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Areias do Seixo, um hotel em Portugal a ser conhecido.

Uma hora o turismo mundial vai normalizar e quando isso acontecer, Areias do Seixo é destino imperdível.

Em Portugal, os hotéis voltaram a funcionar bem mais cedo que no Brasil, e em junho, todos já tinham adotado medidas de segurança super rígidas e adequadas a segurança se seus hóspedes.

Já na primeira semana de julho, sem medo de ser feliz, escolhi um hotel que há tempos estava querendo conhecer, em Santa Cruz, uma praia próxima a Lisboa, bem pertinho mesmo.

Fui com a minha melhor companhia, em outras palavras, eu comigo mesma. Desculpe a falta de modéstia, porém para viajar sozinha há de se gostar da própria sombra e principalmente aguentar o barulho dos próprios pensamentos.

Santa Cruz é uma vila de pescadores do concelho de Torres Vedras. A viagem de 70 km pela autoestrada é de cerca de 1 hora. Para você que é paulista, é como se estivesse indo para o Guarujá pela Imigrantes, sem trânsito, claro.

Fazia muito tempo que estava namorando o hotel Areias do Seixo, entretanto, achava caro e romântico demais para ir desacompanhada. Depois de tudo que passei nos últimos meses (escrevi nesse texto aqui), percebi que caro mesmo é meu bem-estar e se for esperar um par romântico para ir a certos lugares é capaz de nunca conhecê-los. Não que eu seja pessimista, mas quem disse que meu futuro amor vai querer ir à Santa Cruz?

Sempre lembrando que caro é tudo aquilo que não vale, entrei no site para fazer a reserva e qual não foi minha surpresa quando vi que até uma determinada data, eles estavam com 33% de desconto? Pois é, Não está fácil para ninguém e nessa pandemia o setor hoteleiro está tendo que se reinventar.

Portugal reabriu antes de muitos lugares, e entendi porque ao chegar ao hotel. É muito impressionante o nível de exigência de segurança em relação a normas sanitárias.

Clean & Safe
O ministério do Turismo de Portugal concede selo a estabelecimentos que cumprem todas as normas e regulamentações de segurança em relação ao COVID-19. Essa é uma maneira de deixar o turista confortável.

Lá chegando, encontrei a porta do hotel fechada, sendo que só abriram mediante minha identificação.

Já na entrada fiquei encantada. Adoro esse estilo de hotel onde tudo é super descolado, transado. O luxo está no detalhe que nunca é o que você imagina. Pode até ser pretensão, mas minha cara, algo meio Boho Chic, sofisticadamente simples.

A simpática Andréa, acompanhou-me a meu quarto que é um dos 14 do hotel. Reservei o que eles chamam de quarto Jasmim, pois lá não usam números, mas nomes para identificar as habitações. Mi Ma Bo, Quarto que Voa, Oxalá, Três Desejos, Sem Hora Marcada, são outros nomes que consegui ler nas portas de meus vizinhos – interessante, não acha?

O Quarto

Andrea, mostrando-me os detalhes daquele quarto em que ficaria os próximos 3 dias perguntou se eu sabia que o hotel por ser totalmente sustentável, não tinha ar condicionado. Confesso que fui acometida de um certo pânico junto a um repentino e inexplicável calor, provavelmente, psicológico. Minha simpática anfitriã sorriu e explicou que a arquitetura era propícia para a ventilação e que provavelmente não sentiria calor e que aquela bela lareira em frente a cama talvez fizesse mais necessária. Bem, a noite iria dizer, e meus afrontamentos (fogachos) dariam o veredito.

Ela saiu, e pus-me a desarrumar minha bagagem, ao som da playlist Areias do Seixo. Fiquei encantada com a seleção que tocava, e olha que sou chata, muito chata no que se refere a música. Não foram poucas às vezes que usei meu aplicativo para reconhecer o que tocava.

Um charme os quartos do Areias do Seixo.
O banheiro é um espetáculo a parte.

Deliciei-me no duche com vista para o entardecer. Coisa de filme. Desci para um drink e para o jantar.

Muitos casais já se encontravam no bar, aliás, só casais sendo eu a única pessoa desacompanhada mas também não vi nenhuma mesa de 4 pessoas.

Se eu me incomodei se estar sozinha num hotel tão romântico? De maneira alguma, entretanto, a experiência deve ser outra para casais apaixonados, o que não invalida a minha.

O Restaurante Areia do Seixo

Erro meu não saber o nome do Chef do restaurante Areias do Seixo pois comi como há tempos não o fazia. Vale a pena, um dia, uma visita, nem que seja só para lá jantar. O menu é sempre uma escolha do chefe de acordo com os produtos colhidos da horta no dia.

Uma caminhada pelo hotel depois do jantar, um chá de erva príncipe e resolvi que era hora de me recolher. Qual não é minha surpresa quando chego no quarto e ele está com velas acesas por todos os lados. Coisa mais bonitinha.

O sono

Seja lá por hábito ou apenas para ouvir barulho fui em busca do controle remoto para ligar a TV. Espera. Mas que TV? Procurei muito, pois fiquei com vergonha de ligar na recepção perguntando onde esconderam o aparelho. Depois de algum tempo entendi que o quarto não tinha TV. Nem frigobar, além do ar condicionado que já citei. Well my dear friend, em Roma como os romanos, só que no meu caso, o ditado deveria ser em Roma como O romano, já que o plural não se aplicava. Reconheço que a televi~\ao não fez a menor falta, dando-me a oportunidade de ler. Já o frigobar, para quem é viciada em água gelada e numa boa Coca Zero (pode me julgar, gosto mesmo), fez muita falta.

Segui o conselho da Andrea e deixei a janela aberta com as cortinas abaixadas e dormi muitíssimo bem, quem diria.

Acordei cedo e corri. Corri para o pequeno almoço ( café da manhã), ou julgou que ia sair correndo? Eu hein? Depois e só depois do café fui fazer o reconhecimento da área externa que levava a praia. Passei pelas suites que não são no corpo do hotel, essas sim para pombinhos mais do que apaixonados.

Na volta, peguei uma das bikes que o hotel oferece e fui até Santa Cruz propriamente dita.

Muito fofas as bikes disponibilizadas pelo hotel.

O Almoço

Fui passeando de bicicleta pela orla até chegar no Noah Beach que é um restaurante pé na areia pertencente ao Hotel Areia do Seixo. Fiz praia lá na frente e almocei uma belíssima Garoupa.

Assim segui essa vidinha besta por mais dois dias ainda usufruindo do Spa e da piscina do hotel sempre com as anteninhas ligadas de maneira a perceber cada um dos detalhes que me surpreendiam a todo instante.

Ahhh, importante contar. Uma amiga saiu de Cascais para passar o dia comigo no Hotel, entretanto não permitiram sua entrada. Quase morri de vergonha. Pedi, implorei, expliquei, mas nada convenceu a gerência do Areias do Seixo que justificou que a segurança dos hóspedes nessa época de Covid-19 está em primeiro lugar e não abririam exceção para nenhum visitante. Quer saber? No final das contas, achei super profissional.

O que fiz com minha amiga? Passamos o dia no Noah Beach e foi muito bom.

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Barbara Godinho
Barbara Godinho

Sou uma Portuguesa meio tropicalizada. Moro em Lisboa, já fui curadora de museu e exposições. Hoje trabalho com turismo. Apaixonei-me pelo projeto Dominique e cá estou a colaborar.

1 Comentário

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Voltar a Minha Terra Natal

Faz tempo que não escrevo para Dominique. É capaz que nem lembre mais de mim, aquela portuguesa tropicalizada que casou com um brasileiro do Leblon.

Bem, como disse em outro texto que escrevi, por conta de um casamento de mais de 2 décadas, falo um português bem brasileiro além de outros detalhes.

Depois de 25 anos morando no Brasil, os filhos cresceram, o casamento acabou e não vi mais sentido em continuar longe da minha terra natal. Não necessariamente nessa ordem.

Resolvi voltar para Portugal, onde estavam parte da minha família e amigos de infância.

Claro que ao longo desses anos todos que morei no Brasil, visitei Portugal com uma certa frequência, não a desejada, mas a possível quando se está a criar filhos e fazendo a vida. Mesmo quando passávamos grandes temporadas, um mês ou mais, parecia ser apenas uma breve passagem. Pouco a pouco passei a ser turista no lugar em que nasci.

Não digo que foi fácil ficar tão longe dos meus por tanto tempo, mas também não foi uma tragédia, até porque eu que escolhi essa vida de expatriada, por assim dizer. Sendo que fui muito bem recebida pela família do meu ex, sem nunca esquecer que era família DELE e que no final das contas sangue sempre fala mais alto.

Fiz amigas e algumas super amigas de quem jamais me separarei mesmo com um oceano de distância, entretanto, reconheço, que mesmo com todas as mais modernas ferramentas de comunicação, o bom mesmo é o tête a tête sendo que alguns assuntos só mesmo se pudermos cochichar, sabe como é?

Entre os muitos motivos para meu regresso talvez o mais importante seja minha mãe, que, apesar da estupenda saúde, já passa dos 80 anos e não suportaria a dor que passei por estar longe quando o meu pai faleceu. Está na hora de ajudar os meus irmãos nesse sentido.

De mais a mais, parece que quando envelhecemos começamos a querer ficar perto de nossas lembranças mais longínquas para que elas não esmaeçam ou até mesmo desapareçam nas falhas de nossas memórias.

Como foi minha volta a minha terra natal? Mais difícil do que imaginei.

Bem, não é só desligar um botão e ligar outro.

Partidas são partidas e recomeços, geralmente, são edificantes, todavia, esse bom sentimento vai surgir apenas no final do processo, quando já conseguimos ver o tal “recomeço” com distanciamento histórico.

Para tentar sofrer menos, resolvi que não cortaria totalmente os vínculos com o Rio de Janeiro. Como se isso fosse possível para quem tem 2 filhos cariocas! Decidi manter um pequenino flat na cidade maravilhosa.

Procurei morada perto do conselho onde nasci e cresci. Agora, ninguém vive na Cidade Maravilhosa por 25 anos impunemente, de maneira que morar perto da orla, mais que um luxo, tornou-se uma necessidade. Assim sendo, mudei-me para Cascais, onde fui generosamente acolhida e não me arrependo uma vírgula da minha escolha.

Tal e qual, ninguém fica longe de Portugal por 25 anos impunemente. As diferenças culturais assimiladas por mim, se faziam notar a todo instante.

Só para ilustrar: nunca perdi o meu sotaque lusitano, sendo que em qualquer lugar que chegasse no Brasil, a primeira coisa que sempre ouvi foi a inevitável pergunta acompanhada de um simpático sorriso – É portuguesa? Ora pois! Sim, sou. Como adivinhou? – brincava eu de maneira coquete.

Agora pasme! No meu regresso a terra natal, qual não é meu espanto quando vejo que os meus conterrâneos julgam-me brasileira justamente pelo meu sotaque. Como assim? Exatamente!

No Brasil sou considerada portuguesa e em Portugal acreditam que sou brasileira. Como disse, esse é o preço a pagar por “abandonar” não um, mas dois países ao longo da minha vida.

Quando casei e finquei pé no Rio, uma das coisas que mais senti falta eram de referências.

As mulheres com quem lá convivi conheciam-se da vida toda, e faziam questão de mencionar o passado, aquele que justamente eu não fazia parte, a cada 5 minutos. O pediatra das crianças era o pediatra que outrora tinha sido delas. Chamavam as mães uma das outras de tia, apesar de não terem laços sanguíneos algum. Passaram férias juntas em Búzios, Angra e Cabo Frio. Morriam de rir ao relembrar o Circo Voador e os seus shows na década de 80. Sentia-me uma alienígena.

Com o tempo, construí as minhas próprias memórias, virei tia de amigos dos meus filhos e acabei por conhecer o Circo voador. Foram muitos bons momentos e outros nem tanto, aliás como a vida deve ser.

A minha adaptação ao meu velho novo mundo lusitano correu bem apesar de um pouco solitária no princípio, afinal a vida de todos e de tudo que eu conhecia não tinha parado por 25 anos a minha espera. Por fim, tudo deu certo, já estou climatizada e completamente inserida. Sinto-me pertencente novamente.

Como o meu trabalho é e sempre foi remoto, posso passar temporadas no Brasil quando a saudade aperta assim tenho a ilusão de ter sempre o melhor dos dois mundos.

Penso que sou uma pessoa muito feliz com essa vida que escolhi, pois, sofro para ir, e mais ainda para voltar. Isso só pode significar que sou muito feliz em ambas as minhas pátrias, na terra natal e na terra escolhida. Sou uma grande privilegiada.

Bem, a história que ia contar aqui era outra, mas acabei numa digressão sem fim e o meu último Carnaval no Brasil vai ficar para o próximo texto. Assim pelo menos comprometo-me a escrever semana que vem, tá?

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Barbara Godinho
Barbara Godinho

Sou uma Portuguesa meio tropicalizada. Moro em Lisboa, já fui curadora de museu e exposições. Hoje trabalho com turismo. Apaixonei-me pelo projeto Dominique e cá estou a colaborar.

2 Comentários
  1. Bom conhecer a sua história. Me dá um pouco de alento. Só que fiz o caminho inverso e resolvi vir envelhecer num lugar sobre o qual não tenho memórias. Estou a tentar construí-las. Assim, vou seguindo por cá.

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Confusões de uma Dominique brasileira numa academia portuguesa

Lembra do texto que te falei que meu nome do meio agora era Recomeço e o sobrenome Confusão? Não? Então leia aqui para entender melhor o “causo” que vou contar agora. Mas se não estiver afim não precisa, basta saber que me mudei para Portugal recentemente.

Qual é a primeira coisa que fazemos quando chegamos a um novo país?

Depois de procurar onde morar, mobiliar, ver plano de celular, TV, luz, ligar o gás, aprender a pegar transporte público, arrumar os armários, a cozinha, esperar chegar os eletrodomésticos…… ufa! A primeira coisa que se faz é entrar para uma academia!! Afinal de contas meu lema continua sendo “Mens sana in corpore sano” .

Além do que a academia pode ser um ótimo lugar para fazer amigos. Poderia, se eu não tivesse chegado chegando.

Sinceramente, eu acho que não foi tão grave o que aconteceu. Diga-me você a sua opinião.

Fui visitar 3 academias, todas perto o suficiente de minha casa para que eu fosse a pé.

No que diz respeito à malhação, sou exigente. Afinal, sou brasileira e nasci tendo que colocar biquini. Isso não é para qualquer povo não minha gente. É mais pressão do que torre de controle de aeroporto.

De cara descartei uma delas por ser ao lado de uma famosa doceria local. O quê???? Pra que passar por essa tentação? Ainda mais depois de me matar numa aula e, me conhecendo, achar que posso e devo. Nananinanão.

A academia escolhida

Fiz uma investigação minuciosa dos espaços de cada uma delas. Salas, ventilação, vestiários, armários, banheiros, chuveiros, higiene. Acabei por gostar mais da Fuerza Fitness, que era bem equipada e moderninha.

Tenho certeza de que os proprietários ficaram muito honrados com minha escolha, pois depois do detalhado questionário que enviei antes de assinar o contrato, perceberam que sou uma cliente muito rigorosa.

Lá vou eu para minha primeira aula de spinning. Todo primeiro dia dá um friozinho na barriga, não dá? Seja da aula no pré primário, na universidade, na academia ou na aula de tricô.

Quem vamos encontrar? Como seremos recebidas? Será que os outros estão em um nível melhor que o meu? Vou passar vergonha?

Fui guardar meu casaco e minha bolsa no vestiário, resolvi fazer um pipizinho básico just in case e lá fui eu.

A academia estava lotada provavelmente porque era o horário das 7 da noite, e a aula de spinning era das mais concorridas. Apresentei-me ao professor, um espanhol bem gato aliás, e fui pra minha bike.

– “Empecemos … Fuerza … uno dos tres cuatro….”

Ahhh, por isso o nome da academia! Deveriam ser todos Espanhóis.

De cara percebi que a turma era boa e entrosada, além de todos estarem obviamente muito mais bem preparados que eu. Resolvi que sairia de lá carregada, mas terminaria aquela aula. Foco, Foco, Foco!! Concentração.

Ahhh.. Piada.. Deu 20 minutos desci da bike amaldiçoando todos os ibéricos, inclusive o presunto e o bacalhau (que aliás é da Noruega).

Tomando água do lado de fora da sala, ainda ofegante e com a camiseta molhada, reparei no alto-falante da academia. Já era a terceira ou quarta vez que chamavam a Maria Ipi.

Pára! Pára!

Será que por alguma acaso essa seria eu? Nunca te contei que minha mãe muito religiosa, enfiou um Maria no meu nome né? Não… Mas por que contaria se nem eu me lembro dele.

Sim… sim… Sou Maria Dominique Hip. Daí o Mara Ipi, uma vez aque o espanhol provavelmente e logicamente não pronunciou o H do meu inglês Hip.

Afff, dá um desconto, vai. Eu estava tonta do exercício e Maria Ipi para mim era um outro ser..

O espanhol no altofalante já pedia em tom de súplica que a Maria Ipi fosse ao vestiário urgente.

Lá fui eu, confesso que bem curiosa e quando entrei logo vi uma rodinha de pessoas em volta do meu armário. No centro estava uma mulher enrolada na toalha, muito vermelha, possivelmente de raiva, gritando com alguém.

Fui chegando de mansinho, quase que na ponta do pé. Queria saber o que estava acontecendo antes de me apresentar, mas não rolou. Todo mundo me conhecia. Lembra da minha pesquisa minuciosa, quase investigativa? Pois então, não havia quem na academia não conhecesse o tal questionário da brasileira “exigente”.

Todos viraram-se para mim e a mulher enrolada na toalha falava num idioma que eu não entendia. Na verdade gritava. Olhei confusa para os funcionários que tentavam acalmá-la.

Resolvendo a confusão na academia

– Maria Ipi?

– Sim, mas todos me chamam de Dominique Hip – não, não era hora de ser engraçadinha.

– Este é seu armário? – Perguntou o espanhol apontando para um armário com a porta escancarada.

Olho seu interior e vejo minha bolsa e meu casaco. Ué… Quem foi que abriu meu armário?

Dominiqueeeeeee, Hellooo! O excesso de oxigenação do spinning queimou neurônio? Que parte eu não tinha entendido?

Quando voltei de meu pipi, com o cadeado na mão, tranquei o armário ao lado, e adivinhe? Era o armário daquela gringa.

Comecei a pedir desculpas, apesar de ela continuar gritando, só que agora eu estranhamente entendia o que ela falava.

Gente, ela não era gringa! Era portuguesa, da gema, mas estava tão nervosa e falando tão rápido que aos meus ouvidos destreinados pareceu-me sânscrito. Disse que estava atrasadíssima por minha causa, que chegaria atrasada para reunião que aconteceria a 30 km dali mesmo que pegasse um Uber.

– Arrume-se e me espere na porta. Que horas é sua reunião? Daqui 30 minutos? Você chegará.

A aula de spinning foi pinto perto do pique que dei até meu carro.

Ela já estava na porta quando passei, entrou no carro, colocou o cinto. Vi que estava com a maquiagem na mão… Ahhhh, se ela achava que conseguiria se maquiar naquele carro, ela não conhecia meus dotes de direção defensiva.

E Lá fui eu, costurando, furando farol, fazendo absolutamente tudo errado. Imagino que ela deva ter se arrependido amargamente de ter entrado em meu bólido, mas não seria eu a culpada por ela perder aquela reunião.

Chegamos! Chegamos a tempo da ex-gringa ainda passar no banheiro para se maquiar. Foi tanto estresse que acabei nem perguntando o nome dela.

Fiquei uma semana sem aparecer na academia na esperança de que esquecessem de mim, da chave, do episódio, da minha falta de forma física. Enfim, apagassem aquele dia do calendário de todas as dietas e treinos da Fuerza.

Entretanto ao abrir a porta, escuto em alto e bom som um:

— Maria Ipiiiiiii!

Todos se viraram para minha triunfal entrada.

— Maria Ipi, que bom que voltou, a Susana deixou aqui uma nota para você.

— Susana?

No mesmo momento que perguntei me arrependi, posto que só poderia ser a ex-gringa e para explicar quem era Susana, o espanhol contaria toda a história novamente de maneira que os presentes que provavelmente não sabiam de meu pequeno vexame, passariam a sabê-lo.

E assim ele o fez, com uma riqueza de detalhes impressionante, e num tom de voz que deixava claro o prazer que estava tendo em me fazer rememorar o incidente.

Entregou-me o bilhete de Susana.

“Dominique,

Devo dizer que não tivemos um começo alvissareiro. Poderia bem dizer que só podia ser brasileira, mas acho que isso poderia soar preconceituoso. Entretanto, você ter tido a clareza de tentar fazer com que seu erro não me prejudicasse, correndo riscos e levando multas, sim, porque você as levou, tudo para ajudar uma estranha, também poderia bem dizer ser coisa de brasileira. Então, não vou dar nome aos bois nem a países… Quero apenas agradecer seu gesto e sua generosidade. E pensando bem, tivemos o melhor começo que duas amigas podem ter. Vamos tomar um café?”

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Dominique

Nasceu em 1964. Ela tem 55 anos, mas em alguns posts terá 50, 56, 48, 45. Sabe porque? Por que Dominique representa toda uma geração de mulheres. Ela existe para dar vida e voz às experiências, alegrias, dores, e desejos de quem até pouco tempo atrás era invisível. Mas NÓS estamos aqui e temos muito o que compartilhar. Acompanhe!

5 Comentários
  1. Parabéns por já chegar ao novo país e dirigir e poder estacionar perto de sua academia. Que sorte! O resto do acontecido, foi detalhe.

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Olmo e a Gaivota – lindo, terno, infinitamente fascinante em sensível abordagem sobre a maternidade

Premiado no Festival do Rio 2015, “Olmo e a Gaivota”, filme da diretora brasileira Petra Costa, com codireção da dinamarquesa Lea Glob, traz a união entre ficção e realidade.

Na obra os atores do Théâtre Du Soleil, Olivia Corsini e Serge Nicolaï, são os intérpretes do casal protagonista.

Uma travessia pelo labirinto da mente de uma mulher “Olmo e a Gaivota”, feminino por natureza, conta a história de Olivia, atriz que se prepara para encenar A Gaivota, de Tchekov. Quando o espetáculo começa a tomar forma, Olivia descobre que está grávida, e um problema de saúde coloca em risco a gravidez.

A atriz terá que ficar nove meses em casa, enquanto seu parceiro pessoal e profissional, Serge, continua ensaiando com a Companhia, às vésperas de uma importante turnê por Nova York e Montreal.

Os meses de gravidez se desdobram como um rito de passagem, forçando a atriz a confrontar seus sentimentos e medos mais obscuros. O desejo de Olivia por liberdade e sucesso profissional bate de frente com os limites impostos pelo seu próprio corpo.

Real e o Imaginado

O filme tem uma nova virada quando o que parece ser encenação revela-se como a própria vida. Ou será o inverso? Esta investigação do processo criativo nos convida a questionar o que é real, o que é imaginado e o que sacrificamos e celebramos em nossas vidas.

O que impregna de verdade são as vibrantes personalidades de Olivia e Serge, além da interessante mis-en-scène de belos atores fingindo tão completamente que chegam a fingir que é dor a dor que realmente sentem.

Com olhar apuradíssimo para grandes imagens, a fotografia gentil e microscópica em todos os momentos mais íntimos das personagens reais, faz parecer que se está assistindo a um filme, com um grande roteiro de drama europeu como poucos.

Um filme sensível, deliciosamente degustável, com uma excelente competência técnica, que “aprisiona” o espectador durante seus 87 minutos de duração.

A completude de um “ciclo de vida” é a imediata imagem que nos vem à mente ao passo que o filme avança e o desfecho da obra, com o belo Samba da Rosa de Vinícius de Moraes e Toquinho, nos emociona e nos faz ver mais uma pequena vida com olhares de cumplicidade, mais uma primavera que chega ao mundo no mesmo momento em que o filme que ela gerou chega ao fim. É o início de mais um ciclo.

Recomendadíssimo!!!

Assista o trailer

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Monsieur e Madame Adelman 


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Portugal por Uma Portuguesa Tropicalizada

Você conhece Portugal? Conhece mesmo? E os portugueses, seus hábitos? A cultura portuguesa ? Como uma portuguesa tropicalizada lhe digo que algumas dicas podem ser bem úteis ou pelo menos interessante de se saber para quem quer ir além do óbvio.

Contei no meu primeiro post (leia aqui) que apesar de portuguesa falo “brasileiro”* porque fui casada com um carioca. Mas ter sido casada com um brasileiro, ensinou-me muito mais do que o “brasileiro” que cá em Portugal aprende-se também assistindo a novelas.

Tropicalizei-me. E o que quer dizer isso? Quer dizer que entendo tanto um lado, bem como outro. Assim sendo digo que podemos até ser povos irmãos porém existem diferenças abissais de comportamento e hábitos.

Geralmente o brasileiro, por ser muito descontraído no trato em geral, não percebe a formalidade do português, e isso assusta demais num primeiro momento. Os portugueses, é claro.

No Brasil tratar o outro por “você” é de uma enorme informalidade, certo?

Pois aqui não. “Você “é um tratamento que distancia o outro. Só será próximo de alguém quando este lhe tratar por “tu“. Você perceberia a diferença de tratamento entre “- Estás boa?” – e “Está bem?” ? Não, né? Pois. Quando alguma amiga lhe perguntar se estás boas, considere essa sua amiga mesmo. Antes disso você é para ela uma conhecida.

Esta é apenas uma das sutis diferenças. Nada sério, nem melhor nem pior. Algo a se saber como outras coisinhas que quem sabe terei oportunidade de contar-lhes .

Uma coisa importantíssima é a saudação. O jeito que se aborda uma pessoa, seja ela quem for. No Brasil, se você precisa de uma informação, como começa educadamente a frase? Deixa eu adivinhar:

-Por favor, poderia me informar como faço para ir até a Rua do Cais?

OU

-Com licença, o senhor poderia me informar onde é a Rua do Cais, por favor?

Educadíssimo dirá você. Mas não. Se um português for abordado algum dessa maneira, com certeza ele dirá num tom de repreensão:

-Bom dia! No que posso ajudar?

E ainda acrescentará com certeza: Humpfff !!Brasileiros..

Aposto que você não sabe o que estava errado, né? Aliás, não está errado, dirá você. Mas para o português estava errado sim! Toda saudação há de se começar por bom dia, boa tarde ou boa noite. TODA!

Ahhh, entendeu né? Será? Então diga o que há de descabido na frase abaixo.

Bom dia! Moça, você poderia me informar onde é a Rua do Cais?

Aqui é ainda pior. É capaz da moça lhe virar as costas e sair andando pisando firme e muito ofendida.

Acontece que na terra dos Lusíadas moça é sinônimo de mulher de reputação duvidosa. Aqui, quando se referir a uma jovem mulher, é sempre rapariga por mais estranho que possa nos parecer.

Acertando a saudação, o português é tão solicito que é capaz de lhe levar até a Rua do Cais, mesmo que esse não seja seu caminho. A gentileza faz parte do ser português.

Lusitanos têm um orgulho monstruoso por terem descoberto o Brasil, e desse gigante ter lhes pertencido . Pense bem, o Brasil tem um território de 8.516.000 km². Isso é 90 vezes o tamanho de Portugal (95.000 km²). 90 vezes!! Achamos as proporções todas coisa descomunal. Os tempos de deslocamento seja pela distância ou pelo trânsito são para os portugueses coisa inimaginável. E aí vem um brasileiro e diz que em 15 dias consegue conhecer Portugal de cabo a rabo (ahhh rabo aqui é bumbum. Não é tão feio assim falar rabo para mencionar nossas delicadas nádegas). Mas quem fala isso, denota enorme desconhecimento ou quem sabe até ingenuidade. É impressionante como há coisas a serem vistas, conhecidas e descobertas num país de dimensões tão pequenas. Há história em cada pedacinho de chão onde pisaram Eça de Queiroz, Luis de Camões, Saramago, Fernando Pessoa…

Vishhh, todo meu ufanismo parece estar aflorando nesse texto. Desculpe, mas sou portuguesa e somos orgulhosos demais de nosso país. E tenho certeza que vai concordar comigo que do seu país e dos seus irmãos, só você pode falar mal. Pois. Assim somos nós também.

E apesar de muitos acharem que o português não tem senso de humor, temos sim!!

Talvez um humor diferente do Brasileiro ou até mesmo do latino. Pode parecer pretensão, mas acho que fazemos rir da maneira que fazem os britânicos.

Olha só uma maneira gira (legal) de você conhecer um pouquinho mais de Portugal com muito senso de humor. Vale a pena assistir mesmo que já tenha visto esse vídeo que foi feito para rebater o tal ‘America First’ de Donald Trump há 2 anos. Garanto risadas.

America First, Portugal Second

Olha, tem tanta coisa para falar da Terrinha que acho que vou fazer uma série de textos. O que acha? Se começar a ficar chato me avisa, ok?

*Para os portugueses, os brasileiros falam o brasileiro português brasileiro. E eles sim, falam português.

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Barbara Godinho
Barbara Godinho

Sou uma Portuguesa meio tropicalizada. Moro em Lisboa, já fui curadora de museu e exposições. Hoje trabalho com turismo. Apaixonei-me pelo projeto Dominique e cá estou a colaborar.

2 Comentários
  1. Adorei! Agora sei que tenho cometido muitas gafes das quais meus amigos virtuais portugueses, se divertiram e riram muito…Mas…Quantas palavras eles me obrigaram consultar o google? Então estamos quites …Adoro meus amigos portugueses!!!❤❤

  2. Fantastico! Ri muito, como filha e neta de portuguêses eu posso. E amo essa terra! Continue as postagens por favor! Obrigadinha!

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