada, mas terminaria aquela aula. Foco, Foco, Foco!! Concentração.

Ahhh.. Piada.. Deu 20 minutos desci da bike amaldiçoando todos os ibéricos, inclusive o presunto e o bacalhau (que aliás é da Noruega).

Tomando água do lado de fora da sala, ainda ofegante e com a camiseta molhada, reparei no alto-falante da academia. Já era a terceira ou quarta vez que chamavam a Maria Ipi.

Pára! Pára!

Será que por alguma acaso essa seria eu? Nunca te contei que minha mãe muito religiosa, enfiou um Maria no meu nome né? Não… Mas por que contaria se nem eu me lembro dele.

Sim… sim… Sou Maria Dominique Hip. Daí o Mara Ipi, uma vez aque o espanhol provavelmente e logicamente não pronunciou o H do meu inglês Hip.

Afff, dá um desconto, vai. Eu estava tonta do exercício e Maria Ipi para mim era um outro ser..

O espanhol no altofalante já pedia em tom de súplica que a Maria Ipi fosse ao vestiário urgente.

Lá fui eu, confesso que bem curiosa e quando entrei logo vi uma rodinha de pessoas em volta do meu armário. No centro estava uma mulher enrolada na toalha, muito vermelha, possivelmente de raiva, gritando com alguém.

Fui chegando de mansinho, quase que na ponta do pé. Queria saber o que estava acontecendo antes de me apresentar, mas não rolou. Todo mundo me conhecia. Lembra da minha pesquisa minuciosa, quase investigativa? Pois então, não havia quem na academia não conhecesse o tal questionário da brasileira “exigente”.

Todos viraram-se para mim e a mulher enrolada na toalha falava num idioma que eu não entendia. Na verdade gritava. Olhei confusa para os funcionários que tentavam acalmá-la.

Resolvendo a confusão na academia

– Maria Ipi?

– Sim, mas todos me chamam de Dominique Hip – não, não era hora de ser engraçadinha.

– Este é seu armário? – Perguntou o espanhol apontando para um armário com a porta escancarada.

Olho seu interior e vejo minha bolsa e meu casaco. Ué… Quem foi que abriu meu armário?

Dominiqueeeeeee, Hellooo! O excesso de oxigenação do spinning queimou neurônio? Que parte eu não tinha entendido?

Quando voltei de meu pipi, com o cadeado na mão, tranquei o armário ao lado, e adivinhe? Era o armário daquela gringa.

Comecei a pedir desculpas, apesar de ela continuar gritando, só que agora eu estranhamente entendia o que ela falava.

Gente, ela não era gringa! Era portuguesa, da gema, mas estava tão nervosa e falando tão rápido que aos meus ouvidos destreinados pareceu-me sânscrito. Disse que estava atrasadíssima por minha causa, que chegaria atrasada para reunião que aconteceria a 30 km dali mesmo que pegasse um Uber.

– Arrume-se e me espere na porta. Que horas é sua reunião? Daqui 30 minutos? Você chegará.

A aula de spinning foi pinto perto do pique que dei até meu carro.

Ela já estava na porta quando passei, entrou no carro, colocou o cinto. Vi que estava com a maquiagem na mão… Ahhhh, se ela achava que conseguiria se maquiar naquele carro, ela não conhecia meus dotes de direção defensiva.

E Lá fui eu, costurando, furando farol, fazendo absolutamente tudo errado. Imagino que ela deva ter se arrependido amargamente de ter entrado em meu bólido, mas não seria eu a culpada por ela perder aquela reunião.

Chegamos! Chegamos a tempo da ex-gringa ainda passar no banheiro para se maquiar. Foi tanto estresse que acabei nem perguntando o nome dela.

Fiquei uma semana sem aparecer na academia na esperança de que esquecessem de mim, da chave, do episódio, da minha falta de forma física. Enfim, apagassem aquele dia do calendário de todas as dietas e treinos da Fuerza.

Entretanto ao abrir a porta, escuto em alto e bom som um:

— Maria Ipiiiiiii!

Todos se viraram para minha triunfal entrada.

— Maria Ipi, que bom que voltou, a Susana deixou aqui uma nota para você.

— Susana?

No mesmo momento que perguntei me arrependi, posto que só poderia ser a ex-gringa e para explicar quem era Susana, o espanhol contaria toda a história novamente de maneira que os presentes que provavelmente não sabiam de meu pequeno vexame, passariam a sabê-lo.

E assim ele o fez, com uma riqueza de detalhes impressionante, e num tom de voz que deixava claro o prazer que estava tendo em me fazer rememorar o incidente.

Entregou-me o bilhete de Susana.

“Dominique,

Devo dizer que não tivemos um começo alvissareiro. Poderia bem dizer que só podia ser brasileira, mas acho que isso poderia soar preconceituoso. Entretanto, você ter tido a clareza de tentar fazer com que seu erro não me prejudicasse, correndo riscos e levando multas, sim, porque você as levou, tudo para ajudar uma estranha, também poderia bem dizer ser coisa de brasileira. Então, não vou dar nome aos bois nem a países… Quero apenas agradecer seu gesto e sua generosidade. E pensando bem, tivemos o melhor começo que duas amigas podem ter. Vamos tomar um café?”

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Dominique

Nasceu em 1964. Ela tem 55 anos, mas em alguns posts terá 50, 56, 48, 45. Sabe porque? Por que Dominique representa toda uma geração de mulheres. Ela existe para dar vida e voz às experiências, alegrias, dores, e desejos de quem até pouco tempo atrás era invisível. Mas NÓS estamos aqui e temos muito o que compartilhar. Acompanhe!

5 Comentários
  1. Parabéns por já chegar ao novo país e dirigir e poder estacionar perto de sua academia. Que sorte! O resto do acontecido, foi detalhe.

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Olmo e a Gaivota – lindo, terno, infinitamente fascinante em sensível abordagem sobre a maternidade

Premiado no Festival do Rio 2015, “Olmo e a Gaivota”, filme da diretora brasileira Petra Costa, com codireção da dinamarquesa Lea Glob, traz a união entre ficção e realidade.

Na obra os atores do Théâtre Du Soleil, Olivia Corsini e Serge Nicolaï, são os intérpretes do casal protagonista.

Uma travessia pelo labirinto da mente de uma mulher “Olmo e a Gaivota”, feminino por natureza, conta a história de Olivia, atriz que se prepara para encenar A Gaivota, de Tchekov. Quando o espetáculo começa a tomar forma, Olivia descobre que está grávida, e um problema de saúde coloca em risco a gravidez.

A atriz terá que ficar nove meses em casa, enquanto seu parceiro pessoal e profissional, Serge, continua ensaiando com a Companhia, às vésperas de uma importante turnê por Nova York e Montreal.

Os meses de gravidez se desdobram como um rito de passagem, forçando a atriz a confrontar seus sentimentos e medos mais obscuros. O desejo de Olivia por liberdade e sucesso profissional bate de frente com os limites impostos pelo seu próprio corpo.

Real e o Imaginado

O filme tem uma nova virada quando o que parece ser encenação revela-se como a própria vida. Ou será o inverso? Esta investigação do processo criativo nos convida a questionar o que é real, o que é imaginado e o que sacrificamos e celebramos em nossas vidas.

O que impregna de verdade são as vibrantes personalidades de Olivia e Serge, além da interessante mis-en-scène de belos atores fingindo tão completamente que chegam a fingir que é dor a dor que realmente sentem.

Com olhar apuradíssimo para grandes imagens, a fotografia gentil e microscópica em todos os momentos mais íntimos das personagens reais, faz parecer que se está assistindo a um filme, com um grande roteiro de drama europeu como poucos.

Um filme sensível, deliciosamente degustável, com uma excelente competência técnica, que “aprisiona” o espectador durante seus 87 minutos de duração.

A completude de um “ciclo de vida” é a imediata imagem que nos vem à mente ao passo que o filme avança e o desfecho da obra, com o belo Samba da Rosa de Vinícius de Moraes e Toquinho, nos emociona e nos faz ver mais uma pequena vida com olhares de cumplicidade, mais uma primavera que chega ao mundo no mesmo momento em que o filme que ela gerou chega ao fim. É o início de mais um ciclo.

Recomendadíssimo!!!

Assista o trailer

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Monsieur e Madame Adelman 


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Portugal por Uma Portuguesa Tropicalizada

Você conhece Portugal? Conhece mesmo? E os portugueses, seus hábitos? A cultura portuguesa ? Como uma portuguesa tropicalizada lhe digo que algumas dicas podem ser bem úteis ou pelo menos interessante de se saber para quem quer ir além do óbvio.

Contei no meu primeiro post (leia aqui) que apesar de portuguesa falo “brasileiro”* porque fui casada com um carioca. Mas ter sido casada com um brasileiro, ensinou-me muito mais do que o “brasileiro” que cá em Portugal aprende-se também assistindo a novelas.

Tropicalizei-me. E o que quer dizer isso? Quer dizer que entendo tanto um lado, bem como outro. Assim sendo digo que podemos até ser povos irmãos porém existem diferenças abissais de comportamento e hábitos.

Geralmente o brasileiro, por ser muito descontraído no trato em geral, não percebe a formalidade do português, e isso assusta demais num primeiro momento. Os portugueses, é claro.

No Brasil tratar o outro por “você” é de uma enorme informalidade, certo?

Pois aqui não. “Você “é um tratamento que distancia o outro. Só será próximo de alguém quando este lhe tratar por “tu“. Você perceberia a diferença de tratamento entre “- Estás boa?” – e “Está bem?” ? Não, né? Pois. Quando alguma amiga lhe perguntar se estás boas, considere essa sua amiga mesmo. Antes disso você é para ela uma conhecida.

Esta é apenas uma das sutis diferenças. Nada sério, nem melhor nem pior. Algo a se saber como outras coisinhas que quem sabe terei oportunidade de contar-lhes .

Uma coisa importantíssima é a saudação. O jeito que se aborda uma pessoa, seja ela quem for. No Brasil, se você precisa de uma informação, como começa educadamente a frase? Deixa eu adivinhar:

-Por favor, poderia me informar como faço para ir até a Rua do Cais?

OU

-Com licença, o senhor poderia me informar onde é a Rua do Cais, por favor?

Educadíssimo dirá você. Mas não. Se um português for abordado algum dessa maneira, com certeza ele dirá num tom de repreensão:

-Bom dia! No que posso ajudar?

E ainda acrescentará com certeza: Humpfff !!Brasileiros..

Aposto que você não sabe o que estava errado, né? Aliás, não está errado, dirá você. Mas para o português estava errado sim! Toda saudação há de se começar por bom dia, boa tarde ou boa noite. TODA!

Ahhh, entendeu né? Será? Então diga o que há de descabido na frase abaixo.

Bom dia! Moça, você poderia me informar onde é a Rua do Cais?

Aqui é ainda pior. É capaz da moça lhe virar as costas e sair andando pisando firme e muito ofendida.

Acontece que na terra dos Lusíadas moça é sinônimo de mulher de reputação duvidosa. Aqui, quando se referir a uma jovem mulher, é sempre rapariga por mais estranho que possa nos parecer.

Acertando a saudação, o português é tão solicito que é capaz de lhe levar até a Rua do Cais, mesmo que esse não seja seu caminho. A gentileza faz parte do ser português.

Lusitanos têm um orgulho monstruoso por terem descoberto o Brasil, e desse gigante ter lhes pertencido . Pense bem, o Brasil tem um território de 8.516.000 km². Isso é 90 vezes o tamanho de Portugal (95.000 km²). 90 vezes!! Achamos as proporções todas coisa descomunal. Os tempos de deslocamento seja pela distância ou pelo trânsito são para os portugueses coisa inimaginável. E aí vem um brasileiro e diz que em 15 dias consegue conhecer Portugal de cabo a rabo (ahhh rabo aqui é bumbum. Não é tão feio assim falar rabo para mencionar nossas delicadas nádegas). Mas quem fala isso, denota enorme desconhecimento ou quem sabe até ingenuidade. É impressionante como há coisas a serem vistas, conhecidas e descobertas num país de dimensões tão pequenas. Há história em cada pedacinho de chão onde pisaram Eça de Queiroz, Luis de Camões, Saramago, Fernando Pessoa…

Vishhh, todo meu ufanismo parece estar aflorando nesse texto. Desculpe, mas sou portuguesa e somos orgulhosos demais de nosso país. E tenho certeza que vai concordar comigo que do seu país e dos seus irmãos, só você pode falar mal. Pois. Assim somos nós também.

E apesar de muitos acharem que o português não tem senso de humor, temos sim!!

Talvez um humor diferente do Brasileiro ou até mesmo do latino. Pode parecer pretensão, mas acho que fazemos rir da maneira que fazem os britânicos.

Olha só uma maneira gira (legal) de você conhecer um pouquinho mais de Portugal com muito senso de humor. Vale a pena assistir mesmo que já tenha visto esse vídeo que foi feito para rebater o tal ‘America First’ de Donald Trump há 2 anos. Garanto risadas.

America First, Portugal Second

Olha, tem tanta coisa para falar da Terrinha que acho que vou fazer uma série de textos. O que acha? Se começar a ficar chato me avisa, ok?

*Para os portugueses, os brasileiros falam o brasileiro português brasileiro. E eles sim, falam português.

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Barbara Godinho
Barbara Godinho

Sou uma Portuguesa meio tropicalizada. Moro em Lisboa, já fui curadora de museu e exposições. Hoje trabalho com turismo. Apaixonei-me pelo projeto Dominique e cá estou a colaborar.

2 Comentários
  1. Adorei! Agora sei que tenho cometido muitas gafes das quais meus amigos virtuais portugueses, se divertiram e riram muito…Mas…Quantas palavras eles me obrigaram consultar o google? Então estamos quites …Adoro meus amigos portugueses!!!❤❤

  2. Fantastico! Ri muito, como filha e neta de portuguêses eu posso. E amo essa terra! Continue as postagens por favor! Obrigadinha!

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Eliane Elias perfeita ao piano

Esta semana fui  assistir ao show da Eliane Elias aqui em Portugal. E se teve algo que me impressionou além de seu piano foi sua segurança e autoestima.

E por coincidência li ontem o post da nossa Dominique Eliane com a análise do texto que Luiz Fernando Veríssimo escreveu sobre egos envolvendo Picasso e seu quitandeiro. Talvez por conta da reflexão que aquela história me causou, prestei tanta atenção no comportamento da música. Se não leu o post ainda, leia agora (aqui) porque vou dar spoiler e o texto vale a pena.

Pois então, lá vemos que além de toda a importância já preconizada da tão famosa  autoestima, o que fica é que só nos dão valor quando nós mesmas nos valorizamos e principalmente nos gostamos.

Voltando ao tema principal de hoje que é Eliane Elias. Se você não tem ideia de quem seja essa jazzista brasileira, não se sinta mal ou desinformada. Apesar de brasileira, Eliane Elias fez toda sua carreira no exterior.

Pouco conhecida em sua terra natal, sabe-se lá porque, ela é um fenômeno da música instrumental e cantada no hemisfério norte.

O show foi no Centro Cultural de Belém. Ahhh o CCB merece que eu fale só dele em algum outro texto, pois é um complexo cultural que amo.

Comprei com muita antecedência pois sou chata. Se é para ir a show, tenho que sentar pertinho do artista. Vê-lo muito de perto bem como quase conseguir sentir seu perfume, porque senão vejo por dvd ou no youtube.

E colega, já fui a muito estádio. Assim sendo, nessa altura do campeonato quero um pouquinho de conforto.

Bem, voltando a autoestima e ao show em si.

Pontualmente, sim, pontualmente às 21h Eliane Elias entra no palco acompanhada de um contrabaixo e uma bateria. Usa um vestido justo, ligeiramente acima do joelho que brilha um pouco porque o palco pede brilho, né? Salto altíssimo e uma cabeleira loira digna das jovens e famosas blogueiras. Sim, cabelos longos, muito longos. Por que falo isso tudo? Porque Eliane Elias é uma Dominique nascida em 1960. E sem medo de ser feliz, ousa usar um vestido bem justo e relativamente curto em suas exuberantes curvas com suas madeixas que passam e muito da altura do ombro.

Eliane Elias Em Belém

Aí ela senta em seu banquinho a frente do piano e toca as primeiras notas. Pronto. Entendi tudo.

Fogo!! Ela toca com tanta facilidade que parece estar a  brincar. Chacoalha-se toda acompanhando, ou melhor, dançando enquanto toca.

Sabe o que é isso? Intimidade. E essa intimidade tão natural impressiona e seduz quem assiste.

Adoro quando o artista conversa com a platéia pois desse modo me parece que gera-se uma certa cumplicidade, sei lá. E a cada música Eliane conta uma histórinha saborosa ora sobre composição ora sobre os personagens envolvidos.

Quando Lili canta (permita-me assim chamá-la) ouvimos uma voz aveludada que talvez já tenhamos ouvido até melhores.

Não sei se ela percebe que cantar não é seu forte, mas age como se fosse Maria Callas.

Sem a menor cerimônia desfila os Grammys que ganhou. Entretanto faz questão de contar que o primeiro veio depois no  seu 25o disco e após 7 infrutíferas indicações.

Contou com muito orgulho, que aos 17 anos acompanhou em turnê Tom, Vinicius e toquinho.  E com muita naturalidade, como se fosse merecedora e naturalmente por consequência de seu talento conversar com estes mestres madrugada afora. Aiii que inveja!!! Bem, num desses papos, Tom confidenciou-lhe que o compositor que mais admirava no mundo era Dorival Cayme. Que não havia outro. Mas que por um capricho do próprio ídolo, compôs apenas 100 músicas. APENAS!!

Contou isso de maneira coquete aproveitando para emendar numa música de Caymmi, Morena Rosa. Neste momento ela se levanta para cantar em pé longe do piano, desfilando pelo palco.

Vi ali toda a segurança e autoestima daquela Dominique. Com sua mania de passar a mão na cabeleira, sambando discretamente e esbanja charme aproximando-se dos dois outros músicos.

E amigas, o mais giro é ver que Eliane Elias com aqueles quilinhos a mais próprios desta fase de vida das Dominiques, desfila com a certeza de que está muito gostosa. E olha..Tendo a concordar!!

Faz tanto charme para o menino baterista enquanto canta, que achei que era uma paquera. Vira-se para voltar para o piano, passando pelo grisalho músico do contra-baixo. Vê-se ali uma troca de olhares intensa e cúmplice. Óó raiossss! Como pode ser ela tão segura??

Assim que saí do teatro fui ler sua biografia. Descobri para minha surpresa, que ela é casada com um dos músicos que a acompanhava no palco aquela noite. E não é com o miúdo da bateria mas sim com o charmoso homem que sorriu para ela durante todo o espetáculo.

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Barbara Godinho
Barbara Godinho

Sou uma Portuguesa meio tropicalizada. Moro em Lisboa, já fui curadora de museu e exposições. Hoje trabalho com turismo. Apaixonei-me pelo projeto Dominique e cá estou a colaborar.

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Novos amigos? Na minha idade?

Fui a uma exposição semana passada de uns amigos galeristas. Ahhh adoro esses dias de vernissage que são animadas com gente de toda parte.

Além de estar linda, ou até por causa disso estava lotadíssima. Bom para meus amigos, mas para uma mulher depois dos 50 anos pode começar a ficar um tantinho quente demais. Hora daquela saída estratégica para meu cigarrinho.

A sensação de sentir aquele ar gelado no rosto ao sair de um lugar abafado é libertador.

E dou início a meu delicioso ritual : pego minha carteira de cigarros, abro, escolho aquele que não desorganizara as fileiras, acendo e dou a primeira tragada com um prazer descomunal. Ao soltar a fumaça no escuro daquela noite, percebo alguém a me observar. Uma mulher parada também na porta da galeria olhava para mim e para a fumaça de meu cigarro com uma certa fixação. Difícil explicar aquele olhar.

Imediatamente e com a voz mais gentil que consegui, para não assustá-la de seu devaneio, abri meu maço de cigarro e ofereci:
– Boas….Aceita um?

-Ohh não, obrigada. Parei de fumar há quase 6 anos. Desculpe, mas estava tentando fumar junto com você . Desculpe novamente se pareci uma psicopata.

E começamos naquele momento um papo divertido, com ela me contando as dificuldades que teve para largar o vício. Percebi que ela tem uma veia dramática pronunciada quando falou que em sua vida há duas coisas que de que se lembra todo os dias: Do pai dela e do cigarro. Até agora não sei quanto daquilo foi uma frase de efeito ou uma verdade absoluta expressa de maneira jocosamente dramática.

Apresentamo-nos. Ela se chama Dominique. Brasileira, mais ou menos da minha idade, e vem com uma certa frequência a Portugal.

Apesar de ambas termos saído para “refrescar”a essa altura ja estávamos sentindo frio mesmo. E nossos amigos já estavam chamando. Antes de nos perdermos porém, ela me contou do projeto Dominique, e das Histórias de Dominique. Toda a ideia de valorização da mulher sem radicalismos e rancores.

Não pensem ,vocês brasileiras, que aqui em Portugal é muito diferente do Brasil . Digo isso com conhecimento de causa porque sou nascida e criada cá em Lisboa porém fui casada com um brasileiro. Na verdade um carioca. Não, meu ex é mais que carioca. Ele é do Leblon  e é assim que se define. Desculpe, não resisti a farpa.

Mas este é o motivo que escrevo em “brasileiro”. Ahhh Você não sabia? Aqui na Terrinha, falamos Português, e os brasileiros falam Brasileiro. E é assim que se diferencia. Pronto. Se bem que por vezes tenho certeza que deixo escapar alguns “Portuguesismos”

No dia seguinte, curiosa que sou entrei no site dessas mulheres . Comecei a ler as histórias e não consegui parar. Fiquei hipnotizada.

Mandei um e-mail para o site, tentando alcançar Dominique que não tinha me deixado contactos. Pouco depois recebo sua resposta.

Aceitou meu convite para um café!! Ora, que porreiro*.

Gente..Está a parecer que estou interessada nela, pois não? Mas que nada. Aliás nada contra porém não é esse o caso. Muito gira** minha nova amiga e seu projeto. Porque já me sinto sim amiga desta e de muitas outras Dominiques que encontrei no site.

Marcamos uma prosa no Café Cotidianos no Chiado. Adoro aquele lugar e Dominique não conhecia. Por lá ficamos até sermos postas a correr para poderem fechar o estabelecimento.

E gente, como me envolvi com esse projeto. Como gostei de tudo isso. E como tenho histórias para contar.

Então, muito prazer! Eu sou Barbara Godim, portuguesinha completamente tropicalizada, e com a certeza de que amigos são nosso maior patrimônio nessa altura da vida.

Vou escrever algumas histórias, alguns casos verdadeiros, algumas lendas e tentar mostrar um Portugal diferente daquele que você tem visto nos blogs.

E principalmente, quero fazer amigos. Quero te conhecer e conversar com você.

Porque envelhecemos enquanto temos capacidade de fazer novos amigos – já dizia uma velha nova amiga.

NE * porreiro = bacana

** Gira = Legal.

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Barbara Godinho
Barbara Godinho

Sou uma Portuguesa meio tropicalizada. Moro em Lisboa, já fui curadora de museu e exposições. Hoje trabalho com turismo. Apaixonei-me pelo projeto Dominique e cá estou a colaborar.

2 Comentários
  1. Adorei!! Gosto muito de ler, adoro um boa história. Sou uma “Dominique” de 76 primaveras, verão, outono e inverno. Até mais abraços cordiais.

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